Como os sistemas de ensino trabalham as habilidades socioemocionais

A premissa de que é preciso “ir além do conteúdo” é uma tendência e está, inclusive, na BNCC; especialistas comentam o papel e as possibilidades de integração desses valores em seus produtos

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Como os sistemas de ensino trabalham as habilidades socioemocionais

Nas palavras da psicopedagoga Anita Lilian Zuppo Abed, “não há como preparar as crianças e jovens para enfrentar os desafios do século XXI sem investir no desenvolvimento de habilidades para selecionar e processar informações, tomar decisões, trabalhar em equipe, resolver problemas, lidar com as emoções”.

A conclusão integra seu trabalho O desenvolvimento das habilidades socioemocionais como caminho para a aprendizagem e o sucesso escolar de alunos da educação básica, produzido em meados de 2014 e que está disponível no portal do Ministério da Educação (MEC).

A consciência de que o mundo, a tecnologia e as instituições sofreram mudanças e que a escola deve incorporar essas transições na forma com se relaciona com alunos, professores e pais também é uma preocupação do MEC.

A nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC) encabeça essa proposta e traz boa parte de suas competências gerais com foco no desenvolvimento de habilidades socioemocionais.

A ideia é que instituições de ensino públicas e privadas tenham, até o início do ano letivo de 2020, esses valores aplicados ao seu currículo.

Para ampliar esse debate, conversamos com especialistas que atuam em sistemas de ensino para falar sobre possibilidades, desafios e sustentabilidade das escolas diante desse cenário.

SAS e a preparação para o mundo

No material didático das unidades parceiras do Sistema Ari de Sá (SAS), existe uma busca para que o estudante desenvolva certa autonomia.

“Queremos que ele seja protagonista do seu aprendizado e seu próprio destino”, explica o gerente de Consultoria Pedagógica, Alberto Serra.

Para citar um exemplo dessa natureza de interação, Serra comenta uma dinâmica que já se inicia no próprio livro didático. Antes de cada novo capítulo, o material traz um QR Code, que dá acesso a vídeos com o professor falando sobre o que ele espera daquele tema.

“A aula não começa apenas na sala de aula – a aprendizagem já se inicia em outro momento, em casa, no transporte, por exemplo, e proporciona ao aluno formas para que ele seja construtor desse conhecimento”, diz.

De acordo com Serra, hoje vivemos um panorama que, diferentemente do passado, há um grande número de vagas oferecidas no ensino superior e a sociedade que pede que a escola vá além do vestibular e dos resultados.

“O mercado e o mundo esperam desse aluno uma certa proatividade para esse aumento de possibilidades – hoje se exige muito mais que apenas conhecimento técnico para a vida profissional”, diz.

Essas e outras habilidades são aplicadas junto às escolas por meio de um contato intenso. Consultores do SAS acompanham essas unidades, conhecem cada uma das lacunas a serem preenchidas, suas necessidades e, a partir daí, desenvolvem um programa de formação aos professores e gestores, que pode ser anual ou bianual.

“Não há um pacotão fechado, pronto, e nesse contato é possível debater, por exemplo, quais os valores e competências socioemocionais devem ser preparados ou focados, de acordo com a realidade local”, complementa o gerente.

A Eleva e seu Laboratório Inteligência de Vida

Atuando em mais de 100 escolas e em um universo que ultrapassa 60 mil alunos, a Eleva Educação tem no LIV uma proposta de formalizar as atividades como valores e habilidades socioemocionais dentro do currículo.

Como explica o coordenador do LIV, Caio Lo Bianco, até essa exigência mais central promovida pela BNCC, as escolas no geral eram responsáveis pela aplicação desses conceitos na sua rotina – e, muitas vezes, essas propostas ficavam em segundo plano.

“O LIV entra na escola quase como um pilar, um espaço dedicado na grade curricular para incentivar esse aluno a pensar criticamente, com empatia, trabalhar em equipe e desenvolver a inteligência emocional”, enumera.

