Corrida normativa

Algumas escolas começam o ano letivo com a adoção da nova grafia da língua portuguesa, que ainda suscita muitas dúvidas
antes da edição de vocabulário pela Academia Brasileira de Letras

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A volta às aulas em 2009 não foi como as anteriores. Desde o início deste ano vigora no Brasil o novo acordo ortográfico da língua portuguesa, que alterou a grafia de menos de 0,5% dos vocábulos e gerou polêmica com algumas mudanças, como a perda de acentos e a alteração das regras de hifenização. Ainda que os dicionários, jornais, websites e revistas tenham corrido para se ajustar às transformações e liderar o movimento de adaptação, faltaram parâmetros para as escolas – agentes essenciais da disseminação e popularização das regras lingüísticas – começarem o ano adequadas às novas normas.

De acordo com a Academia Brasileira de Letras (ABL), que liderou a frente brasileira no tratado entre os países de língua portuguesa, o acordo deve simplificar a alfabetização em todas as idades e melhorar a expressão escrita. "O ônus da mudança situa-se na duplicidade de cânones exigida pelo período de adaptação", ponderam. Por conta dessa dificuldade de adequação, mais estrutural do que conceitual, já que as mudanças não exigem transformações curriculares profundas, mas sim a reedição de livros, o prazo para a adaptação das escolas é extenso e faz com que sintam menos pressionadas a adotar o acordo de imediato. Embora já tenha entrado em vigor, o uso do material revisto só será obrigatório a partir de 1º de janeiro de 2012.

O próprio Ministério da Educação distribuirá novos didáticos somente a partir de 2010, para o uso em 2011. "Os didáticos para 2009 foram comprados em 2007, então ainda usam a grafia antiga. Os livros têm um tempo de vida útil, vão conviver os novos e os antigos ainda por muito tempo", declarou o MEC. De maneira geral, as secretarias de educação não se articularam para implementar o acordo neste ano (ver texto na página 46). Muitas aguardavam a publicação do Vocabulário Oficial da Língua Portuguesa (Volp), previsto para março pela ABL. A entidade já publicou duas edições do Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, em que procura dirimir dúvidas decorrentes de termos não previstos no Acordo. 


(Quase) nada muda


Para Francisco Platão Savioli, coordenador de gramática, texto e redação do Anglo Vestibulares, pouco coisa vai mudar em função do Acordo. "As mudanças não vão interferir, a não ser na técnica de grafar as palavras da língua. Será uma alteração mínima de adaptação, principalmente nos acentos e um pouco no uso do hífen", tranqüiliza. Aos professores que perguntam se a redação dos alunos vai melhorar ou piorar, ou se o Acordo vai facilitar a leitura, Platão Savioli responde, categórico: "Nada disso vai acontecer. Quem escrevia bem vai continuar escrevendo bem, quem escrevia mal vai continuar escrevendo mal. O Acordo atua sobre a superfície, sobre a casca da língua, não afeta aquilo que é essencial, ou seja, a construção do significado".


Quem escrevia mal, vai continuar escrevendo mal", diz o gramático Platão Savioli

O ano escolar de 2009 começou sem a definição clara das regras do Volp, em função  do atraso na publicação, prometida em princípio para o final de 2008. Algumas escolas, no intuito de adaptar-se à nova norma já neste primeiro momento, estão sendo obrigadas a fazer sua  própria interpretação das regras – que pode ser diferente da de outra escola, outro dicionário, outro veículo de comunicação. "As regras do acordo são redigidas em termos genéricos e abstratos. O Volp faz a aplicação dessas regras palavra por palavra", explica Platão Savioli. Isso significa que quem já mudou a grafia dos didáticos pode ter de reimprimir os livros novamente no próximo ano letivo ou até o início de 2012, isso por causa de uns poucos vocábulos.



Sem precipitação

A paulistana Escola Vera Cruz, particular, não alterou o material didático para 2009. Não só por causa do Volp, mas pela falta de estrutura para reimprimir todos os livros e apostilas, já que a escola trabalha com material próprio. Mas como o colégio pretendia começar a ensinar as mudanças do acordo já neste ano, fez alterações no material de português referentes às mudanças da nova ortografia. "Os alunos conviverão, dentro da escola, com as duas ortografias, assim como acontecerá com as pessoas no mundo fora da escola", esclarece Márcia Leite, assessora de língua portuguesa do ensino fundamental da Vera Cruz, que também escreve didáticos de português pela editora FTD.

