Corrente do bem

Criadora da Pastoral da Criança diz que 90% das ações da entidade são em educação

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Alceu Luís Castilho*

Sucesso reconhecido internacionalmente, a Pastoral da Criança é movida pela educação. A avaliação é de sua criadora e coordenadora, a médica pediatra Zilda Arns Neumann. Indicada em 2002 e 2003 pelo governo brasileiro para concorrer ao Nobel da Paz, Zilda diz que “90% das ações da Pastoral da Criança são em educação”. “Educação é a parte principal”, avalia. “E considero que seja um instrumento para a diminuição das desigualdades sociais. Muito difícil baixar a concentração de renda se a gente não promove uma educação prioritariamente.”



A Pastoral, criada em 1983, está hoje em 3.757 municípios de todos os estados brasileiros e atinge 1,33 milhão de famílias por mês. O principal resultado obtido é a redução da mortalidade infantil – segundo a instituição, ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), ela é 60% menor que a média nacional nos municípios onde atua.




“Do ponto de vista cristão, minha maior emoção, nestes anos todos, foi cumprir uma das coisas mais maravilhosas que existem, o mandamento do amor”, afirma Zilda. “Do ponto de vista profissional, salvar mais de 5 mil crianças da morte.”




Aos 70 anos, a irmã de dom Paulo Evaristo Arns mostra-se incansável. Ela falou com a reportagem enquanto ia para o aeroporto de Brasília (DF), de passagem após um período no Maranhão. Sua rotina começa às 6 horas. Toma o café da manhã às 7 horas e começa a trabalhar em Curitiba (PR), até o fim da tarde. Depois do
Jornal Nacional

, dorme. De vez em quando, gosta de cochilar à tarde. Mas esse ritmo é quebrado quando faz as visitas, nacionais e internacionais – nesse caso, não há descanso com a família nos fins de semana.




A multiplicação de saberes em nutrição infantil e em cidadania é o que impulsiona a rede de solidariedade da Pastoral, segundo Zilda. São compartilhadas, por exemplo, informações sobre medicamentos naturais, hidratação e aleitamento materno. A medida é oriunda da antiga Juventude Católica (JUC). “Lá utilizávamos o método pedagógico problematizador: ver, julgar e agir. Para poder conhecer a realidade, primeiro analisar, para depois intervir.”




Para ensinar às mães as vantagens do aleitamento ou as técnicas de prevenção da diarréia, a Pastoral aposta numa rede de 242 mil voluntários, que precisa ser treinada adequadamente. Por isso, 11,3% da verba é investida em capacitação; 8,38%, em material educativo; e 69,49%, injetada nas bases, nas quais o treinamento será um dos focos principais. Outros 5,72% são gastos com educação de jovens e adultos. E 3,92%, com o recém-criado programa
Brinquedos e Brincadeiras

. “É um programa novo, para ensinar aos pais que brincar é importante”, defende Zilda. “Crianças de menos de 1 ano, maltratadas, tendem a ser criminosas.”




Apesar da ênfase educacional, somente 1,57% da verba para a Pastoral sai do Ministério da Educação – a maior parte, 59,2%, sai do Ministério da Saúde. “Não nos acertamos com o método de alfabetização deles”, afirma a médica. Ao analisar o cumprimento pelo governo da meta de universalização do ensino, prevista nos Objetivos do Milênio da Organização das Nações Unidas (ONU), ela diz que o

atual índice de 97% é louvável, mas que falta “consistência”. “Falta música, arte e esporte”, avalia. “E tem tanto artista desempregado.”



Sim, a situação é bem melhor que na Angola, pondera Zilda. “Lá, 97% dos que estão na universidade são homens, e quase todas as mulheres na Pastoral são analfabetas”, conta. A luta contra o analfabetismo aqui no Brasil é feita do seguinte modo: se há 4 pessoas analfabetas ou 20, o curso é ministrado do mesmo jeito. O professor ganha uma ajuda de custo de R$ 70. A médica diz que o valor tem necessariamente de ser pequeno porque senão todo voluntário ia querer ser professor. “E aí acabaria a Pastoral da Criança.”



*Da Agência Repórter Social



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