Crescendo em meio à crise

15º CONIC | Edição 205 Evento de iniciação científica organizado pelo Semesp registra número recorde de inscrições. Desafio é fazer com que órgãos públicos …

Compartilhe
, / 214 0

15º CONIC | Edição 205

Evento de iniciação científica organizado pelo Semesp registra número recorde de inscrições. Desafio é fazer com que órgãos públicos de fomento aumentem apoio a pesquisas de alunos de instituições privadas

por Eliane Silva, de Ribeirão Preto

André Paterlini

Painéis de trabalhos de iniciação científica no Conic de 2015: pesquisa ganha força entre instituições privadas

 

Como gerar energia eólica com custos menores? Como diminuir os custos de uma bicicleta de aro 12 e ainda melhorar seu desempenho? Como conscientizar as pessoas sobre os incêndios florestais por meio de um game? Como usar um aplicativo para tornar mais responsável a adoção de cães? Os metais da composição do batom são tóxicos ao organismo?

Essas questões foram o ponto de partida de cinco das 2.024 pesquisas apresentadas no 15º Congresso Nacional de Iniciação Científica (Conic) do Semesp. O evento foi realizado nos dias 27 e 28 de novembro na Universidade de Ribeirão Preto, a Unaerp (SP). No total, foram inscritos 2.116 trabalhos, número recorde de inscrições, sendo aprovados 96% para apresentação. Participaram cerca de 3 mil estudantes (alguns trabalhos foram apresentados em duplas ou equipes) de 237 instituições, sendo 184 privadas e 53 públicas, de 20 estados brasileiros.

“O número de inscritos vem crescendo ano a ano, mas desta vez, com a crise econômica e a queda de financiamentos para graduação e pesquisa, nos surpreendeu a quebra do recorde de 2014”, disse Rodrigo Capelato, diretor executivo do Semesp. Para se ter uma ideia desse crescimento, em 2005, foram 994 projetos; em 2010, 1.495; no ano passado, 2004.

Segundo Capelato, nos últimos anos o número de projetos de iniciação científica (IC) nas instituições particulares superou em muito o da rede pública. “Entretanto, isso não derrubou o preconceito das entidades de fomento à pesquisa, que ainda privilegiam os projetos de alunos das instituições públicas”, completa.

A assessoria da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)  informou que estão vigentes 2,3 mil bolsas de iniciação científica e que 1.884 foram concedidas neste ano. No ano passado, a agência desembolsou R$ 19,7 milhões para pagamento das mensalidades de bolsas de iniciação e mais R$ 881 mil para os bolsistas realizarem estágios no exterior. O valor corresponde a 1,8% do investido pela Fapesp no apoio à pesquisa científica em todas as modalidades.

Os números da Fapesp mostram ainda que o apoio a pesquisas de IC desenvolvidas por estudantes da rede privada vem aumentando, mas ainda é bem menor na comparação com a rede pública: no ano passado, 6,77% das bolsas de IC foram para alunos de instituições particulares; em 2013, o percentual foi de 6,38% e, em 2012, só 6,12%. A assessoria de imprensa do órgão afirma que a seleção dos projetos leva em consideração apenas o mérito da pesquisa e ocorre por peer review (análise pelos pares), com pareceres de pesquisadores especialistas.

Uma pesquisa feita pelo Semesp com 2 mil estudantes que inscreveram trabalhos no Conic 2015 apontou que 38,9% não têm qualquer tipo de financiamento ou bolsa de estudos (veja o quadro). Entre os que têm apoio da Fapesp, 17,6% são da rede pública e 8,4% da rede privada. Entre os que têm bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), 4% são de instituições públicas e 1,8% de particulares.

Diante dessa realidade, muitas instituições acabam bancando as pesquisas de seus alunos com bolsas ou outros incentivos. “Quando começamos a investir na IC, há 16 anos, diziam que estávamos jogando dinheiro no lixo”, disse Elmara Bonini, reitora da Unaerp. Segundo ela, a universidade foi a primeira particular do estado a promover a iniciação científica e ainda hoje investe bastante nas áreas que têm menor apoio das agências de fomento à pesquisa.

