Comparação com outros idiomas ajuda a entender modo como relacionamos passado e futuro em nossa gramática

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Comparação com lógica de outros idiomas ajuda a entender o modo como relacionamos passado e futuro em nossa gramática

Foto: Pixabay

Formas gramaticais e tempos verbais “bem comportados” nem sempre dão conta da realidade que pretendem descrever. É o caso da referência ao passado, na qual devemos ter em conta que passado nem sempre é aquilo que ficou para trás, pretérito, ido para fora do presente (…e do futuro). Muitas vezes, o passado projeta-se, deixa marcas no presente e, em diversos sentidos, para o bem e para o mal, como diz Gabriel Perissé, “passado é aquilo que não passou”. O bullying que a criança sofre hoje pode deixar uma marca para o resto da vida; um trauma qualquer pode custar anos de terapia.

É preciso lembrar a riqueza do sufixo tupi guera (/puera, /quera), que nos obriga a ver a presença do passado no presente: x-guera é algo que foi x, não é mais, mas preserva algo do x que um dia foi. Para ficarmos aqui com um par de exemplos, anhangá é diabo, espírito com poderes; já “anhanguera” é alguém que, sem ser (mais) diabo, preserva algo do poder que um dia teve em plenitude. Mais do que a “diabo velho” é a esse remanescente poder diabólico que se refere a lendária proeza de Bartolomeu Bueno da Silva, que pôs fogo na “água” (aguardente) para intimidar os índios.

Pukaguera é o risonho, as feições que vincam o rosto após anos de riso (puka), sorriso e bom humor, como no caso de uma Selminha Sorriso, Neguinho da Beija-Flor ou Martinho da Vila (mas não de uma Graça Foster, na qual outro guera se projeta). Um equivalente ao guera em nossa língua ajudar-nos-ia a ver o “passado presente”.

Passado no presente

No campo dos verbos, o inglês, que dispõe do present perfect, permite ver eventos passados em relação com a situação presente. A versão em português: “É Natal, o que você fez?” não tem a mesma força dos versos de Lennon em Happy Christmas (War is Over): “So this is Christmas. And what have you (/we) done?”, nos quais fica mais fácil entender que não está indagando se eu já comprei o panetone, mas a longa preparação espiritual para a paz (So this is Christmas … The road is so long).

Do mesmo modo, outras línguas, como o espanhol, trabalham mais com o passado composto do que o português. Se dizemos “O sistema Cantareira secou”, o espanhol preferiria “ha secado”, pois trata-se de um processo: meses de estiagem resultaram nesse estado presente.

Há uma desconcertante possibilidade gramatical nas línguas semitas: o uso do passado para expressar o futuro. Um uso peculiar, ligado à concepção do tempo, assim expresso por Jamil Almansur Haddad em citação feita por Aida Hanania:

“O árabe vê o passado como um bloco homogêneo. E vê o futuro como um bloco homogêneo. O Ocidente faz o contrário: faz essa atomização, essa dissecção, essa separação temporal, que inventou toda uma máquina de dividir o tempo (clepsidras, relógios e assim por diante, até chegar aos mecanismos atuais que medem centésimos de segundo). O contrário daquele complexo de infinito de árabes, de orientais, de todo o Oriente.”

Ao que Aida comenta a passagem:

“É como se, nessa visão monolítica do tempo, o presente e o futuro não tivessem autonomia em face do passado, este, sim, determinante e determinador. Essa preponderância do passado repercute na gramática”.

Passado no futuro

A repercussão na gramática é o fato de que o árabe pode valer-se do pretérito até mesmo para expressar o futuro, que aparece, assim, como mera resultante do passado. Como diz o Eclesiastes (1,9): “O que foi é o que será; o que se fez é o que se tornará a fazer: nada há de novo sob o sol!”.

Se é fenômeno normal, em tantas línguas, o emprego do presente para falar do futuro (“Vou jogar bola amanhã”) ou mesmo para o passado (“Em todo Natal, viajo”); o uso do passado para referir-se ao futuro é aparentemente descabido. E, no entanto, é assim que a gramática árabe procede.

Em muitos casos, o futuro não surge como incerto, mas apropria-se da certeza do passado. Os provérbios bíblicos “Quem semeia ventos, colhe tempestades” e “Quem dá aos pobres, empresta a Deus”, no original soam: “semeou ventos, colheu tempestades” e “deu aos pobres, emprestou a Deus”. Nessa linha, dizemos “Escreveu, não leu, o pau comeu”, “Bateu, levou” etc. (Se escrever e não ler, o pau comerá; quem bater, levará.)

Gramática

Tal fato torna-se mais evidente quando lembramos de outros exemplos de uso semelhante em nossa língua, especialmente em linguagem publicitária. Neles, o futuro e suas conexões causais aparecem como inexoráveis e imediatas, como na velha propaganda dos classificados do Estadão, hoje imitada por diversos outros veículos: “anunciou, vendeu” (quem anunciar, venderá). Ou em:
“Tomou Doril, a dor sumiu.”
“Estomazil: tomou, passou.”
“Desapegou, vendeu.”
“Achou, ganhou.” (utilizada por inúmeros produtos em promoções de prêmios).
E a consagrada:
“Sedex – mandou, chegou.”

Os agentes de publicidade usam e abusam dessa forma de passado-futuro pois transmite certeza e rapidez, o que no ramo é decisivo, pois como diz a canção da Xuxa: “E ô e ô, bobeou, dançou”.

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