Corrida pelo saber

Má performance da educação brasileira em indicadores internacionais e aumento da oferta de olimpíadas de diversas disciplinas recolocam em pauta a utilização de competições como ferramenta para a criação de desafios no âmbito da aprendizagem

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No último Fórum Econômico Mundial, o Brasil desceu alguns degraus na escala da competitividade global, agora listado na 66ª posição entre os 125 países avaliados. Em outro ranking, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o país também decepciona: entre 2000 e 2004, registrou sua pior evolução no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) desde 1975, quando o estudo iniciou a comparação histórica. Entre as mazelas que fazem despencar nossa competitividade, a macroeconomia não está sozinha. O relatório de Davos aponta também para um ensino básico com baixa qualidade e grandes taxas de evasão, ao lado de uma universidade pública ainda pouco acessível às camadas de baixa renda. No estudo da ONU, o Brasil não avançou em dois dos quatro critérios avaliados: taxa de alfabetização de pessoas com idade igual ou superior a 15 anos e taxa de matrícula nos três níveis de ensino (fundamental, médio e superior).

Na chamada era do conhecimento, a educação ganha status de indicador econômico, é avaliada por metas de desempenho e reconhecida como alavanca para a competitividade. Não por acaso, a onda chega também às salas de aula e faz emergir um novo perfil de aluno.

Hoje, mais de 40 comunidades reúnem uma nova "tribo" de adolescentes, em meio a tantas do portal de relacionamentos orkut. Longe de representar os aficcionados pelo último game da temporada ou os fãs da banda de pop rock do momento, eles têm em comum o interesse por disputas que medem o conhecimento em disciplinas escolares, que na última década ganharam diferentes versões e ampliaram as áreas de interesse. No mundo virtual, elas confirmam a existência de um público fiel: o dos apaixonados pelas competições do saber, da tradicional Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM) às provas mais recentes, como a de Astronomia, que em 2006 superou a marca de 300 mil participantes entre alunos dos ensinos médio e fundamental. Só as comunidades dedicadas à Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep), criada em 2005, contam mais de 2 mil integrantes, que debatem teorias, lançam formulações e comparam os resultados das provas via internet.


"Competições mobilizam professores e alunos e contribuem para revitalizar o ensino da disciplina", diz Ildeu Moreira, do Ministério da Ciência e Tecnologia

Para se ter uma idéia da importância atribuída às competições estudantis, o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em março, propõe a criação de uma Olimpíada de Língua Portuguesa como forma de mobilizar escolas e alunos no combate à chaga da alfabetização precária, que leva muitos estudantes a não entender o que lêem.


Febre virtual

Alunos sob pressão? Não é o que parece. Ao contrário, muitas dessas comunidades organizam virtualmente seus próprios concursos, a exemplo da Olimpíada Orkutense de Matemática (OOM) e do Torneio de Matemática do Orkut.

"É muito divertido", garante Sávio Ribas, 15 anos, um dos idealizadores da OOM. Estudante do ensino fundamental de uma escola pública de Ouro Preto (MG), Sávio é um dos milhões de alunos da rede oficial que disputaram a Obmep, promovida pela Sociedade Brasileira de Matemática. Premiado com menção honrosa e uma bolsa de iniciação científica júnior do CNPq, que cursa desde junho passado, elogia a iniciativa.

"Muitos estudantes de escolas públicas se sentem desmotivados. A Obmep nos estimulou, mostrou que somos capazes. Aprendemos a gostar da matéria, a lidar com provas desafiadoras e somamos amigos com os mesmos interesses. Foi a primeira em que competi e agora não perco uma", completa.


Questão controversa

Mas o entusiasmo de Sávio não é compartilhado por muitos educadores.  "A competição pela competição não é ferramenta pedagógica. A própria denominação reforça esse espírito e remete ao pódio dos vencedores", diz Victor Koloszuk, diretor do ensino médio do Colégio Vértice, que pelo segundo ano consecutivo obteve em 2006 a melhor média no Enem entre as escolas do Estado de São Paulo. "A idéia é boa, os organizadores bem intencionados, mas o modelo é questionável. Ao invés de ser um estímulo, pode ser desastroso para um aluno adolescente", sustenta.

