Convivência e conivência

Entenda a lógica do convívio pacífico entre educadores e traficantes na maior favela da América Latina, a Rocinha

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Julio Ludemir*


Talvez a melhor maneira de se entender os projetos educacionais dentro de uma favela como a Rocinha seja começando este artigo narrando o dia em que fui julgado pelo tribunal do poder paralelo – o mesmo que ficou mundialmente conhecido quando condenou e executou o jornalista Tim Lopes. Esse julgamento, que começou na noite de 28 de abril de 2003 e teve como clímax a manhã do dia 30 do mesmo mês, é a trama que dá sustentação ao romance que acabei de publicar,
Sorria, Você Está na Rocinha

. Mesmo os leitores mais desavisados perceberão que um julgamento na favela é muito mais complexo do que nós, em nossa infinita distância, somos capazes de imaginar.



Teoricamente, fui julgado por causa de um artigo que publiquei no site
Rocinha World

, editado por uma dessas lideranças comunitárias da Rocinha. Como disse, teoricamente. Porque, na prática, o tal artigo foi apenas um ótimo pretexto para que a “indústria da miséria” me vendesse na boca-de-fumo como um alcagüete. Algumas pessoas que vivem da interlocução entre asfalto e favela foram até o então chefe do tráfico me acusar de estar dizendo que aquele era um morro sem dono.



Efetivamente, o título do meu artigo era
Rocinha SA

,
Uma Favela sem Dono

. Mas até mesmo o mais tacanho dos bandidos logo entendeu a licença poética de que fiz uso para discorrer sobre a liberdade que se goza na Rocinha, bem diferente do atemorizante quadro da narcoditadura pintado pela nossa apressada e superficial mídia. Por isso, tive facilidade em sair vivo de um julgamento cuja condenação seria a pena de morte. A acusação não tinha o menor fundamento.



Tenho insistido no meu julgamento como tema não apenas porque precisava fazer uma catarse de uma experiência com esse nível de dramaticidade e muito menos porque seria fácil vendê-lo à mídia. Meu julgamento pode ser de grande valia para se entender o nível de complexidade nas relações entre os diversos atores sociais que contracenam tanto na Rocinha como nas demais favelas cariocas. Vi, ali, que os morros cariocas têm uma vida muito mais densa do que nos permite enxergar a óptica pela qual os vemos – cujo conflito principal seria uma simplória versão do bandido
versus

mocinho hollywwodiano, que aqui traduzimos para traficante
versus

trabalhador.



Por esse motivo, fui buscar a “advogada” que me defendeu perante os bandidos na famosa creche-escola da Rua Um, a União Faz a Força. Tida como o maior projeto de educação popular em curso no país, a União Faz a Força atende diariamente cerca de 500 crianças e trabalha com verbas públicas e privadas, obtidas de todas as esferas de governo, e até mesmo de organismos interna-cionais. A “advogada” a que me refiro é Adriana Pirosi, coordenadora da creche-escola em questão.



Acionei Adriana porque, ao entrevistá-la para o que então seria um livro-reportagem relatando a complexa transição de uma favela miserável para um bairro popular, ela me autorizara a usar seu nome caso fosse abordado por algum “bandido neurótico”. “Diga que é meu primo”, aconselhara-me ela. Dizer que é parente de Adriana no mínimo faria com que qualquer bandido pensasse duas vezes antes de me executar. Adriana era nada menos do que a cunhada do então todo-poderoso Lulu [
Luciano Barbosa da Silva, morto em abril deste ano

], que durante cerca de três anos esteve à frente do tráfico de drogas da maior favela do Rio de Janeiro.



Não pense que estou cogitando a possibilidade de que um projeto educacional desse porte tenha como objetivo preparar quadros para o tráfico de drogas. Em primeiro lugar, o tráfico não precisa arregimentar pessoas para as numerosas bocas-de-fumo existentes na cidade do Rio de Janeiro. Infelizmente, a procura de posições nesse aquecido mercado de trabalho é muito maior do que a oferta de vagas. Mesmo com todas as perdas decorrentes da atuação da polícia ou da guerra de facções, o tráfico não tem a menor dificuldade para repor os homens que caem em combate ou nas malhas da Justiça. O tráfico tem seus próprios projetos sociais, muitos deles no campo da cidadania. Ele assim o faz para dar um rumo à vida das crianças faveladas que a boca (de fumo, ponto-de-venda de drogas) não terá como absorver, caso queiram se tornar bandidas quando crescerem.



