Formação além do diploma

Para o economista e professor Eduardo Giannetti da Fonseca, a educação não se limita à obtenção de certificados. Trata-se de um processo amplo, que confere aos indivíduos a oportunidade de aprimorarem-se enquanto seres humanos

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© Bel PedrosaCom certo pesar na voz, o economista e escritor mineiro Eduardo Giannetti da Fonseca assume que é filho da elite brasileira. Estudou em instituições de ponta, tendo cursado as graduações de ciências sociais e de economia na Universidade de São Paulo e doutorado na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, onde deu aulas entre 1984 e 1987. O perceptível desconforto expresso ao reconhecer sua origem social contrasta com as – ou se explica pelas – opiniões reveladas após alguns minutos de conversa. Giannetti amarra saberes econômicos a visões filosóficas sobre a importância do acesso à educação de qualidade no Brasil – tema que o preocupa –, e enfatiza essa relação com a “desigualdade de oportunidades” no país.

Autor de dez livros e vencedor do prêmio Jabuti de literatura, em 1993, com Vícios privados, benefícios públicos (Companhia das Letras), o economista também lecionou disciplinas ligadas à história do pensamento econômico na Faculdade de Economia e Administração da USP e deu aulas no Insper. Atualmente, está escrevendo um novo livro, que deve ser lançado ainda neste ano.

Na entrevista a seguir, Giannetti aborda diferenças e proximidades entre o ensino superior oferecido no Brasil e na Inglaterra, e expõe o que acredita ser o modelo universitário ideal: composto por instituições públicas nas quais alunos com alto poder aquisitivo pagam mensalidades e, assim, financiam os estudos de quem não tem condições de acessar faculdades de excelência.

O senhor tem experiências acadêmicas na USP, em Cambridge e no Insper. Quais diferenças destacaria em relação à cultura de estudos dessas instituições?
O estudante inglês que chega à universidade tem a postura de que a sala de aula é apenas um elemento de um processo bem mais amplo de formação, que vai se dar de fato na biblioteca, em grupos de estudos, por meio do esforço individual. No caso de Cambridge, há uma vida acadêmica que não se restringe às horas de aula. Os estudantes são estudantes 24 horas por dia; se não estão em aula, estão na biblioteca ou na cafeteria conversando sobre assuntos da universidade. Enfim, estão imersos em um ambiente que mobiliza neles uma formação completa. Já na USP e no Insper, os alunos, que em geral são da elite, assistem às aulas apenas em um período do dia; acham que se prestarem atenção à aula ou “colarem” na prova está tudo feito, e, quando saem da universidade, estão fora do mundo acadêmico. Pouco se vê esses estudantes usarem a biblioteca fora do período de provas, irem atrás de livros, de textos; eles não usam o período em que são universitários com a plenitude e com a força que poderiam. É uma pena. Em resumo, para o aluno universitário brasileiro, quase tudo o que importa acontece dentro da sala de aula. A vida universitária não é isso. Mas não é à toa que o aluno brasileiro quando vai para a universidade já chega assim, isso é um vício do ensino médio. O aluno fica viciado em um sistema em que recebe “mastigadinho” do professor o que vai precisar para a prova, ou seja, o professor facilita. E se a avaliação aborda alguma coisa que não foi dada em aula, o aluno brasileiro protesta: “como é que você está pedindo na prova o que não foi dado em aula?”. Mas a vida não vai ser assim. Aprender não é receber tudo cortadinho, “mastigadinho” para reproduzir.

É possível encarar a educação para além de uma visão utilitarista em países como o Brasil, onde está vinculada à possibilidade de ascensão social?
Essas coisas estão profundamente interligadas. À medida que uma pessoa teve uma formação completa, uma boa alfabetização, aprendeu a estudar, a organizar um pensamento, a constituir um raciocínio lógico, está preparada tanto para uma vida mais plena, como para uma vida econômica mais produtiva e com um rendimento razoável. Não se pode sacrificar demais nem por um lado nem pelo outro. Não se pode ter uma educação completamente descompromissada com as exigências do mundo em que vivemos, em que a pessoa tem de encontrar uma vocação profissional, algum tipo de realização financeira. Mas também não se pode sacrificar a visão de uma formação mais ampla em nome de algo estritamente econômico. É preciso encontrar um ponto certo, um equilíbrio. Vou mais longe: quando se sacrifica demais um polo em nome do outro, os dois polos são sacrificados, não funciona. Alguém que não tem uma formação de valores, uma formação ética, dificilmente vai ser um bom profissional. E uma pessoa que só tem a formação ética e de valores, mas não se preparou para exercer uma profissão de forma competente, terá muita dificuldade.

