Contato das crianças com o universo sonoro enriquece a percepção e estimula o cérebro

Prática musical na escola incentiva a escuta, o improviso, as atividades em grupo e a autonomia

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Fotografia: Gustavo Morita

O neurologista e escritor britânico Oliver Sacks (1933-2015), autor de Alucinações musicais – Relatos sobre a música e o cérebro (Companhia das Letras, 2007), dizia que a música é um elemento com tal potência que consegue moldar o cérebro. Partindo do pressuposto de que isso é verdade – em seu livro, Sacks descreve uma série de casos intrigantes a esse respeito envolvendo adultos – o tema dá mais relevância ao trabalho com música e sonoridades em geral na educação infantil, momento em que os estímulos têm efeitos poderosos no desenvolvimento cognitivo das crianças.

Como diz o psicólogo cognitivo norte-americano Howard Gardner, as “janelas” das habilidades estão mais abertas do que nunca nessa fase da vida. Cabe ao educador a importante tarefa de aguçar o aprendizado com atividades que envolvam os mais variados sons, melodias, canto e gestos. Trata-se do processo de musicalização infantil, responsável por desenvolver habilidades como criatividade, imaginação, atenção e autodisciplina, entre outras tantas.

Para realizar esse tipo de trabalho nas séries iniciais, o docente tem à sua disposição um leque variado de novas metodologias. Uma das primeiras fontes sonoras é o próprio corpo da criança e seus movimentos, como lembra Tizuko Kishimoto, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (Feusp) e pesquisadora da área de educação infantil. “O brincar de fazer som inclui o movimento do corpo. Um papel amassado ou o bater palmas expressam a sonoridade que se cria com as mãos”, escreve a pesquisadora em Brinquedos e brincadeiras na educação infantil, texto para os Anais do I Seminário nacional: Currículo em movimento – Perspectivas atuais, lançado em 2010.

Pequenos autores

Já Teca Alencar de Brito, autora o livro Música na educação infantil: propostas para a formação integral da criança (Peiropolis, 2003), busca inspirar-se no trabalho do musicólogo alemão naturalizado brasileiro Hans-Joachim Koellreutter (1915-2005), que, entre outras coisas, foi professor de harmonia de Tom Jobim. Em seu trabalho, ela busca entender e observar o comportamento de seus alunos. “Eles também devem ser autores desse processo. É fundamental analisar como reagem aos sons e manuseiam os instrumentos.” Sua atuação baseia-se nos três pilares de Koellreutter: aprender a apreender com alunos o que ensinar, ou seja, observá-los e conhecê-los para preparar as aulas; questionar tudo sempre e, por fim, não oferecer apenas aquilo que a criança pode encontrar nos livros.

A postura é compartilhada por Douglas Froemming, do Centro Recreativo Ilhas do Sul, em São Paulo (SP). Entender o universo da criança e estreitar relações antes de começar qualquer tipo de trabalho. “Começo a introduzir conceitos apenas quando percebo que consegui construir uma relação de confiança”, conta.

Outra possível linha de trabalho é aquela que busca aguçar a escuta das crianças. A ideia, segundo a professora Thamiris Corrêa, é fazer com que a criança desenvolva prazer pela música a partir dos sons à sua volta. Essa abordagem tem como fundamento a teoria do educador e compositor canadense Murray Schafer, que destaca a importância da audição e da percepção dos sons que nos rodeiam. Para isso, é importante que os alunos tenham contato com elementos como terra, grãos, sucata e papelão, por exemplo. O objetivo é envolver e despertar o interesse pelos sons – qualquer tipo deles – que podem ser produzidos de uma maneira simples e com materiais do dia a dia. Assim, as crianças podem perceber as particularidades de cada som.

Outra forma de expressão musical que vai além do cantar é o desenho, conceito trabalhado por Douglas Froemming a partir da abordagem criada por Pedro Paulo Salles, professor da USP. Segundo ele, é possível explorar essas duas práticas para que tenham relação bem mais integrada do que a que ocorre comumente. “As crianças se expressam bem por meio da arte e uma [prática] pode complementar a outra”, diz o educador.

