Construções verdes rendem melhor

Construir ou adaptar o campus de modo a preservar os recursos naturais entra na agenda das instituições de ensino gerando, além de uma postura …

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Construir ou adaptar o campus de modo a preservar os recursos naturais entra na agenda das instituições de ensino gerando, além de uma postura ecologicamente correta, maior produtividade e redução de custos

por Patrícia Pereira

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Telhados verdes, que ajudam a captar e reaproveitar a água da chuva. Coleta seletiva do lixo com destinação coerente dos resíduos. Posicionamento estratégico de janelas para melhor aproveitamento da ventilação e dispensar o uso de ar-condicionado. Essas são apenas algumas das soluções já criadas e que começam a fazer parte da realidade de algumas instituições de ensino superior em nome da preservação do meio ambiente. A adoção de novas edificações baseadas nos princípios da sustentabilidade, além de denotar o compromisso ambiental, cativando alunos e a comunidade em geral, serve de exemplo para outros estabelecimentos e, de quebra, proporciona uma redução nos custos operacionais.

O custo da construção dos chamados “prédios verdes” costuma ser um pouco mais caro, se comparado a uma edificação comum. A economia, porém, vem ao longo dos anos de uso com a redução dos custos operacionais dos estabelecimentos, como em contas de água e de energia. Há ainda pesquisas que apontam até a melhora no desempenho dos alunos.

No entanto, para que uma instituição seja considerada realmente engajada na promoção da sustentabilidade, precisa também incluir nos currículos um programa de educação ecológica para os alunos. Assim, cerca de 300 instituições brasileiras assinaram em junho do ano passado, durante a Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável ocorrida no Riocentro, uma declaração de apoio ao desenvolvimento sustentável com o compromisso de inserção do tema no cerne das faculdades.

Um dos tópicos da declaração inclui tornar os campi mais “verdes”, com propostas como a redução do impacto ambiental por meio do uso mais eficiente de água, energia e recursos materiais em seus edifícios e instalações. Apesar de o movimento para que as instituições de ensino se tornem sustentáveis ter ganhado força a partir da década de 1990, com uma série de declarações firmadas em prol dessa causa (veja quadro na página 41), esses documentos não se referem a estratégias de implementação, ou seja, a ‘como’ isso deve ser feito pelas instituições. As medidas a serem adotadas acabam sendo decididas por cada instituição com base em estudos próprios sobre preservação do meio ambiente.

Selo ambiental

O que há de mais objetivo e unificado no Brasil para promover a construção ou a reforma de um prédio universitário de modo que ele atenda quesitos básicos de sustentabilidade é a certificação internacional Leadership in Energy and Environmental Design (LEED), concedida pelo Green Building Council de acordo com os critérios de racionalização de recursos atendidos por um edifício. Mas, apesar de ser bastante conhecida, a certificação não é amplamente adotada no meio acadêmico. No Brasil, apenas a Universidade do Hambúrguer, instituição de ensino técnico da rede de restaurantes McDonald’s, localizada em Barueri (SP), a recebeu, em julho do ano passado.
Fundada em 1997, a universidade passou por uma grande reforma e suas instalações foram organizadas para proporcionar o uso racional dos recursos naturais.

Entre os dispositivos instalados, há, por exemplo, vasos sanitários com válvulas diferentes para resíduos líquidos e sólidos, o que possibilita um consumo de água cinco vezes menor se comparado aos modelos convencionais. As torneiras também despendem 55% menos água do que o padrão. Para economizar energia, o projeto de iluminação faz proveito da luz natural e a iluminação conta com lâmpadas de LED, que consomem menos energia com maior potência e vida útil. Até o mobiliário foi feito com madeira certificada e o carpete fabricado com desperdício mínimo de matéria-prima e energia.

As paredes de todos os pavimentos da Universidade do Hambúrguer foram pintadas com tinta livre de metais pesados, produzida com baixa emissão de poluentes. Além disso, todo o entulho gerado pela reforma foi destinado de forma correta para minimizar o seu impacto. “Metal, papelão e madeira foram separados em caçambas distintas, recolhidos por uma empresa especializada e encaminhados para empresas recicladoras. O restante seguiu para aterros devidamente credenciados”, informa a universidade no site.