Como observa a relação dos jovens brasileiros com o ensino superior?
Os jovens brasileiros, infelizmente – e isso vem da família, da distorção da nossa formação –, têm uma visão muito “credencialista” da educação. Na verdade, o que a pessoa quer é o certificado, o diploma que dá condição de ascensão profissional. Isso é uma deformação do sentido da educação, é um “credencialismo”. A pessoa não percebe a chance e a oportunidade que está tendo de, durante alguns anos, aprimorar-se como ser humano. Isso, às vezes, se dá em função de escolas que se prestam a entregar um pedaço de papel sem o lastro da formação e da educação que devia estar por trás do ensino. Estamos passando por uma inflação de certificados educacionais sem lastro no Brasil. É um equívoco para o jovem, e é uma falha muito grave do sistema educacional quando ele se presta a atender a essa demanda espúria, superficial, por um certificado que não tem uma realidade por trás. É muito bem-vinda a demanda por educação. Agora, o jovem tem de entender que isso custa trabalho, implicará compromisso, implicará dedicação. Uma boa educação não é assistir displicentemente a algumas aulas, repetir na prova o que professor falou e pagar a mensalidade no fim do mês. Isso não tem nada a ver com a educação.

Há como reverter essa lógica?
Richard Feynman, físico americano que ganhou o Prêmio Nobel em 1965, veio dar aula no Brasil na década de 1950 na então Universidade do Brasil, que depois virou a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele escreveu memórias sobre essa experiência e disse basicamente o seguinte: se você pedir ao aluno brasileiro o que está no livro, no texto, ele é um dos melhores estudantes do mundo; se você pedir em uma prova alguma coisa que seja um pouco diferente do que está no livro, é um dos piores alunos do mundo, porque não sabe pensar. Ele colocou o dedo em um problema básico da educação brasileira: é uma atitude passiva diante do conhecimento. Isso é, no fundo, um conluio entre o professor e o aluno, facilita para os dois: é cômodo para o professor ficar estritamente no que está lá no texto e é cômodo para o aluno saber que, se ele reproduzir o que está lá no texto, obterá o diploma que ele quer. É preciso romper esse pacto. Precisamos ter algum sistema de recuperação do lastro dos certificados educacionais. O que quero dizer com isso: o Brasil teve uma inflação de credenciais educacionais, tem milhões de crianças que supostamente terminaram o ensino fundamental, mas não aprenderam ou não constituíram as competências e as habilidades associadas a esse grau. A mesma coisa no ensino médio e a mesma coisa no ensino superior. É uma inflação de credenciais sem lastro. O Brasil deveria reconstituir algum tipo de exigência para o aluno mostrar que adquiriu de fato o que se espera de alguém que terminou um determinado ciclo.

O Enem e o Enade não estão cumprindo essa função?
Não. Podem até caminhar para isso. Mas o Enem, por exemplo, não confere o grau, ele dá uma vantagem no acesso ao ensino superior. Eu estou falando de uma coisa mais assim: uma pessoa que vai muito mal em um exame desse tipo não tem de ganhar o certificado de grau correspondente, porque, caso ganhe, aquilo ali não tem realidade. E não é bom para aquele jovem achar que tem o que não tem. É preciso recuperar o valor, o lastro das credenciais educacionais.

Como conciliar expansão do acesso ao ensino superior e qualidade?
Esse é o grande desafio. Tenho a impressão de que o Brasil tentou dar um passo maior que a perna: expandir demais o tamanho do sistema, sem uma contrapartida de qualidade e de garantia de que o resultado do processo merece o nome de ensino superior. Vou dizer uma coisa dura, mas é a realidade: muito do que se passa como ensino superior no Brasil não seria considerado como tal num pais mais organizado e mais exigente. Para melhorar, é fundamental formar professores de qualidade. Não foi feito um esforço compatível de exigência de qualidade, mensuração de resultados e formação de corpo docente para atender a essa expansão.