Dentre as metas do programa, estão: compreender e desenvolver a proatividade, a perseverança, o pensamento crítico, a comunicação, a curiosidade e a colaboração.

A Eleva constrói, em cada parceiro, a equipe mais indicada para conduzir os trabalhos no laboratório.

Para os alunos, há uma entrega moderna e instigante, que aborda os temas previstos na BNCC sob uma roupagem mais atualizada.

“O programa trabalha genuinamente com o interesse do estudante – há recursos audiovisuais que de fato chamam atenção, como uma série exclusiva que o LIV exibe um capítulo por encontro e que, além da diversão, traz muito conteúdo pedagógico”, exemplifica o coordenador.

A influenciadora digital Jout Jout, youtuber bastante popular entre a garotada, com mais de 1,4 milhão de inscritos em seu canal, também fez uma parceria com o LIV, produzindo conteúdo exclusivo para os alunos e inserindo, em sua linguagem própria, valores e habilidades socioemocionais.

O LIV já está sendo aplicado aos alunos da rede Eleva Educação (Elite Rede de Ensino, Colégio Pensi, Alfa, Coleguium e Escola Eleva), além de escolas que já contrataram o programa separadamente. “A ideia é expandir o Laboratório de Inteligência de Vida para todas as escolas interessadas em desenvolver o lado socioemocional dentro da sala, com foco no que isso pode contribuir para o aprendizado acadêmico da criança e para a formação do adulto no futuro”, finaliza Lo Bianco.

Conexia e as Big Five

A Conexia Experiências Educacionais oferece uma série de ferramentas e soluções para diversos segmentos e públicos, levando em conta a experiência de meio século de atuação do Grupo SEB, o qual é parte integrante.

Com atuação plural, que vai da gestão pedagógica, passando pelo material didático e tecnologia educacional, a Conexia foca no espaço dedicado ao desenvolvimento das competências socioemocionais na formação dos estudantes.

“No passado, era comum classificar a escola como o espaço dedicado apenas ao saber”, comenta o diretor de Desenvolvimento de Soluções, José Luiz do Carmo. “Já os valores e as habilidades socioemocionais, acreditava-se que eram de competência da família, igreja e outras instituições. No entanto, o tempo passou e o mundo mudou”, diz.

Para Carmo, os novos tempos delegaram à escola um duplo papel: além do conteúdo, o da formação dos indivíduos.

De acordo com a linha de atuação da instituição, são cinco as macrocompetências socioemocionais – as chamadas Big Five – que podem ser “aprendidas e ensinadas”: consciência, extroversão, abertura a novas experiências, amabilidade e estabilidade emocional.

O diretor também ressalta a forma como outras áreas das escolas são impactadas pelo sistema de ensino. “A Conexia precisa do professor, do aluno, dos funcionários, da comunidade, dos meios de comunicação – a formação é um dever de todos”, pontua.

Nesse sentido, a empresa de educação tem estabelecido contato íntimo e constante com as unidades parceiras e utilizado de tecnologia para fazer pontes entre esses agentes.

A implantação das soluções atende a um processo de formação continuada dos professores e equipes da unidade, sendo que esse acompanhamento é feito, também, com apoio de ferramentas tecnológicas – “tenho indicadores de uso fornecidos por cada parceiro, em tempo real”, garante.

“Como poderemos avaliar se as habilidades socioemocionais estão sendo bem aplicadas e se deram certo? Quando pudermos perceber que estamos vivendo em um mundo melhor”, conclui Carmo.

J. Piaget e os diferenciais para a vida

Aprender, desde pequeno, a lidar com as emoções e seu impacto no ensino, na organização, no foco e nas escolhas.

Esse é um dos objetivos do sistema de ensino J. Piaget com o desenvolvimento de competências socioemocionais em sua proposta.

“As habilidades socioemocionais são amplamente desenvolvidas no J. Piaget por meio de atividades intencionais no material didático, como: o debate, o jogo, a reflexão, o trabalho em grupo”, explica a coordenadora Pedagógica Editorial, Dulce Regina Felizardo.