É fundamental estabelecer laços mais profundos entre as artes visuais e a música para que haja interdisciplinaridade. “Os vínculos podem se dar nos níveis estrutural, descritivo, narrativo, cinético, gestual, plástico e representativo”, ressalta Salles.

A importância de escutar

Para a pianista e pedagoga argentina Violeta Hemsy de Gainza, a audição deve estar em primeiro lugar no trabalho do docente. Este, por sua vez, precisa escolher um repertório de qualidade técnica, para que possa estimular os sentidos e a intepretação. É imprescindível também que as melodias trabalhadas tenham um significado contextual para a criança – daí a importância de conhecê-la bem. O educador terá bons resultados ao conduzir atividades que incluem canções populares e folclóricas, além de melodias eruditas europeias (instrumentais
ou cantadas).

Para um primeiro momento de trabalho, Violeta sugere a realização de exercícios de audição. Em seguida, sugere que o aluno seja estimulado a fazer atividades de improviso, individualmente e em grupo. Isso incentiva o desenvolvimento cognitivo e a capacidade de socialização. “A música é inerente ao indivíduo. Nosso papel é apresentar elementos para que a criança possa se apoderar dessa linguagem e, então, desenvolver aspectos relacionados à comunicação”, diz Marieta Alberini Loureiro Campana, professora do curso de música da Faculdade Santa Marcelina, de São Paulo (SP).

O compositor e pesquisador francês François Delalande segue a mesma linha de pensamento. A partir de sua pesquisa sobre a pedagogia das condutas musicais, ele diz que o papel atribuído ao educador é aguçar a imaginação do aluno, conduzi-lo em sua elaboração e valorizar as descobertas, reforçando, assim, uma conduta natural. “É fundamental estimular o protagonismo dos pequenos. Aulas interativas enriquecem o grupo, permitem que o aluno traga as suas vivências e crie ambientes sonoros”, afirma Heloísa Lobo, professora de educação musical e regente do Colégio Rio Branco, em São Paulo (SP).

Músicas para a vida

O contato da criança com a música acontece desde cedo. A partir do quinto mês de gestação, o bebê passa a ouvir e a reagir aos sons emitidos perto do útero da mãe. Uma pesquisa realizada por cientistas da Universidade de Helsinque, na Finlândia, reforçou a importância dessa proximidade. Segundo o estudo, o cérebro dos pequenos é capaz de armazenar informações antes do nascimento, o que contribui para o aprendizado da linguagem posteriormente.

Outra análise feita recentemente pelo Laboratório de Neurociência Cognitiva do Hospital Infantil de Boston, nos EUA, comprovou que o contato mais intenso com sons e movimentos influencia diretamente a capacidade cognitiva. Daí a importância de proporcionar uma vivência musical à criança, principalmente no período entre os três e os seis anos de idade.

Para Elvira Souza Lima, pesquisadora e educadora em neurociênciase educação, é importante que essa experiência não se limite a aulas conduzidas apenas por profissionais da área. “A escola inteira deve garantir esse contato, colocando canções durante os horários de lanche, na entrada e até mesmo na sala dos professores”, indica. Recentemente, ela lançou a coleção Eu canto, eu me encanto, série de canções destinadas a formar e a desenvolver estruturas musicais tanto no cérebro dos alunos quanto dos docentes. Por meio de cantigas brasileiras executadas de três modos diferentes – canto acompanhado de instrumentos, apenas voz e instrumental – a profissional busca criar memórias musicais entre
as crianças.

Como relata Elvira, a neurociência constatou que as canções têm o poder de modificar o espessamento do corpo caloso do cérebro, um fecho de fibras que une o hemisfério direito ao esquerdo. “Essa estrutura é responsável pelas conversas entre as duas partes do órgão. Quando se estuda música, por exemplo, a área se expande e proporciona ganhos que permanecem para a vida inteira”, diz. Entre as habilidades trabalhadas estão: percepção do espaço, atenção, imaginação, criatividade e até o respeito ao tempo. “O aprendizado é muito grande. Os benefícios para o comportamento e para o desenvolvimento emocional são imensuráveis”, finaliza.

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