Márcia conta que em 2008 os alunos do ensino fundamental do 6º ao 9º anos já demonstravam interesse em relação ao Acordo, o que fez com que a escola apresentasse as novas regras em um primeiro contato, com debates em classe, para saciar a curiosidade dos adolescentes. A partir de 2009, o ensino da nova grafia será mais sistematizado. Do 2º ao 6º ano do fundamental, os alunos já adotaram a nova ortografia. Os mais velhos terão uma revisão da matéria com anexos no material de português – que fará parte dos didáticos a partir do ano que vem. "Pensamos também em trabalhar com a revisão de textos nas diferentes disciplinas, uma vez que os alunos estarão expostos o tempo todo a duas grafias. Enquanto lêem um texto de ciências, por exemplo, ao se depararem com alguma palavra que está desatualizada poderão fazer uma errata na própria página", diz Márcia. Enquanto isso, a escola vai respeitar um período de adaptação às novas regras, aceitando a antiga grafia nas redações, trabalhos e provas durante um certo período.


Transição tranqüila


Em outra escola particular paulistana, o Colégio Marista Arquidiocesano, a transição está sendo lenta, gradual e segura. Lá, os professores devem aceitar as duas grafias, nova e antiga, até 2012. As mudanças que foram objeto da reforma, no entanto, serão ensinadas a partir deste ano. Como o material didático é todo comprado de editoras, a escola trabalha neste ano com livros já adaptados – anteriormente à edição do Volp – e também com aqueles que usam ainda a grafia antiga. Apesar da transição de longo prazo, o colégio distribuiu a todos os professores uma apostila com as novas regras e indicações de como utilizá-las. Na sala de aula, pretendem contrapor a norma culta, com a nova ortografia, às formas de comunicação que fazem parte da rotina dos estudantes, como o Orkut e o Messenger.

Para o diretor educacional do Arquidiocesano, Ascânio João Sedrez, não haverá muitas mudanças no trabalho com os alunos. Para ele, as regras convencionais do português já não são bem assimiladas, e por isso o desafio de ensiná-las continua o mesmo. "Não é uma dificuldade nova, porque as regras não são baseadas em acordos fonéticos. Se o som contribui para a escrita, o acordo deixou algumas brechas e muitas exceções, coisa que já é complicada no ensino da língua portuguesa e que a reforma ortográfica não corrigiu", critica.


Adequação imediata


No também paulistano e particular Colégio Bandeirantes, as apostilas de português já estão prontas para ensinar o Acordo a partir deste ano. O material das outras disciplinas espera a publicação do Volp e estará disponível em 2010, assim como os livros de português revisados. "Vamos trabalhar as novas regras em todas as séries do ensino fundamental e médio", afirma Izete Fragata Torralvo, coordenadora de português. "Em princípio, ensinaremos as mudanças de acentuação, que são superficiais e não deixam dúvidas. Já o emprego do hífen prevê muito questionamento, por isso vamos reservar para os alunos do ensino médio, com maturidade para estudar a formação de palavras." Para a professora, não há motivo para preocupação, já que as mudanças foram feitas em partes da ortografia que já eram contempladas pelo currículo escolar, então basta alterar a forma de ensiná-las. Nesse período, o colégio vai tolerar o uso da grafia antiga, mas não por muito tempo. De qualquer forma, Izete acredita que a adaptação será rápida. "Os mais velhos, já habituados à grafia antiga, terão de prestar mais atenção ao redigir, porque é automático. Mas aos poucos essas regras são assimiladas e, com a constância da leitura e da escrita, daqui a alguns anos vamos até esquecer que ‘autorretrato’ se escrevia com hífen."

O resumo das mudanças

Incorporação das letras "K", "W" e "Y" ao alfabeto Desaparecimento do trema Paroxítonas perdem o acento nos ditongos "éi" e "ói" Paroxítonas perdem o acento no "í" e no "ú" que sucedem um ditongo Não se acentuam mais vogais repetidas "êe" ou "ôo" Não se acentuam mais pares diferenciados pelo acento (como "pára" e "para") Alterações no uso do hífen

Iniciativas das públicas

Em escala maior, as redes públicas também devem buscar neste ano uma maneira de introduzir as novas regras em suas escolas. A Secretaria Estadual de Educação (Seduc) do Rio de Janeiro, por exemplo, realizou em fevereiro um trabalho de capacitação via internet com todos os professores da rede – não apenas os de língua portuguesa – para esclarecer as normas. Minas Gerais segue o mesmo modelo, porém presencial, com atenção especial para os professores de alfabetização, que receberam um manual de orientação para aplicação da nova ortografia em sala de aula. Além de mudanças na formação continuada, a Seduc de Santa Catarina planeja distribuir cartazes pelas escolas e órgãos públicos, com uma explicação simplificada do acordo e um caderno especial para o professor.

Na região Norte, distâncias e prioridades são colocadas na balança. O Estado do Amazonas organizou um curso presencial apenas para os professores de língua portuguesa de Manaus e outro a distância, com o histórico do acordo e sua versão final. Alguns estados, porém, ainda não têm previsão de adequação às novas regras, como é o caso do Acre. Cilene Gaspar, responsável pela formação de professores na secretaria estadual, foi atrás do acordo por curiosidade. "Andei pesquisando na internet e achei um site sobre a nova ortografia. O dicionário traz que agora quem nasce no Acre é ‘acriano’ com ‘i’, e não mais acreano", comenta.

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