Atualmente a Universidade do Hambúrguer promove práticas de sustentabilidade em seu dia a dia, utilizando só material reciclável em seus cursos, realizando a coleta seletiva de lixo e cumprindo o processo de descarte de pilhas, entre outras atividades.

Retorno garantido

Toda essa inovação em nome da sustentabilidade, porém, também tem um custo. Segundo Marcos Casado, diretor técnico e educacional do GBC Brasil, entidade responsável pela emissão do LEED, a construção de um prédio atendendo aos quesitos de sustentabilidade custa de 1% a 7% a mais, dependendo das adaptações necessárias a cada nível de certificação. Mas esse gasto, segundo Casado, é facilmente coberto pelo retorno oriundo da redução dos custos operacionais. “O consumo de energia é 30% menor. Há também a redução de até 50% no consumo de água e de até 80% nos resíduos. Ocorre uma redução média de 9% no custo de operação do empreendimento durante toda a sua vida útil”, diz.

Segundo o diretor do GBC Brasil, até mesmo a produtividade das pessoas aumenta em ambientes sustentáveis. “Nas universidades certificadas nos EUA o desempenho dos alunos melhorou em média 20%”, afirma Casado.

A recuperação do investimento é confirmada pela Faculdade Eniac, em Guarulhos. O prédio “verde” ficou pronto em 2006. Ele tem 12 andares, com 22 mil m2 de área construída, por onde circulam 12 mil alunos, sendo nove mil do ensino superior e três mil da Educação Básica. De acordo com Ruy Guérios, presidente do grupo, a construção do prédio custou R$ 8,5 milhões, 20% a mais do que o projeto inicial, que não previa medidas de respeito ao meio ambiente. Todo o custo adicional foi recuperado em três anos. “Consumimos apenas 20% da água que seria gasta em um prédio comum e economizamos energia com lâmpadas mais eficientes e sem o uso de ar-condicionado. Hoje, gastamos com energia o mesmo que consumíamos quando tínhamos apenas um terço dos alunos”, diz.

Guérios conta que a construção de um prédio novo já estava em andamento em 2004, quando foi tomada a decisão de investir em sustentabilidade. “Os arquitetos ficaram loucos. Paramos o projeto para adaptar tudo o que pudesse ser feito de forma sustentável”, diz. O primeiro passo foi mudar a posição em que o prédio estava sendo erguido para permitir o melhor aproveitamento dos ventos da região e otimizar a ventilação nas salas de aula. A água da chuva também é reaproveitada nos banheiros, na lavagem de pátios e irrigação dos jardins. Para isso, a Eniac ergueu uma usina de tratamento de água e esgoto. O lixo também é destinado ao reaproveitamento, já que no dia a dia da faculdade é feita a coleta seletiva. “Uma ONG faz o treinamento do pessoal da limpeza para que a coleta seletiva seja feita da melhor maneira possível. E também criamos um indicador de sustentabilidade que avalia e identifica onde a coleta é mais eficiente”, diz Guérios. Além disso, durante a construção do prédio foram empregados os princípios de ‘obra limpa’, com a destinação correta de todos os materiais de descarte, como madeiras, concreto e ferros.

“Queríamos ser um exemplo e foi preciso fazer uma mudança de cultura na época. Todos os funcionários, professores e alunos envolvidos precisavam vestir a camisa da sustentabilidade. Para isso fizemos vários encontros e aprovamos em conjunto uma nova ética”, sustenta Guérios, que ainda atribui o crescimento da instituição a esta nova postura.

Topo do ranking

Outra instituição que não se prendeu a certificações oficiais para implementar a sustentabilidade em seu campus foi a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Ela aparece na 68ª posição do ranking GreenMetric, do qual participam 178 instituições de 42 países, como sendo a instituição de ensino do Brasil que mais atua em prol do meio ambiente. O índice leva em conta indicadores de sustentabilidade organizados em cinco categorias: estatísticas verdes, energia e mudanças climáticas, gestão de resíduos, uso de água e transportes.

