Como identificar, compreender e lidar com sentimentos despertados na criança

A neurociência começa a comprovar o efeito dos estados emocionais para o processo de aprendizagem; saiba como lidar com esses sentimentos na escola

Compartilhe
, / 3104 0

Indisciplina, raiva manifesta em agressividade, desatenção. O emaranhado de comportamentos advindos da subjetividade dos alunos tem efeito bumerangue: provocam outras emoções no professor e podem desencadear frustração, perda de ânimo, impotência. Como um dos lugares privilegiados para as interações presenciais na contemporaneidade, a escola é o ambiente perfeito para o engatilhamento de processos emocionais. O que não se sabia, até agora, é o quanto essas emoções influenciam no aprendizado, seja de forma negativa, ou positiva.

A neurociência tem trazido informações importantes para entendermos a relação entre comportamento e função cerebral. Sabe-se hoje que perturbações que envolvem a sensorialidade, a percepção, o aprendizado, e a capacidade de lidar com problemas estão muitas vezes associadas às deficiências do relacionamento interpessoal, insegurança e baixa autoestima.

O roteiro abaixo mostra como identificar, compreender e lidar com sentimentos despertados na criança, como raiva, carência, desinteresse, ansiedade e tristeza. Aqui colocamos algumas emoções e/ou sentimentos de forma separada. Mas é importante ter em mente que todas se relacionam de forma dinâmica. “Essa é uma pequena mostra de como é possível compreender e manejar a delicada linguagem dos sentimentos e emoções nas relações que se estabelecem na escola”, aponta a neuropsicóloga Adriana Fóz, que ofereceu as informações para este roteiro.

Os desenhos publicados fazem parte do trabalho que a professora Tatiana Luiza da Silva Lima desenvolveu com seus alunos de segundo ano do ensino fundamental na Escola Villare (SP), em 2014, quando ela pediu que as crianças criassem suas definições para alguns sentimentos.

+ Saiba mais na matéria “No limite”

 Sentimento/emoção: RAIVA

Como identificar:
A agressividade (com o professor e/ou os colegas) é uma expressão bastante evidente da raiva, mas não é a única. Um aluno que demonstra um comportamento muito omisso e indiferente pode estar interiorizando o sentimento de raiva – e será apenas uma questão de tempo até expressá-la agressivamente. Vale lembrar ainda que a raiva está, muitas vezes, associada à frustração.

Atuação reativa:
Com baixo grau de consciência e de distanciamento: agir de forma igualmente agressiva com o aluno, expulsá-lo da sala de forma agressiva, punir o aluno através de castigos.

Resultado provável:
Aumento da insatisfação do aluno, diminuição do vínculo entre aluno e professor, incremento da raiva e da agressividade.


Sugestão de manejo:
Ao perceber a expressão da raiva, é fundamental que o professor não entre na mesma vibração do aluno. Este distanciamento será muito importante para que o educador escolha qual o melhor direcionamento para a situação. “Quando a raiva explode todos nós necessitamos de um pouco de ar. Inclusive os alunos”, pontua Adriana Foz. Algumas sugestões de manejo neste sentido vão desde pedir cuidadosamente para que o aluno se retire para respirar e acalmar-se, até oferecer a oportunidade para que fique quieto em seu lugar ainda em sala de aula. O importante é que exista um tempo para que as emoções se reequilibrem. Apenas após este período o professor pode buscar um novo contato com o aluno para tentar compreender melhor o que houve, abrindo o canal de conversa e diá­logo. Este canal também pode ser aberto com cuidado, de forma preventiva, quando se percebe que o aluno pode estar com a raiva mais interiorizada. Este diálogo pode trazer à tona a identificação da emoção e a busca por estratégias para que o equilíbrio das relações seja preservado.

Resultado provável:
Aumento do nível de confiança entre professor e aluno, fortalecimento do vínculo e maior possibilidade de colaboração em sala de aula.

 Sentimento/emoção: CARÊNCIA AFETIVA

Como identificar:
Em geral, a carência afetiva  é demonstrada de duas formas: tentando chamar a atenção do professor (inclusive dificultando a aula) ou agindo de forma distanciada, envolvendo-se cada vez menos nas atividades e nos relacionamentos pessoais.

