Corações e mentes

Merchandising em programas infantis pega telespectador desprevenido e estimula consumo que a maioria dos pais não pode realizar

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Laurindo Lalo Leal Filho



Jornais e revistas responsáveis quando publicam um anúncio com jeito de notícia fazem questão de colocá-lo em um quadro, avisando tratar-se de um informe publicitário. Nada mais correto. O leitor tem o direito de distinguir a informação da propaganda, de não ser enganado, uma vez que o anúncio tenta persuadi-lo a comprar, enquanto a notícia presta um serviço público. Bem separadas, informação e publicidade podem conviver no mesmo veículo sem problemas.





Por que o mesmo não acontece na televisão? Nela, o anúncio não só se confunde com os programas, como entra no meio deles. É o chamado
merchandising

, um poluidor de imagens e mentes – nas novelas, faz parte dos roteiros e nos programas de auditório transforma apresentadores em garotos-propaganda.




Não há como não buscar exemplos civilizados. Na Inglaterra, um programa realizado num supermercado, onde os participantes deviam adquirir determinado número de produtos com uma quantia de dinheiro oferecida pela emissora, foi obrigado a cobrir o nome das marcas nas embalagens. Tudo para cumprir a determinação legal de não misturar propaganda com entretenimento.




Aqui a confusão é geral. O apresentador carismático, ídolo dos telespectadores, joga todo o seu prestígio para vender alguma coisa, pegando desprevenido quem está na frente da TV para se divertir e não para comprar. Atrai o público para ver um programa e, no meio dele, de surpresa, impinge o anúncio de um produto qualquer. Para os adultos é um desrespeito, para as crianças uma violência.





Até 6 ou 7 anos, crianças têm dificuldade em distinguir o real da fantasia, quanto mais separar a diversão da propaganda. E o pior: essa propaganda é feita por apresentadores que são seus ídolos, muitas vezes referências importantes de uma vida recém-iniciada. Ao dizer que as crianças devem comprar isso ou aquilo, eles quebram uma relação de confiança fundada na admiração e no respeito que, nesse momento, fica de um lado só, o da inocência infantil.





Alguns países europeus já se deram conta do problema e proibiram propaganda para crianças na televisão. Aqui, a situação agrava-se com a cruel distribuição de renda. Os anúncios estimulam um consumo que a maioria dos pais não pode realizar, aumentando ainda mais a perversidade do problema, com tristes conseqüências. Como a do menino da periferia que, ao ser detido pelo segurança de um supermercado tomando um danoninho, disse estar apenas querendo saber que gosto tinha esse produto tão anunciado na televisão.




O Natal está chegando e o volume publicitário na TV deve crescer na direção das crianças. Em casa, diante do televisor, pouco podemos fazer, já que as mensagens chegam sem nosso consentimento. Mas na sociedade, já é tempo de buscarmos formas eficazes de proteção das nossas crianças para poupá-las, ao menos, da fúria consumista.


*Sociólogo, jornalista e professor da Escola de Comunicação e Artes da USP

contato:
laloleal@uol.com.br




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