Na mesma trilha, Francisco Soares, do Grupo de Avaliação e Medidas Educacionais (Game) da Universidade Federal de Minas Gerais, encara com reservas o repertório de competições ofertado aos alunos. "O vestibular, inevitável enquanto houver mais candidatos do que vagas, cumpre bem sua função, embora tenha o efeito colateral perverso de pautar o ensino médio, obrigando milhões de alunos a estudar conteúdos só significativos para a seleção de poucas universidades. Mas as olimpíadas, que merecem a simpatia de tantos, têm problemas similares. Quando se transformam em políticas educacionais, prestam um desserviço ao sistema, pois medem o desempenho do aluno típico com uma  régua adequada apenas para ‘ronaldinhos’. Será que a grande massa se sente valorizada ao ser completamente reprovada? Se a régua é inadequada para diagnóstico e monitoramento da qualidade da educação, qual a utilidade da medida resultante e por quê defender seu uso?", questiona.


Francisco Soares, da UFMG: como políticas públicas, competições prestam um desserviço ao sistema

Os defensores rebatem, sob o argumento de que o papel da Educação também é identificar e construir talentos. É o que acredita Ildeu Moreira, do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). À frente do Departamento de Popularização da Ciência e Tecnologia, criado pelo governo Lula, em 2003, Moreira garante que as competições acabam mobilizando professores e alunos, contribuem para revitalizar o ensino da disciplina e melhorar a auto-estima dos educadores, que se sentem socialmente valorizados. "O risco está no enfoque, na abordagem, e não no mecanismo em si", pondera.


Na dose certa

É na sala de aula que a questão assume contornos mais concretos. Afinal, como as escolas encaram a nova onda de competições e como isso chega ao aluno?

No Vértice, não há cursos preparatórios nem as chamadas turmas olímpicas. Aos alunos que demonstram interesse em se preparar para alguma competição do gênero, o diretor sugere ocupar o tempo livre para descansar ou sair com a namorada. "Nos dias de hoje, vai ter mais sucesso pessoal quem tiver uma visão mais aberta a todas as áreas do conhecimento", justifica.

Segundo colocado entre as escolas paulistas na última edição do Enem, o Colégio Bandeirantes prefere encampar aquilo que chama de "Olimpíadas Acadêmicas". Mantém não apenas uma área dedicada ao assunto em sua página na internet, como organiza cursos preparatórios para as provas olímpicas de física, química e matemática. A participação é oferecida apenas aos alunos com bom desempenho global e não é aconselhada às turmas do 3º ano do ensino médio, que têm carga horária diferenciada em função do vestibular.


O pioneiro Shigueo Watanabe, criador da Olimpíada Paulista de Matemática: bolsas para alunos de baixa renda terem acesso a universidades públicas de alto nível

"Assim como existem grupos de reforço para o aluno que não atinge os objetivos, por que não oferecer apoio educacional suplementar àqueles com ótimo rendimento?", questiona o professor de matemática Irineu Romera, orientador do curso de preparação oferecido pelo Bandeirantes.  

Na contramão, o Etapa, também de São Paulo, vai por uma outra linha: participa quem quiser. A escola estimula seus alunos a concorrer nas olimpíadas abertas, abre as portas de seus cursos olímpicos – com turmas que já chegaram a 120 alunos – e também promove competições internas, em cinco disciplinas (física, química, biologia, matemática e português), com a adesão de outras escolas que adotam sua metodologia.

Se diante de poucos exemplos há visões tão contrastantes, não é difícil dimensionar a extensão do debate. O que parece consenso é a importância de um olhar individualizado, respeitando os limites e particularidades de cada estudante.

 "A competição é importante e a criança precisa aprender a competir", diz Marilda Novaes Lipp, presidente da Associação Brasileira de Estresse e titular do Departamento de Psicologia da PUC de Campinas. "Se o aluno for extremamente protegido e mantido em uma redoma emocional, não estará apto a enfrentar o mundo de hoje", alerta.

