Realidade das escolas públicas é retratada em contos literários

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Divulgação
Te pego lá fora, de Rodrigo Ciríaco (Editora Dsop, 106 págs., R$ 19)

São frequentes os casos de professores que passam por dificuldades no começo da carreira por não saber como lidar com os alunos ou garantir o cumprimento do currículo tendo uma carga horária tão enxuta.

Rodrigo Ciríaco, professor de história, também passou por alguns percalços, especialmente porque sua iniciação, em 2001, se deu em uma escola marcada por problemas sociais dos mais diversos tipos.

A escrita se tornou uma válvula de escape e o diário que iniciou na época se transformou a matéria-prima de sua primeira obra literária, Te pego lá fora.

O livro já está na segunda edição e retrata situações cotidianas de uma escola localizada na periferia, onde a violência é pronunciada, onde há racismo, gravidez precoce, falta de perspectiva, bullying e analfabetismo funcional.

Este, aliás­, é tema de um dos contos mais marcantes – narra a história de um garoto matriculado na 5ª série que, sem ter aprendido a ler e a escrever ainda, se vê acuado diante da negativa do professor em aceitar a prova em branco.

Apesar de o diário ter ajudado na composição das narrativas, Rodrigo esclarece que a publicação é fictícia e que muitas histórias foram inspiradas em relatos de outros colegas e em episódios vivenciados durante sua infância e adolescência.

“A minha preocupação foi destacar situações, e não pessoas específicas. Mas muitos alunos se identificam e afirmam que estou falando deles. Um dos contos que mais gerou esse tipo de comentário foi o A.B.C.”, conta.

Nele, Rodrigo retrata um estudante envolvido com o tráfico de drogas, com passagem pela Febem e que não vê qualquer motivo para estar na escola, onde “tudo é muito parado”. “Ah, prussôr, não vou fazer lição, não. Não entendo nada mesmo. Tô cansado de só ficar copiando. Num sei lê, num sei escrevê”, relata o personagem.

Quem também viu semelhanças com a vida real foram seus colegas. Assim que o livro foi lançado, Rodrigo chegou perto de sofrer um processo administrativo com base no artigo do Estatuto dos Funcionários Públicos, de 1968, que proíbe os servidores de se manifestar livremente. Te pego lá fora também trata de diferentes formas de violência praticadas contra os alunos por agentes escolares.  “Disseram que eu estava expondo a escola, mas depois de refletirem, fui liberado do processo”, conta o autor.

Passados quase 15 anos depois de sua estreia em sala de aula, o professor, escritor e ativista literário constata que os desafios da rede pública ainda são os mesmos. “A situação está longe de melhorar. Ainda temos muitos problemas para enfrentar, inclusive pedagógicos e de estrutura”, lamenta.

Mas se uma coisa mudou foi sua postura. “Eu era novo, com pouca experiência em sala de aula, e me deixava consumir pela ansiedade. Mas me fortaleci, o que não quer dizer que me acomodei ou que faço vista grossa agora. Continuo na luta e minha arma é a caneta”, finaliza.

Outras leituras

Num tronco de Iroko vi a Iúna cantar, de Erika Balbino
(Peirópolis, 80 págs., R$ 49)
A publicação narra as aventuras dos irmãos Cosme, Damião e do pequeno e levado Doum. Juntos com outros amigos, eles percorrem caminhos mágicos para desvendar os  segredos da capoeira e lendas das culturas cabocla, negra e indígena. O livro acompanha um livro-CD com músicas e contação de histórias.

O escuro, de Lemony Snicket
(Companhia das Letrinhas, 48 págs., R$ 35)
O pequeno Luca tem medo do escuro, mas o escuro não tem medo dele. Os dois “vivem” na mesma casa, mas o escuro vive escondido no armário e, principalmente, no porão. Mas uma noite, ele resolve sair de seu esconderijo para convidar Luca a fazer uma expedição pelo temido cômodo.

O jardim curioso, de Peter Brown
(WMF Martins Fontes, 36 págs., R$ 32)
A história de um garoto que transforma uma abandonada estrada de ferro em um belo jardim cheio de vegetação e flores com a ajuda dos moradores da cidade. Para criar a obra, o autor se inspirou na revitalização de uma antiga linha de trem abandonada de Manhattan, em Nova York.

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