Na prática, são atividades que colocam os alunos inseridos em situações-problemas que vão provocar, por exemplo, decisões responsáveis, éticas e solidárias.

Na visão da coordenadora, o papel dos pais é fundamental nessa parceria com as escolas – e proporciona um impacto considerável no lar.

Os trabalhos desenvolvidos em sala de aula têm reflexo em casa, “na medida que os alunos, inspirados por essas atividades, passam a dialogar mais com os pais e outros familiares, a compartilhar experiências vividas, a exercitar a paciência, a amabilidade, o autocontrole, a desenvolver a autonomia, entre outras habilidades”.

Para acompanhar essas demandas, a escola, segundo a coordenadora, atua como celeiro na formação integral do aluno e precisa incorporar em suas práticas, ações que desenvolvam essas competências. “É nesse espaço que os alunos aprendem a se relacionar entre si, a lidar com as diferenças, a trabalhar em equipe, no presente e no futuro”, comenta.

De acordo com Dulce, essa influência vai além dos bancos da escola. “Esses alunos estão melhor preparados para estar no mundo, enfrentando os desafios, compreendendo as diferenças, atuando significativamente na construção de um planeta melhor e, não menos importante, na elaboração de seu próprio projeto de vida”, ressalta a coordenadora.

Para a FTD Educação, valores devem estar no DNA

Na opinião do diretor Comercial e de Marketing da FTD Educação, Ricardo Tavares, apesar de ser uma tendência e um ponto importante a ser trabalhado nas escolas, é preciso que os valores e habilidades socioemocionais estejam no DNA da instituição.

“Mais do que apenas constar no material didático, é importante que essa relação esteja nas palestras para as famílias, na capacitação dos professores, na reflexão pedagógica e que todos os funcionários carreguem isso o tempo todo nas metodologias e discussões de trabalho”, explica.

Em um momento em que os pais representam um eixo cada vez mais importante no desenvolvimento do dia-a-dia da escola, a FTD oferece aos parceiros um braço de comunicação educacional para esse relacionamento.

“Temos a oferta da campanha de matrículas que oferece, literalmente, um caixa com materiais e ferramentas que facilitam essa comunicação com as famílias”, reforça o diretor.

Esses conteúdo inclui desde um manual de orientações, até fundamentação teórica sobre marketing, sugestões de anúncios, banners e envelopes para a interação com os pais.

Apesar de ter uma forte influência dessas competências na criação de seus conteúdos e métodos de trabalho, a FTD oferece soluções específicas como um material chamado Orientação Profissional, Empregabilidade e Empreendedorismo.

“Ele vai desenvolver sociabilização, trabalho em equipe, habilidades e competências, postura ética para ser um cidadão”, enumera.

Tavares também ressalta o papel de uma parceria com um sistema de ensino para reconhecer e evidenciar essas características da escola, destacando a instituição ante a concorrência, impactando na captação e, também, na retenção de alunos.

“Se esses valores representam um potencial da escola e se a direção acredita nisso, já é 70% do caminho – um parceiro vai ajudá-la a se organizar em cima da temática, criar um projeto de comunicação e grifar isso como sendo uma tônica do seu diferencial”, explica o diretor.

A inserção de valores e habilidades socioemocionais no currículo das escolas brasileiras, como vimos, integra desafios de ordem pedagógica, estrutural e, até mesmo, financeira – ligados à concorrência, captação e retenção de alunos.

Mas, como resume o diretor da Conexia Experiências Educacionais, José Luiz do Carmo, “desafio é a educação”.

Nessa jornada de adaptação, os sistemas de ensino funcionam como parcerias para, como afirma Ricardo Tavares, da FTD Educação, “ajudar a consolidar esse posicionamento para garantir que a escola estabeleça uma bandeira com seus diferenciais e uma entrega consolidada aos alunos, pais e comunidade”.

Regua Informe Educa 247

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