Como acertar a dose? A recomendação da especialista é apelar ao bom senso, que aponta para o ponto de equilíbrio. É preciso estar atento ao grau de exigência imposto aos alunos, ao caráter ético das competições e, principalmente, a uma reflexão permanente, que deve envolver pais e educadores: até que ponto a criança não está sendo preparada para ser exibida como um troféu? Até onde a escola está trabalhando em benefício do aluno ou em sua própria estratégia de marketing?


Ferramenta de inclusão

Extraídos os excessos, muitos educadores parecem convergir para o reconhecimento de que as competições educacionais têm méritos importantes. Apoiar talentos, sem dúvida, é um deles. Abrir oportunidades a crianças e jovens com grande potencial e evitar que sejam lançados precocemente no mercado de trabalho pela pressão econômica é outro.

Pioneira, a Olimpíada Paulista de Matemática (OPM), criada em 1977, nasceu com um forte viés social. Já na edição inaugural, teve mais de 2,2 mil escolas e cerca de 1,5 milhão de estudantes inscritos. Seu idealizador, Shigueo Watanabe, Ph.D. em Física Nuclear pela Universidade de Washington, em 1961, hoje aposentado como professor titular do Instituto de Física da USP, é nome de referência em competições educacionais no Brasil. Organizou a OPM durante 25 anos, concretizou outras tantas olimpíadas na área da ciência e ainda hoje se mantém envolvido em diferentes iniciativas do gênero.

"Desde o início, oferecíamos bolsas para que alunos de baixa renda pudessem completar seus estudos e tivessem a oportunidade de ingressar em uma universidade pública de alto nível", diz Watanabe.


Oportunidade para a carreira

Hoje, graças à participação de entidades como a Fundação Lemann e o  Instituto Social Maria Telles (Ismart), organização sem fins lucrativos que apóia alunos de baixa renda com alto potencial acadêmico, o modelo tem ampliado seu alcance social. Segundo o Ismart, levantamentos mundiais indicam que entre 1% e 5% da população mundial é composta por pessoas com esse perfil. No Brasil, existem 2,5 mil estudantes identificados.

Foram propostas como essa que impulsionaram a carreira de Ralph Teixeira, medalhista de ouro por dois anos consecutivos (1986 e 1987) na seleta Olimpíada Mundial de Matemática, hoje Ph.D. na matéria pela Universidade de Harvard e um dos mais reconhecidos cientistas brasileiros. É o que alimenta também os sonhos de muitos jovens selecionados pela Obmep para as bolsas de iniciação científica do CNPq. Estudantes como o Walassy Rosa da Silva, 16 anos, aluno da 2ª série do ensino médio do Colégio Estadual Helena Assis Suzart, em Feira de Santana (BA).

"Nunca imaginei que existissem tantas áreas ligadas à matemática. Pude conhecer o Instituto de Matemática Pura Aplicada (Impa) pessoalmente, no Rio de Janeiro, e assisti aos vídeos da Unicamp e do ITA. Vou me esforçar muito para conseguir estudar em um desses lugares", diz Walassy.

E não são apenas os alunos de baixa renda que se beneficiam da inclusão. Independentemente de sua condição econômica, garotos rejeitados em função de serem vistos como muito estudiosos parecem ter encontrado um meio de ser aceitos.  

"As olimpíadas deram espaço social a um aluno que passou a ser valorizado pelos seus pares", sustenta Ronaldo Fogo, encarregado das turmas olímpicas do Colégio Objetivo.