Atuação reativa:
Agir de maneira agressiva com os que tentam chamar a atenção, ou ignorar a situação, dissociando o estado emocional do aluno da aprendizagem. Há ainda o risco de o professor envolver-se emocionalmente de forma nebulosa, tentando aplacar as carências e confundindo o seu papel com o de pai ou mãe.

Resultado provável:
Continuidade dos comportamentos gerados pela carência, tendência de o aluno ter cada vez mais dificuldades no processo de aprendizagem. Para o caso de uma aproximação com nebulosidade de papéis, corre-se o risco de que sejam criados vínculos afetivos pouco saudáveis, com cobranças emocionais e outras dificuldades que tendem a atrapalhar os processos em sala de aula.


Sugestão de manejo:
Observar o aluno e entender onde estão os seus pontos fortes para ressaltá-los sempre que tiver a oportunidade. Este caminho é indicado basicamente porque, em geral, carência afetiva e baixa autoestima estão fortemente associadas. Todas as ações de fortalecimento da autoestima da criança ou jovem devem ser priorizadas, de modo a fazê-lo perceber o valor de suas ideias, resultados, comportamentos, etc.

Resultado provável:
Fortalecimento da autoestima, com o incremento do sentimento de segurança e a diminuição da carência. Maior autonomia afetiva. Fortalecimento do vínculo com o professor e os colegas. Aumento do interesse nas atividades.

 Sentimento/emoção: DESINTERESSE

Como identificar:
O aluno não demonstra motivação para as atividades em sala de aula, deixa de realizar tarefas, presta pouca atenção às explicações e tem baixa participação em sala de aula. Vale lembrar que este desinteresse pode estar associado a outras emoções e sentimentos, como a raiva, a carência e a tristeza.

Atuação reativa:
Demonstrar irritação em relação ao desinteresse do aluno, acusá-lo por seu comportamento. Ignorar as demonstrações de desinteresse.

Resultado provável:
Maior afastamento do aluno, diminuição do vínculo entre aluno e professor, incremento do desinteresse pelos conteúdos e atividades.



Sugestão de manejo

A principal questão diante do desinteresse – que tende a gerar no professor sentimentos como frustração e raiva – é realizar o manejo das próprias emoções. Neste momento é necessário que o educador se posicione de maneira a observar suas práticas, compreendendo que uma possível mudança de percursos é algo natural. Uma ferramenta interessante de manejo para situações em que o desinteresse se instale são as rodas de conversas – em alguns contextos escolares chamadas de assembleias. O educador pode buscar informações sobre como realizar esse processo, que se baseia na possibilidade de criar momentos em que os alunos possam ser escutados sem medo de repreensão e nos quais expressem possíveis descontentamentos com a forma como as aulas são conduzidas – e, até, outros sentimentos e emoções capazes de gerar o desinteresse, como a tristeza ou a raiva internalizada (isto porque nem sempre é o método de aula, mas as questões internas dos alunos as causadoras do desinteresse). A partir destas informações o professor poderá ter um quadro mais claro e criar estratégias para aumentar a motivação da turma como um todo e também de alunos que tenham uma atitude mais desinteressada. Ressalte-se que as rodas de conversa não são rodas terapêuticas.

 Sentimento/emoção: ANSIEDADE EXCESSIVA

Como identificar:
A ansiedade em excesso pode ser percebida principalmente a partir de reações físicas: o aluno tende a mexer-se bastante na cadeira, balançar as pernas insistentemente, morder os lábios, roer as unhas. “Na ansiedade a sensação é de que não cabemos em nosso corpo, por isso externalizamos esses sinais”, aponta Adriana Fóz. Outro sinal apontado pela especialista é a fala exagerada e a dificuldade de percepção do outro em momentos de fala coletiva – quando se percebe que o aluno interrompe constantemente os colegas em uma conversa, por exemplo.

