Conversões e resiliências

“Quando assisto ao desânimo de tantos professores, faço-lhes ver o quanto têm para andar”. Leia aqui mais um texto de José Pacheco

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A janela do meu escritório é um ícone, através do qual alcanço o verde da vegetação, o azul do infinito. Um olhar desatento submete-se a ilusões de óptica e vê no horizonte um só maciço arborizado. Mas o olhar do Marcos, que vagabundeia numa vastidão de pormenores que a paisagem encerra, vê mais fundo, detecta sucessivos recortes, vales que se ocultam à visão bidimensional. E este avô aprendente segue a direcção do olhar do neto, para rever a paisagem onde se embrenhou fisicamente, vezes sem conta.






Foi no subir e descer daqueles montes que aprendi uma lição. Acreditamos que, atingido o cume de uma montanha, teremos atingido o limite do horizonte. Chegados ao cimo do caminho, apercebemo-nos de que ele se estende para o fundo do vale. Atravessado o vale, novo caminho segue, monte acima, até ao ponto em que será preciso descer para voltar a subir. E, depois, descer e subir e descer e subir e descer…





A caminhada ensina que não há everestes definitivos. O limite dos mares, as arestas dos abismos onde imperavam os monstros de todas as mitologias, tudo o que aparenta ser o último e definitivo passo não é mais que o primeiro passo de cada recomeço. Nesse entendimento, quando assisto ao desânimo de tantos professores, faço-lhes ver o quanto têm para andar, o quanto devem acreditar na passada. Falo-lhes dos educadores de todos os tempos que vão a seu lado, numa caminhada que não cessa. Falo-lhes de resiliência.





Encontrei o Alberto, à saída de mais uma visita à Ponte. Este jovem professor de Português diz-me que tem pensado em abandonar a profissão. É esta a sina das escolas que ainda temos. Se um ou dois professores tentam melhorá-la, logo vêm dez ou vinte para os impedir. Sucede o cansaço, o desespero, a desistência.




Nos professores que ainda não desistiram de o ser observo características comuns. Sabem, por exemplo, que uma teoria sem a caução da prática é estéril, e que uma prática que enjeite a reflexão crítica e os contributos da teoria é inconsequente. Sabem que, entre as condições indispensáveis para a concretização de um projecto, avulta a necessidade de todos os professores possuírem um completo domínio conceptual desse projecto. Sabem que as reuniões de professores não podem ser pautadas pelo predomínio das “opiniões” e por exercícios de senso comum pedagógico. Sabem ser necessário passar da discussão centrada em “impressões” para uma reflexão centrada na reinterpretação das práticas. Sabem que as conversas circulares, com gente a olhar para o relógio, somente servem para coleccionar actas, projectos de papel e faz-de-conta, relatórios, mapas estatísticos, bugigangas que mantêm as escolas cativas de uma racionalidade administrativa e burocrática. Urge acontecer uma espécie de “conversão”.



A professora amiga do Alberto era nova na escola e não conhecia os hábitos da casa. Levou um livro do Morin para a reunião do “pedagógico”. Foi fatal, pois não tardou a ouvir:




– Olha esta, armada em intelectual! Era só o que nos faltava!





Ó colega, eu encontrei este livro na biblioteca.

– titubeou a professora mais nova.





Vê-se bem que a colega ainda é nova, que ainda tem umas ideias esquisitas. Assim, não vai longe! –

replicou a professora mais velha.





Enganou-se a colega mais velha, pois a colega mais nova foi “longe”. Foi para longe daquela escola, peregrinar por outras “escolas” habitadas por sombras. Foi resistindo ao desdém e ao desânimo. Até ao dia em que encontrou um lugar a que pôde, finalmente, chamar escola. E, com professores a quem pôde chamar professores, ajudou a levantar um projecto resiliente.
 






Sei que o desafio é imenso e que poderá parecer inacessível a comuns mortais. Mas não o creiam. A formação profissional não nos qualificou senão para a reprodução de um só (e inquestionável) modelo pedagógico. Ainda hoje, chegam às escolas professores que não sabem por que fazem o que fazem, e que não fazem algo diferente por não terem sequer uma ideia do que seria possível ser feito. Por mais exagero que possa parecer ter posto na afirmação, é esta a dura realidade. Mas acredito que os professores são capazes de transcender os erros cometidos na sua formação.





O Nunziati dizia que


“não há mudanças nos nossos modos de fazer sem uma transformação nos modos de pensar”.

E, em contraponto com o desabafo do Alberto, um velho professor, que não envelheceu profissionalmente, disse-me:
“Há muitos anos, eu percebi que era um desqualificado com canudo. Admiti que nada sabia de ser professor, algum tempo depois de ter saído da escola do Magistério. Nesse tempo, a compreensão da dimensão do meu drama assustou-me. Reagi fugindo para a frente. Apesar das dificuldades defrontadas, preferi o caminho da autenticidade e do conflito. Recusei o fácil caminho de reproduzir o que é velho e não serve. Um dos modos de fugir para a frente foi estudar, penetrar os mistérios do fenómeno educativo. E ainda só vou no início.”





Haja esperança de novas “conversões”, que não se convertam em desilusões. É preciso aprender a recomeçar. E a, serenamente, retomar o caminho que leva à cumeada, de onde se avista escolhos a transpor, novos caminhos para subir e descer e subir.




Leia aqui os outros textos já publicados na série inédita e exclusiva do educador português José Pacheco:





Tudo era possível




Herrar é umano




Olhares e modos de ver




In illo tempore




Gracias a la vida




Perfilados de medo




Entre dois fogos




Mais uma história da Ana




La porte-plume redevient oiseau




Redundâncias




Educar da cidadania




O pai do Watson




O Senhor Carlos




A divisão das orações




Bem pelo contrário!…




A caixinha dos segredos




O padre, o poeta e a professora de francês




Para os filhos dos filhos dos nossos filhos




Tempus fugit




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