Vou recorrer a esse mesmo dia, o do meu julgamento, para explicar o tipo de relação entre o tráfico de drogas e os projetos educacionais existentes na favela. Durante a tensa conversa que mantive com minha “advogada”, ela fez uma distinção entre o que chamou de “pessoa” e “personagem”. Esses termos são de fundamental importância para entender a convivência entre bandidos e comunidade. Quem era a cunhada do Lulu era “a sua pessoa”, explicou-me. A “personagem” era a coordenadora daquela creche-escola. O próprio Lulu, segundo ela, também tinha “a sua pessoa” e “a sua personagem”. Aquele projeto educacional, frisou minha “advogada”, tem como objetivo preparar “pessoas”.



Todo mundo na Rocinha tem absoluta consciência de que só sobrevive no morro quem aprender a diferença entre “pessoa” e “personagem”. Esses dois conceitos não fazem parte do currículo das escolas públicas ou dos diversos projetos educacionais e/ou de cidadania em curso tanto na Rocinha como nas demais comunidades de baixa renda do Rio de Janeiro. Mas, com toda certeza, eles são ensinados pelas professoras que trabalham ali dentro, que, por sua vez, estão vivas e produtivas porque um dia se deram ao trabalho de aprender o que a favela chama de “congo” – um inusitado conjunto de códigos por meio dos quais a comunidade aprende as mil maneiras de se morrer ali dentro e a única de se viver. A diferença entre “pessoa” e “personagem” é apenas um dos muitos códigos seguidos à risca tanto por trabalhadores como por bandidos.



O dia do meu julgamento está longe de ser o único em que testemunhei o que os olhos do asfalto chamariam de promiscuidade na relação entre os atores oficiais e paralelos da favela. É por isso que relembro um dia de fevereiro de 2003, quando o Comando Vermelho impôs, pela segunda vez em menos de seis meses, o fechamento do comércio em toda a cidade do Rio de Janeiro. Aos olhos do asfalto, a favela teria sido a primeira trincheira a se render ao poder do crime organizado.



Naquele ensolarado dia de fevereiro, funcionaram no morro todas as creches e escolas cujos diretores se deram ao trabalho de ligar para o Lulu, o tal chefe do tráfico. Não foram todas que tiveram esse expediente, vale lembrar. Posso dizer com certeza que a creche do Valão (subárea da Rocinha que fica no pé do morro, perto da entrada que dá acesso ao bairro de São Conrado) recebeu a visita de bandidos e passou o dia fechada. Mas é com a mesma certeza que digo que a creche-escola da Rua Um, a mesma que é coordenada pela cunhada do Lulu, funcionou a pleno vapor. Também funcionaram normalmente o posto de saúde do morro e o que podemos considerar serviços essenciais da favela, como as padarias, os pontos-de-venda de gás, as linhas de ônibus e os transportes alternativos.



Não foi à toa que a creche do Valão fechou suas portas sem procurar o chefe do tráfico, negociando com ele o que para todos dentro de uma favela está no nível do óbvio ululante. A creche do Valão, uma espaçosa construção instalada em uma das áreas mais privilegiadas do morro, estava totalmente esvaziada ao longo dos meses que passei subindo e descendo as ladeiras da Rocinha, colhendo as informações que usaria em meu livro.



Construída no início dos anos 80 com verba do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), a creche do Valão precisou de menos de uma década para perder o
status

de maior projeto social em curso no mundo para uma verdadeira terra de ninguém, depredada inclusive fisicamente. A creche do Valão foi uma das maiores vítimas da aquecida “indústria da miséria”. Essa indústria, que funciona nos mesmos moldes que a “indústria da seca”, se espalha por todas as favelas cariocas.



