Como reinventar o tempo e o espaço da escola

Mais convivência, soluções democráticas e contato com a natureza podem mudar espaços de convivência e aprendizagem

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Foto: Gustavo Morita

Uma árvore pode ser um elemento de escolarização, tal qual um quadro-negro ou uma carteira? A sala de aula pode prescindir de paredes e divisões? Algumas experiências escolares dizem que sim – e que as relações com a natureza e o aprofundamento da convivência entre os estudantes podem ser tão importantes quanto os elementos tradicionais da escola. “À luz da produção científica no campo da educação, é descabido manter a expressão ‘sala de aula’ no discurso pedagógico. Falemos, antes, de espaços de aprendizagem. De espaços de convivência reflexiva, de que as escolas carecem”, afirma o pedagogo José Pacheco, idealizador da Escola da Ponte e colunista de Educação.

A escola, criada em 1976, e localizada em Vila das Aves, Portugal, é uma das experiências mais bem-acabadas da gestão democrática escolar, em contraposição à organização tradicional da escola. Ao promover uma educação “horizontal” e com protagonismo dos alunos, a Escola da Ponte é um reflexo das ideias de Pacheco sobre a educação escolar. “Uma escola não educa para a cidadania, educa na cidadania, em espaços onde se exercite uma liberdade responsável”, diz. E completa: “Reflitamos sobre competências-chave do século 21: interagir em grupos heterogêneos da sociedade, agir com autonomia, usar ferramentas interativamente, competências que, dificilmente, o modelo de ensino convencional logra desenvolver”.

Mundo exterior

A concepção democrática da escola muitas vezes inclui a derrubada (às vezes metafórica, às vezes literal) dos muros que dividem as salas entre si e que separam a escola da comunidade ao redor. Nas palavras de Pacheco, a busca é por “recriar o espaço e o tempo de aprender”. Numa escala mais viável para o dia a dia das escolas brasileiras, o contato das turmas de estudantes com o mundo exterior pode se dar com uma aula eventual ao ar livre ou em um ambiente fora da escola. Isso inclui outro elemento em falta no ambiente escolar que, na opinião de alguns educadores, é fundamental para a escola: uma relação mais próxima
com a natureza.

“Muitas escolas têm árvores, plantas, mas elas não fazem parte da experiência das pessoas, estão lá apenas como objeto decorativo. E muitas vezes elas nem mesmo podem ser tocadas, porque as crianças podem estragá-las. Escolas de educação infantil cobrem o chão com piso emborrachado, para as crianças não correrem riscos. Mesmo em muitos parques é proibido subir nas árvores”, observa Rita Mendonça, autora do livro Atividades em áreas naturais, publicado pelo Instituto Ecofuturo. Bióloga de formação, Rita trabalha junto a professores para desenvolver projetos de educação voltados para a natureza.

Para ela, uma única árvore na escola é capaz de abrir possibilidades de ensino que os professores e diretores muitas vezes não são capazes de perceber. “Mesmo quando você leva elementos da natureza para a sala de aula, as crianças ficam ativadas com todos os sentidos”, diz. Rita afirma que diversas disciplinas podem ser trabalhadas usando a natureza – a própria matemática, lembra, é uma abstração do mundo natural. “A vida real é a vida corpórea, a vida da natureza, essa é a vida real”, aponta.

Silêncio

De acordo com Rita, as aulas na natureza tornam os alunos mais calmos, cooperativos e com reações mais espontâneas, valores que deveriam ser considerados importantes na escola. Segundo os relatos de professores com quem ela trabalhou, aqueles alunos mais agitados e irrequietos ficam mais tranquilos e participam com mais interesse de atividades que exigem concentração e silêncio. “Aquilo que a gente pensa dentro da sala é o mesmo que a gente pensa fora dela? O contato com a natureza favorece o desenvolvimento cognitivo, a criatividade e a prontidão para resposta”, diz. Mesmo para os professores, é muito exaustivo tentar manter as crianças e jovens em silêncio e concentradas por muito tempo dentro da sala de aula.

Na opinião da educadora, os espaços escolares atuais têm uma abundância grande de objetos – inclusive tecnológicos – mas não oferecem tempo e espaço adequados para os alunos. Além disso, pais e professores não estão sendo capazes de olhar para as reações das crianças e entender o que elas significam, sem uma compreensão da dimensão emocional da educação. “A gente está se colocando a serviço da tecnologia, e não a tecnologia ao nosso serviço. Isso causa um desequilíbrio”, diz. Esse desequilíbrio, segundo ela, poderia ser atenuado ao tirar as crianças do ambiente fechado da sala, mesmo que por um breve período: fazer uma aula em uma praça, por exemplo, sair para as ruas ou quebrar um pouco o concreto da escola. “A natureza não é previsível: pode passar um passarinho cantando, pode chover, pode alguém tropeçar. Trabalhar essa disponibilidade para o imprevisível é muito importante”, afirma Rita.

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