Veja entrevista exclusiva, com Inês Boaventura França, gerente técnica do projeto Ismart







A MARATONA OLÍMPICA

OBM –  Olimpíada Brasileira de Matemática

www.obm.org.br


Criação: 1978
Público-alvo: alunos dos ensinos médio
e fundamental (5ª a 8ª série),
além da edição universitária
Participantes em 2006: 350 mil alunos de 5 mil escolas (redes pública e privada)

Obmep – Olimpíada Brasileira
de Matemática das Escolas Públicas

www.obmep.org.br


Criação: 2005
Público-alvo: alunos dos ensinos médio e fundamental (5ª a 8ª série)
Participantes em 2006: 14,15 milhões de alunos de 32,6 mil escolas públicas

Olimpíada Brasileira de Saúde
e Meio Ambiente

http://www.fiocruz.br/olimpiada/


Criação: 2002
Público-alvo: alunos dos ensinos
médio e  fundamental (5ª a 8ª série)

Olimpíadas de Química

www.obq.ufc.br/


Criação: 1986
Público-alvo: alunos do ensino médio

OBI – Olimpíada Brasileira de Informática

http://olimpiada.ic.unicamp.br/


Criação: 1998
Público-alvo: alunos do ensino médio
e de 5ª a 8ª série do fundamental

OBF – Olimpíada Brasileira de Física 

www.sbfisica.org.br/olimpiadas


Criação: 1999
Público-alvo: alunos do ensino médio
 
OBA – Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica

www.oba.org.br/


Criação: 1997
Público-alvo: alunos de todas as séries dos ensinos fundamental e médio

OBB – Olimpíada Brasileira de Biologia

http://www.anbiojovem.org.br/


Criação: 2005
Público-alvo: alunos do ensino médio
Participantes em 2006: 16.500 estudantes


DAS OLIMÍPIADAS PARA O MIT

"Os resultados nas olimpíadas foram a chave para minha admissão no MIT (Massachusetts Institute of Technology)", diz Gabriel Tavares Bujokas, 18 anos, ouro no mundial de matemática em 2005. "Por causa das olimpíadas, ganhei bolsas de estudo e tive a oportunidade de ingressar nessa faculdade americana, uma vez que o sistema de admissão aqui [nos Estados Unidos] não é baseado em exames."

Bujokas começou a disputar a OBM no ano 2000, então na 6a a série. "Gostei tanto dos problemas da prova que continuei participando, por pura diversão", explica. "Todos os participantes que conheci disputavam a olimpíada para se divertir, porque o caráter dos problemas é extremamente desafiador. E muitos, como eu, são gratos por terem tido essa grande fonte de motivação", diz.

O êxito de Bujokas, agora membro do seleto time de alunos de um dos mais reconhecidos centros de excelência mundial em tecnologia, não foi suficiente para fazê-lo decidir que rumo trilhar. "Vou estudar matemática ou computação. Ou as duas coisas, não sei ainda."



MEDALHISTA MULTIMÍDIA

Mais de 70% do tráfego multimídia da web brasileira é gerenciado pelos softwares de uma empresa especializada nas sofisticadas tecnologias requeridas pela internet. Graças ao trabalho da LabOne, os assinantes do portal Terra assistiram  à Copa do Mundo de 2006 e os italianos à transmissão do funeral do Papa pelas páginas pontocom. O sócio-fundador, Reynaldo Fagundes, começou a desenhar os rumos da empresa aos 19 anos, depois de conquistar a medalha de prata no mundial de matemática de Hong Kong (1994). Hoje, aos 31, está à frente da companhia no Brasil e em mais seis países, incluindo o competitivo mercado norte-americano.

"Foi paixão à primeira vista", recorda o executivo, referindo-se às primeiras aulas de preparação olímpica que assistiu como aluno do Etapa, em São Paulo. Para Fagundes, a matemática, quando vista sob o ângulo das olimpíadas, é bem diferente da matéria tratada regularmente em sala de aula.

"As ferramentas são as mesmas que um aluno de ensino médio domina e não exigem o conhecimento de teorias muito avançadas. No entanto, a mágica do negócio é formular problemas complexos e com raciocínio sofisticado apoiados naquela teoria básica. Os problemas são bonitos, as soluções muito elegantes e, para quem gosta, isso desperta uma admiração, assim como um apreciador de obras de arte ao visitar a Capela Sistina", compara.