Como avalia o ensino superior público e o ensino superior privado no país?
Pensando na minha experiência, acho que a USP, por exemplo, tem duas características muito boas: os alunos têm um pouco mais de vida universitária ampla lá, porque nos campi há várias faculdades. Eles também têm uma certa propensão a estudar, e, em boa parte, isso se deve porque passaram por um vestibular muito exigente, que faz com que os ingressantes sejam alunos diferenciados. Outra vantagem da USP é a diversidade social. A Universidade tem pessoas de muitas origens, é muito mais heterogênea em termos de grupos sociais e, assim, mais democrática. Já no Insper, por exemplo, o nível de profissionalismo, exigência e seriedade em sala de aula é muito maior. Lá, não tem essa coisa de parar por causa de greve, acabar a aula meia hora ou quarenta minutos antes do que se deveria, facilitar nas provas, passar todo mundo de ano. Outra coisa importante no Insper é garantir que qualquer aluno que passe em seu vestibular tenha condições de fazer a faculdade, mesmo que não possa pagar. A instituição tem um sistema de bolsas para que todo mundo que se mostrou apto a estudar nela tenha a chance de fazê-lo.

Isso é sustentável para as instituições privadas no longo prazo?
É fundamental que a instituição privada tenha um fundo de bolsa para financiar todo mundo que entra. É péssimo para uma instituição de ensino selecionar com base em capacidade de pagamento. Essa é a pior maneira de selecionar e é ruim para a formação dos jovens mais abastados também, porque ficam em uma redoma social: todos os colegas têm carro, passam férias fora do Brasil. Assim, não têm ideia do que é o Brasil, não conhecem a realidade brasileira; vão da faculdade para casa, de casa para o clube, do clube para o exterior e do exterior para a faculdade. Ou seja, ficam fechados em “mundinhos”. Isso é péssimo.

Mas programas como o Fies mudaram a composição social de várias dessas instituições, não?
Não adianta financiar e não ter um ensino efetivo. Aí o problema é outro. Estou generalizando, mas vejo situações que me revoltam: gente com muita dificuldade financeira que começa uma faculdade, faz um ano, mas o curso é péssimo, não tem motivação e acaba parando de cursar. Esse estudante perdeu tempo e dinheiro; a faculdade, às vezes, o levou a um financiamento que será mantido mesmo depois de o estudo ter sido abandonado. Isso está errado. Acontece muito, mas não poderia acontecer. É bom que exista o Fies, precisa haver como contrapartida a garantia do oferecimento de um ensino de qualidade, que justifique a transferência de recursos. Quando vejo resultados de que uma proporção não desprezível de egressos do ensino superior é analfabeta funcional, fico extremamente preocupado. Uma das coisas pelas quais mais me empenhei no Insper foi criar um curso de redação, porque não adianta formar um técnico que sabe manipular números e fazer um monte de modelos, mas não sabe redigir um argumento. E essa é uma deficiência mesmo de alunos do ensino médio da elite paulistana.

O senhor questiona a gratuidade do ensino superior em instituições públicas. Poderia explicar melhor sua crítica?
Ninguém deve deixar de fazer uma escola por não conseguir pagar. Quem não tem renda deveria receber uma renda para estudar. É injusto que um jovem de família rica, que pagou o ensino fundamental e médio em uma escola particular cara, pare de pagar quando chega no segmento mais oneroso para a sua educação, que é o ensino superior. O jovem de menor renda estuda em uma péssima escola de ensino fundamental na rede pública, em uma péssima escola no ensino médio público, se chega à universidade vai para a particular e muitas vezes paga. Está errado. Não entendo por que quem pagou o ensino fundamental e o ensino médio deixa de pagar os estudos quando chega ao período mais caro de sua educação. É preciso cobrar dessas pessoas. E isso não é operacionalmente difícil, é só olhar o imposto de renda, porque os pais desses jovens estão pedindo abatimento do imposto por terem pagado escolas particulares. Com esse dinheiro, seria possível financiar os estudos de pessoas de baixa renda que precisam de auxílio para estudar. Não entendo por que o Estado brasileiro gasta uma proporção tão grande do orçamento em educação com os ricos. É uma distorção.

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