Metade do fomento para as pesquisas dos alunos da rede privada vem das próprias instituições. “A crise do Fies veio agravar isso, já que afetou a saúde financeira de muitas instituições. E o impacto maior ainda deve ocorrer em 2016”, avalia Capelato. Neste ano, o número de contratos do Fies caiu para menos de 350 mil. Em 2014, havia atingido 700 mil.

José Aparecido da Silva, professor titular da Psicologia da USP de Ribeirão Preto e avaliador de bolsas do CNPq, acredita que a IC é um instrumento de apoio teórico e metodológico que potencializa as chances de um estudante de graduação se engajar na pesquisa científica, aprimorando suas habilidades e levando-o a conhecer o método experimental. “A universidade também ganha muito, porque os trabalhos de iniciação científica aumentam a fidelidade do estudante à instituição, qualificam os melhores alunos para os programas de pós-graduação e tornam a instituição mais agressiva e competitiva na construção do saber.”

Para o professor, o investimento em ciência se reflete diretamente no desenvolvimento de um país. Ele lembra que o Brasil está entre os dez maiores produtores de ciência do mundo e é um dos que mais cresceram em pesquisa nos últimos anos. Porém, em termos de registro de patentes, o país ainda fica bem abaixo de todos os países emergentes.

Os projetos e a premiação

Todas as pesquisas em andamento e concluídas foram julgadas no Conic por avaliadores contratados pelo Semesp. Eles levaram em conta fatores como metodologia, conteúdo científico e qualidade da apresentação. As pesquisas mais bem avaliadas nas cinco áreas do conhecimento (ciências biológicas e saúde, ciências exatas e da Terra, ciências humanas e sociais, ciências sociais e aplicadas e engenharias e tecnologias) receberam premiação de R$ 1 mil (pesquisas em andamento) e R$ 2 mil (trabalhos concluídos), com bônus de 50% para os premiados que participaram da sessão de encerramento. Ao todo, foram distribuídos 12 prêmios.

Renan Henrique Rocha, da Unaerp, ganhou R$ 3 mil na categoria Engenharias pelo trabalho sobre o desempenho da tecnologia no tratamento da água potável. A instituição, que realiza há 16 anos seu próprio Conic, inscreveu quase 300 trabalhos no evento nacional.

Houve também a distribuição de dois prêmios especiais. Um deles, de melhor trabalho, foi para Maiara Alessa Marques, aluna de Serviço Social nas Faculdades Integradas de Botucatu (Unifac), que já havia ganhado na categoria Ciências Sociais. Ela pesquisou se os pacientes com câncer recebem real ajuda das entidades de apoio aos doentes no acesso a seus direitos e benefícios. Maiara concluiu que as ações do serviço social da entidade têm sido efetivas. A dificuldade maior dos pacientes, constatou a pesquisadora, ocorre antes, no acesso aos serviços de saúde para ter o diagnóstico da doença.

O outro prêmio especial, de incentivo à preservação ambiental, foi para três alunos de computação e informática da Faculdade Cenecista de Sete Lagoas (MG), que criaram um game para educação ambiental do público infantil. Entre as brincadeiras, o aluno descobre a quantidade de anos que cada objeto leva para se decompor na natureza.

Pesquisadores, avaliadores, professores e dirigentes, no entanto, foram unânimes em afirmar que a maior premiação é ter um projeto de pesquisa escolhido para apresentação no Conic do Semesp, o maior congresso de IC do país. Silvia Janete Georgetti, aluna de arquitetura e urbanismo do ITPAC Porto Nacional, de Tocantins, não foi premiada, mas disse que participar do congresso era a realização de um sonho. Pela primeira vez, ela e a colega Cássia Querén de Almeida saíram de Tocantins para apresentar suas pesquisas sobre o meio ambiente. Elas estavam empolgadas com a troca de experiências e com as boas avaliações recebidas pela pesquisa sobre a alface e o lixo.

Outro estudante empolgado era Bruno Henrique Menon, da Faculdade de Engenharia de Sorocaba. Ele está desenvolvendo uma estação meteorológica para auxiliar pequenos agricultores de sua região.

O 16º Conic-Semesp será realizado no Eniac, em Guarulhos (SP).

Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN