Contra a ideia da força, a força das ideias

Tomo emprestado ao professor Florestan Fernandes o título de minha coluna deste mês. Esse foi o slogan de sua campanha a deputado constituinte na …

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Tomo emprestado ao professor Florestan Fernandes o título de minha coluna deste mês. Esse foi o
slogan

de sua campanha a deputado constituinte na década de 80. Saíamos de uma ditadura militar e a USP, por meio de alguns de seus mais ilustres professores, tomava parte na cena política em defesa do diálogo como arma contra a violência. Décadas depois, numa manhã fria de 1º de junho, enquanto caminhava com meus alunos em direção à reitoria, perguntava-me o que diria o professor se, como nós, visse a entrada do prédio ocupada por uma tropa da PM, com seus cassetetes, seus escudos, suas metralhadoras e seus fuzis. E que lá estavam a pedido da própria reitoria…

A cena era repugnante e paradoxal. Uma universidade pode ter múltiplas ‘tarefas’ ou ‘funções’ sociais, a depender de circunstâncias específicas do momento. Mas sua razão de ser é seu compromisso histórico com a livre produção e difusão de conhecimentos. O exame crítico de ideias e o escrutínio público de teses não são meros recursos metodológicos; constituem a alma de seu
ethos

específico. Daí que o cultivo ao diálogo e à pluralidade – por oposição à violência que silencia e uniformiza – seja seu princípio motor. A força das ideias contra a ideia da força.

Lembrei-me, então, de uma história que precisava ser contada a meus alunos. Em outubro de 1936, Miguel de Unamuno, então reitor da Universidade de Salamanca, encontrava-se numa cerimônia ao lado do bispo de Salamanca, da mulher do ditador espanhol Francisco Franco e do general mutilado de guerra Millán Astray. Na audiência, falangistas gritavam periodicamente sua saudação fascista:
Viva a morte

! A ela Astray respondia com força e entusiasmo:
Viva a morte

!

Unamuno não se conteve em face da barbárie e proferiu o que viria a ser sua última lição:
Conheceis-me bem e sabeis que sou incapaz de permanecer em silêncio. Por vezes ficar calado equivale a mentir. Porque o silêncio pode ser interpretado como consentimento… De um mutilado de guerra que careça da grandeza espiritual de Cervantes, é de esperar que encontre terrível alívio vendo como se multiplicam a sua volta os mutilados. Nesse preciso momento, Astray responde com um grito bárbaro e irracional: Abaixo a inteligência! Viva a morte!

Os falangistas apontaram uma arma contra a cabeça de Unamuno que, não obstante, prosseguiu seu discurso:
Este é o templo da inteligência. Sou seu sumo sacerdote. Estais a profanar seu recinto sagrado. Vencereis porque vos sobra a força bruta. Mas não convencereis. Para convencer há que persuadir. E para persuadir seria necessário algo que vos falta: razão e direito na luta… Tenho dito.

Unamuno foi condenado à prisão domiciliar e algum tempo depois morreu.

Evoco suas palavras na esperança, talvez vã, de que a grandeza de alguns de nossos antepassados possa iluminar a escuridão densa de nosso presente. Para que sejamos, como diz Políbio, dignos de nossos antepassados. E possamos nos orgulhar da herança que deles recebemos e que aos novos legaremos. Para que permaneça viva a força de suas ideias.


José Sérgio Fonseca de Carvalho


doutor em filosofia da educação pela Feusp



jsfc@editorasegmento.com.br

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