Quando estava na Rocinha, essa creche era disputada pelo então candidato à presidência de uma das associações de moradores, a União Pró-Melhoramentos dos Moradores da Rocinha (UPMMR). Minhas fontes na Rocinha não tiveram dificuldade em traduzir seu ataque à creche do Valão, que daria ao então produtor de bailes funks uma plataforma mais consistente do que o fato de ser o candidato do Lulu.



As creches são os projetos sociais mais importantes dentro de uma favela – e aqui estamos levando em consideração tanto o morador comum quanto o bandido. Foi graças às creches que a mulher da favela pôde desenhar socialmente o que os técnicos pomposamente chamam de “família monoparental”, termo muito bonito para cunhar as famílias à frente das quais está o que o morro chama de “mulher guerreira”. Ou “trabalhadeira”.



Mas as creches também são um importante trunfo para o bandido. E o principal motivo para que as creches cheguem a fazer parte da estratégia de defesa da boca é que nem mesmo o mais caxias dos sargentos seria capaz de meter a bota na porta de um desses estabelecimentos.



Toda a polícia do Rio de Janeiro sabe que não há uma única creche nas favelas que não tenha um lugar seguro onde os bandidos possam se esconder durante as incursões policiais. Mas essa mesma polícia sabe que até o mais conservador dos jornais abriria uma de suas manchetes para denunciar o obtuso PM que invadisse uma escola, acusando-o de estar confundindo trabalhador com bandido. Foi essa a defesa que um deputado estadual usou para se livrar das denúncias de que fora ao batalhão mais próximo da sua comunidade pedir que a polícia fosse mais benevolente com os bandidos. A polícia estava fazendo suas operações no horário de entrada e saída das escolas, defendeu-se o parlamentar.



Não é apenas a polícia que tem de respeitar o horário de entrada e saída das crianças das escolas. Durante minha permanência na favela, soube de um episódio que trouxe sérios problemas para o então número dois na hierarquia da boca e hoje, depois da morte do Lulu, o chefão da favela. Falo do dia em que ele “soltou a madeira nas costas” de uma das vítimas do tribunal do poder paralelo, que fora condenada a uma das penas intermediárias da chamada lei da favela. Ninguém pôs em questão o fato de um homem estar se arvorando ao direito de julgar outro. Mas a diretora da creche da Rua Um foi, ao queixar-se a Lulu pelo fato de um chefe estar levando os problemas da boca para a porta da sua escola.



O crime do chefão se tornou ainda mais grave aos olhos daquele tribunal porque ele tentara impor a lei do tráfico de manhã cedo, quando muitas mães e crianças estavam entrando na creche. A comunidade quer e precisa da lei do tráfico, a única que conhece. Mas dentro dessa lei está o respeito às crianças e aos mais velhos bem como ao trabalhador.



As creches e escolas são respeitadas pelos bandidos não apenas por representar um lugar seguro para eles, nos quais podem se esconder quando perseguidos pela polícia. Para quem não sabe, o Comando Vermelho tem uma oração, que todas as cadeias controladas por essa facção rezam todos os dias às 18 horas, na qual fazem referência a uma “fé em Deus e fé nas crianças”. Eu precisaria de um outro artigo para traduzir as inúmeras implicações dessas duas frases enunciadas tanto na oração do Comando Vermelho como nas pichações nas paredes de muitas favelas, inclusive nas da Rocinha. Aqui, vou me ater à consciência que todos têm de que o futuro a Deus e às crianças pertence, mas que esse mesmo futuro só será possível se os pequenos tiverem a educação que os seus pais bandidos não puderam ter. Por isso, os projetos educacionais das favelas cariocas acolhem tanto os órfãos quanto as viúvas da sangrenta guerra do tráfico.




*É jornalista e autor do recém-lançado Sorrua, Você Está na Rocinha (Record, 400 págs., R$ 44,90), romance no qual narra o que presenciou após morar seis meses na Rocinha, no Rio de Janeiro (RJ)



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