“O que é ser sustentável é um grande problema acadêmico. É complexo dizer o que é sustentável. Ter telhado com captação de energia solar e coleta de água é ser sustentável? É preciso analisar todo o impacto no ecossistema que cada solução dita sustentável provoca”, diz Luiz Felipe Guanaes, diretor do Núcleo Interdisciplinar de Meio Ambiente (Nima) da PUC-Rio.

Guanaes explica que a PUC-Rio, há mais de 20 anos, promove a busca de uma melhor relação com o meio ambiente, tendo transformado, inclusive, o seu campus em um grande parque natural. “A gente joga forte. Fizemos grupos internos de pesquisa que articularam conhecimentos científicos da área. É preciso fazer treinamento constante, tanto dos funcionários da limpeza quanto dos alunos, que não têm uma vivência neste sentido. É um processo lento. Estamos há mais de um ano nisto e esta é só uma das ações”, diz Guanaes.

De acordo com ele, as ações realizadas no campus visam despertar a sensibilidade do aluno a respeito do tema. “É preciso que ele use conceitos de sustentabilidade dentro do seu contexto acadêmico”, explica Guanaes. Já que as universidades são as responsáveis por formar os profissionais que irão atuar em postos de liderança no futuro, elas têm o papel de difundir o emprego da sustentabilidade entre os alunos para que essa concepção chegue aos mais diversos setores. “O aluno tem de sair da universidade com um compromisso mais claro com o meio ambiente, mais adaptado à realidade do homem com a natureza”, diz Guanaes. Na opinião do diretor, a tarefa de mudar o campus é fácil se comparada à mudança de uma estrutura disciplinar.

Recanto na mata
A PUC-Rio criou a Estação de Educação Ambiental, um espaço que reúne várias práticas sustentáveis voltadas a alunos, estagiários e crianças visitantes. “Mostramos, por exemplo, que lixo não é lixo e pode ser reciclado. Há uma área de compostagem. Existe também um pequeno espaço de Mata Atlântica e de restinga, que praticamente já se acabou no país, onde a gente discute as funções sociais dessas vegetações. Há uma casinha feita de madeira certificada, com telhado verde construído com uma horta em cima. A Estação é um pedacinho que representa o futuro”, diz Luiz Felipe Guanaes, diretor do Núcleo Interdisciplinar de Meio Ambiente (Nima) da PUC-Rio.

 

Ecologicamente correto
A FGV está construindo um novo prédio no Rio, assinado por Oscar Niemeyer, ecologicamente correto. De acordo com Francisco Augusto Seixas Thomé, coordenador financeiro da obra, a Torre Oscar Niemeyer tem aproximadamente 21.000 m2 e é composta por 19 andares, um pavimento de uso comum e um hall. Há também um Centro Cultural e dois andares de garagem com aproximadamente 550 vagas. Uma das características sustentáveis do edifício será o reaproveitamento da água da chuva para irrigar as plantas e fazer lavagens. Outra proposta é utilizar vidros refletivos e pintura refletiva em toda a cobertura para promover a queda da temperatura e, com isso, economizar energia elétrica, dispensando o uso de ar-condicionado. Segundo Thomé, a construção pretende atender aos quesitos da LEED certificação verde.

 

Compromisso firmado
A ECO-92 (Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento), realizada no Rio de Janeiro, é considerada um marco nos debates sobre o engajamento das instituições de ensino superior no desenvolvimento sustentável. Mas não foi nessa data que a área começou a dar atenção ao tema. A Declaração de Estocolmo (1972) foi a primeira a fazer referência à sustentabilidade no âmbito do ensino superior. A partir de então, despertou-se um interesse crescente sobre o papel das universidades para um futuro sustentável e o aumento de eventos e de declarações. Tais documentos visam não só definir uma instituição sustentável como promover a incorporação da sustentabilidade nas atividades cotidianas. Em dezembro de 2002, a Assembleia Geral das Nações Unidas anunciou a iniciativa Decade of Education for Sustainable Development, correspondente ao período 2005-2014, cujo objetivo principal é integrar os princípios, valores e práticas de desenvolvimento sustentável em todos os aspectos da educação e da aprendizagem.

 

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