Como num conto de cordel

Folcloristas, intelectuais, professores e alunos se reúnem em evento que propõe inserção de manifestações da cultura local no currículo escolar

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Carolina Costa

Enviada a Natal (RN)*

Lampião e seu bando dançam ao som de xaxado. A princesa de Bambuluá espera que seu príncipe a conquiste. Bois coloridos enfeitam a festa do Calemba, borboletas e pastoras passeiam pelo cordão encantado. Uma reprodução de ema, com 9 metros de altura, feita em ferro e isopor, saúda os visitantes. Na mesma noite, a cidade ainda reúne dançarinos de coco de roda, bambelô, zambê, espontão, fandango, malhação de Judas, araruna e congos. Quando a voz do mamulengueiro começa a narrar o tradicional conto de cordel, as pessoas vibram na arquibancada do Ginásio de Esportes Humberto Nesi, em Natal (RN).



A platéia de quase 10 mil pessoas mantém os olhos atentos à arena: vai começar a 1ª Mostra de Cultura Popular na Educação, um encontro que reuniu, no final de novembro de 2003, antropólogos, professores, sociólogos, estudantes, folcloristas, pais de alunos e autoridades locais.



Fruto do empenho de Isaura Amélia de Sousa Rosado Maia, professora aposentada e secretária-adjunta da Secretaria Estadual do Rio Grande do Norte, a mostra reuniu cem escolas de 50 cidades do Estado. “É uma maneira de fazermos uma homenagem a Câmara Cascudo”, coloca Isaura, referindo-se ao folclorista potiguar (1898-1986), principal responsável pelo registro de contos, danças e folguedos da região.



A logística ambiciosa dá uma idéia da quantidade de pessoas envolvidas: em agosto de 2003, os educadores da rede estadual dos municípios com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) receberam um curso de formação – com o escritor Ariano Suassuna e os pesquisadores Ana Mae, Vicente Serejo e Deífilo Gurgel -, uma apostila, um livro, uma fita de vídeo e um CD. “Botamos juntos os intelectuais da universidade e os mestres da cultura popular”, lembra Isaura. Entre setembro e novembro, as escolas que manifestaram interesse em participar do projeto foram encarregadas de escolher uma entre nove manifestações folclóricas locais, mapeadas com a ajuda de Gurgel (
leia mais no quadro às págs. 40 e 41

).



Organizadores da famosa festa do Boi Garantido, de Parintins (AM), foram chamados para dirigir o espetáculo e a construção de sete bonecos articulados gigantes. Cerca de 3.300 alunos compuseram o imenso mosaico de danças e folguedos. A Secretaria Estadual se encarregou da confecção e da distribuição das fantasias, do transporte – 54 ônibus levaram os alunos de outras cidades para a capital – e de alimentação e alojamento, organizados dentro dos quartéis do exército.



Apesar de tantos profissionais envolvidos na mostra, a atração, mesmo, ficou por conta dos estudantes. “Não estamos trabalhando com artistas e sim com quem já dançava o coco, o calemba, o araruna, na família”, ressalta a secretária adjunta.



O evento contou com uma verba de R$ 557 mil, um terço oriundo do governo estadual e o restante do Ministério da Educação. A intenção da secretaria é, ao longo das próximas mostras, transformar o espetáculo em festival internacional de folclore. “Apesar da raiva de um que queria o sapato que não chegou, outro que perdeu as penas do cocar, acho que a iniciativa foi um sucesso. Em um evento com 3.300 alunos, 2.600 deles vindos de cidades do interior do estado, tem tropeço, claro”, brinca Isaura, que há quatro anos transformou o desfile paramilitar do Auto da Liberdade, em Mossoró (cidade próxima de Natal), em “festa cultural”.



Mesmo em uma região tão rica em manifestações de cultura popular, para boa parte das escolas envolvidas, folclore, antes, era festa junina. Só. “Na minha escola, a gente comemorava festa junina, Natal e Páscoa; na turma da noite, nem isso”, lembra Iara de Freitas Pinheiro, à frente do grupo de espontão da Escola Estadual Mascarenha Homem, de Natal. Professora de educação artística – no estado, ela ganha R$ 400 -, Iara e outras quatro educadoras “não tinham hora para ir embora dos ensaios”, passaram aperto para convencer primeiro alunos, depois pais e responsáveis e, por último, patrões.



“Minha turma é do noturno, dou aula para faxineiras, empregadas domésticas, balconistas. Tivemos de mandar ofícios para que cada patroa liberasse os alunos para os ensaios”, explica Iara, chateada porque ficou sabendo, às vésperas das apresentações, que uma aluna foi demitida por faltar ao trabalho. “E foram só dois dias”, completa a estudante Luciene Amorim da Silva, 18 anos. A jovem, que entrou no grupo de espontão por curiosidade, disse que perder o emprego de telemarketing “não foi nada” e que “agora dança porque gosta”. “Faria de novo”, garante.



Algumas escolas tiveram como principal dificuldade a distância de Natal. É o caso de Alexandria, que fica a 380 km da capital. “Viajamos sete horas até aqui”, conta Arcanja Gadelha, 17 anos, da Escola Estadual Sete de Setembro. Ela e outros 26 alunos da professora Edna Maria dos Santos explicam que foram a Natal na tentativa de representar sua cidade.



Mas os percalços não pararam por aí. Durante o último ensaio para a apresentação, um fato curioso deixou em polvorosa as professoras de um grupo de cabocolinho de Natal. É que os estudantes iam para o estádio carregando as fantasias, que incluíam arco e flecha. Parados por um policial civil, os alunos tiveram suas armas de brinquedo apreendidas. O mal-entendido só foi desfeito quando uma das professoras, preocupada com a fantasia incompleta, interveio.



Além das escolas, que garantiram o público nos três dias de evento, representantes de grupos autênticos também estavam presentes. É o caso de Manoel Marinheiro, 72. Marinheiro começou a dançar aos 10 anos. Aprendeu com o pai, que aprendeu com o avô, que por sua vez aprendeu com o bisavô. Ele acredita que essa maneira de passar a cultura popular foi o que garantiu que ela se mantivesse viva até hoje. “Deixei tudo para não abandonar aquilo que meu pai deu para mim”, conta ele, que não teve tempo de estudar porque trabalhou como empregado dos 5 aos 15 anos, na casa do pai de criação.



Marinheiro levou um tombo e não sabe se poderá dançar novamente. Está há seis meses em uma cadeira de rodas que lhe custou R$ 475, muito mais do que ganha com as esparsas apresentações do grupo. “Nós não vamos agüentar fazer tudo por nossas custas. Está tudo parado, aqui é o maior ‘paradeiro’ do mundo, tá tudo desempregado”, lamenta ele, que tem de sustentar sua mulher e seus três filhos com os R$ 180 que ganha de aposentadoria. Marinheiro faz fé que a iniciativa da Secretaria Estadual seja capaz de valorizar a cultura local e inserir a semente nas escolas. “Eu não quero isso aqui só para mim. Quero ir embora e dizerem: ‘Isso aqui foi do Mestre Manoel Marinheiro’.”





Os Grupos tradicionais





Araruna –





Desde 1956, esse grupo é organizado na Sociedade Araruna de Danças Antigas e Semidesaparecidas, com sede em Natal e estatuto próprio. Oito a dez pares se apresentam, executando danças aristocráticas, como valsa e polca, e ritmos folclóricos. Os homens usam cartola e casaca e as mulheres, vestidos com saias rodadas.






Boi-calemba –








Versão potiguar do bumba-meu-boi. Os figurantes são divididos entre “enfeitados”, que cantam louvações e saudações, e “mascarados”, que representam o lado cômico do espetáculo. Os grupos tradicionais do Estado são o de Dedé Veríssimo, em São Gonçalo, Manoel Marinheiro, em Natal, e da comunidade de Bocas, Pedro Velho.





Cabocolinho –








Esse auto é realizado por dois grupos de dançarinos, vestidos com túnica, calça, tanga, cocar, arco e flecha. Entre as fileiras de cabocolinhos apresentam-se figuras centrais, como “presidente”, “matroá”, “porta-bandeira”. Os dois principais grupos são de Ceará-Mirim.





Fandango –





Ao contrário de seu homônimo no Sul do país, o fandango nordestino é um auto popular e não uma dança. É inspirado nas grandes aventuras marítimas dos portugueses. O grupo é formado por aproximadamente 40 marujos, entre oficiais e marinheiros. Os municípios de Canguaretama e Senador Georgino Avelino têm grupos tradicionais.






Pastoril –








Ainda conserva um pouco do espírito religioso que o originou. Esse auto é apresentado por dois cordões de pastoras, azul e vermelho. Entre eles dançam a “Diana”, mediadora das rivalidades, o “velho”, que transformou o pastoril religioso em folguedo profano, o “pastorzinho” e a “borboleta”. Há pastoris em Natal e São João.





Espontão –





Ainda existem, em Caicó, Jardim de Seridó e Parelhas, grupos tradicionais de Espontão. Dançado originalmente por negros durante a festa de Nossa Senhora do Rosário, padroeira da região de Seridó, o Espontão simula um bailado guerreiro com movimentos de ataque e defesa.
(CC)







Fonte: Deífilo Gurgel,
Danças Folclóricas do Rio Grande do Norte

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