O interesse pela matéria cresceu. Ao  voltar do mundial da China, Fagundes passou a se dedicar ao estudo da compressão do vídeo digital, processo que depende fundamentalmente de algoritmos matemáticos. A web ainda engatinhava quando ele começou a debater o assunto em grupos de discussão e ganhou visibilidade. Convidado por uma empresa canadense, virou consultor. Daí para a criação de sua empresa foi um passo. Em 2003, começou a operar internacionalmente. "Graças às olimpíadas, comecei a ter contato com atividades sofisticadas bem mais cedo", diz. Além do mundial de 95, Fagundes foi prata nas Brasileiras de Matemática em 1992 e na Ibero-Americana de 1993, realizada no México.



Uma questão de valores em Educação




A escola hoje tem pouco tempo para ser apenas escola

Diante dos resultados de provas que avaliam desempenho escolar em âmbito nacional, salta aos olhos a evidente discrepância entre os primeiros colocados e os do final da fila. Mas, ao lado da repercussão e das conseqüências que esses resultados provocam, é imperativo perguntar: a competitividade é um valor para a Educação?

Ainda que a tradição nos traga a lembrança de medalhas e troféus para os melhores alunos, premiando esforços e empenho no trabalho escolar, é preciso lembrar que, ao lado de poucos que recebiam louvores de mérito, havia muitos que não ultrapassavam as barreiras dos exames e eram reprovados. Eram tempos em que a escolarização era o destino de poucos. A maioria via o final da vida escolar no exame de admissão ao antigo curso ginasial.

No começo da década de 70, foi suprimido o exame de admissão e criou-se o ensino de 1º grau de oito séries. O projeto previa maior acesso à educação e mais tempo de permanência na escola. A criação da Lei 5692/71 representou uma proclamação dos valores democráticos. Valores que são afins com a fraternidade, a igualdade e a cooperação. A competitividade não é compatível com esses valores, portanto não pode ser considerada um valor na Educação. Embora seja um valor da cultura vigente e por esta razão penetrou no universo da Educação. É preciso continuar perguntando: por que os educadores não fizeram severas restrições ao que afrontava os princípios democráticos da legislação educacional no país?

A resposta para essa questão pode ser pensada a partir do processo de formação de professores. Enquanto as reformas de ensino acontecem num ritmo acelerado em busca de soluções para a precária qualidade do ensino, os cursos de licenciatura mantêm-se praticamente os mesmos há 20 anos. Isto revela que, seja no tempo disponível para as licenciaturas (1/9 da carga horária da formação do especialista), seja em termos do que efetivamente possa ser trabalhado do ponto de vista pedagógico, é difícil para um educador ter lucidez quanto aos objetivos e valores da Educação. É essa dificuldade de discernimento que produz distorções pedagógicas quando o tema são as competições educacionais. E, a julgar pelo interesse crescente nessas modalidades, há que se pensar na falta de desafios intelectuais consistentes na sala de aula. Tendo no horizonte o vestibular, as avaliações regulares da escolarização não são exercícios que tenham valor em si. São meros "ensaios" para a grande competição do tudo ou nada – o vestibular.

Nesse sentido, vale alertar que o que a escola vem fazendo com a competitividade é um desvio e não um bom uso no sentido de promover o desenvolvimento e o compromisso com o processo de aprendizagem.

O que se observa é que tal estado de coisas no âmbito escolar decorre de mudanças sociais aceleradas que afetam as referências fundamentais daquilo que é da competência da escola e o que não é, a vida em família, as relações sociais. Ainda é preciso perguntar: como o educador pode dar um bom destino à competitividade? Como associar os valores pedagógicos essenciais aos valores da cultura contemporânea?

São novos desafios que se avolumam desde os anos 50, quando do lançamento de Summerhill (liberdade sem medo), do escocês Alexander Sutherland Neill, que afirmou ser possível educar alunos felizes. A partir dessa proposta, a escola passou a se mobilizar em torno de questões que transcendem o compromisso com o aprender.

É tempo de se pensar que a escola hoje tem pouco tempo para ser apenas escola.



Lisandre Maria Castello Branco – Professora Doutora da Faculdade de Educação/USP e psicanalista pelo Instituto Sedes Sapientiae

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