Atuação reativa:
Criticar abertamente o aluno por seu comportamento exigindo que pare com seus gestos, agir de maneira agressiva ou constranger o aluno na frente dos colegas.

Provável resultado:
Aumento da ansiedade do aluno, diminuição da atenção e do foco, maiores dificuldades da aprendizagem, geração de outras emoções/sentimentos em seu aspecto negativo, como raiva e frustração.


Sugestão de manejo:
Diante de um aluno com ansiedade excessiva o educador deve buscar caminhos capazes de gerar calma e centramento. E aí vale desde pedir para que este aluno respire calmamente até sugerir que saia de sala para tomar uma água, lave o rosto, tranquilize-se. Quando se percebe que a ansiedade está muito presente em uma turma, a sugestão é privilegiar atividades coletivas que exijam a atenção focada, também chamada de atenção plena. Em uma turma de crianças é possível criar brincadeiras em que os alunos precisem imitar o professor em um jogo de ritmo marcado com os pés e as mãos, por exemplo. Outras técnicas de atenção focada voltadas a crianças e jovens podem ser pesquisadas – muitas delas se baseiam em exercícios físicos e de respiração.

 Sentimento/emoção: TRISTEZA

Como identificar:
A tristeza não é um sentimento fácil de ser identificado e pode ser o gerador de reações que vão desde a desmotivação, a apatia e o desinteresse até a própria agressividade. A melhor forma de identificar a tristeza é, ao perceber um comportamento de distanciamento ou agitação, tentar buscar o diálogo com o aluno para que este verbalize o que está sentindo.

Atuação reativa:
Ignorar os sinais de tristeza do aluno, exigir verbalmente que o aluno aja de forma menos apática e motivada.

Provável resultado:
Aumento do sentimento de tristeza do aluno, com a repetição dos comportamentos a ele associados, diminuição do vínculo entre aluno e professor.


Sugestão de manejo:
A tristeza é um sentimento que pode prejudicar consideravelmente a aprendizagem. Por isso, quando consegue identificá-la, o professor precisa tentar conhecer ao máximo o que a está causando no aluno e ajudá-lo, dentro de sua atuação como educador, a elaborá-la e expressá-la. Além da verbalização, outros canais podem ser a expressão artística (aproveitar a tristeza causada por uma rejeição amorosa de um aluno  para trazer conteúdos ligados a este sentimento em aulas como português ou história) ou dar vias de expressão artística . Mesmo em matérias como matemática ou ciências é possível buscar janelas onde a tristeza possa ser colocada em contexto – por exemplo, trazendo à turma a biografia de gênios dessas áreas.

Provável resultado:
Ao perceber no professor uma figura capaz de auxiliá-lo em seu momento de tristeza, a tendência é o amadurecimento de sentimentos positivos em relação ao educador, como confiança e  respeito. Ao identificar e expressar sua tristeza, o aluno ainda estará trabalhando o seu próprio amadurecimento emocional, o que tende a facilitar todas as suas ações futuras, dentro e fora da escola.

Veja projetos criados por professores para lidar com as emoções de seus alunos em sala de aula:

Conhecendo as emoções de um jeito
Tatiana Luiza da Silva Lima, atualmente professora do primeiro ano na Escola Villare, em São Caetano do Sul, dava aula para o segundo ano em 2014 quando decidiu tornar mais visível a relação de seus pequenos alunos com suas próprias emoções. A educadora começou a reparar nas assembleias (rodas de conversa onde todos podem se expressar e que conta com a mediação do professor) que muitas vezes as crianças sentiam dificuldades para nomear o que sentiam. “Com esta questão em mente, me lembrei do projeto ‘A casa das estrelas – o universo contado pelas crianças’ em que o professor colombiano Javier Naranjo apresenta as definições que seus alunos do curso primário (entre 3 e 10 anos) davam para palavras, objetos, pessoas e, principalmente sentimentos, em suas aulas de espanhol – e que ele reuniu ao longo de dez anos”, conta.

A partir desta inspiração, Tatiana pediu para que as crianças criassem suas definições para sentimentos e emoções como raiva, ciúmes e frustração, de uma forma bastante livre. “O resultado é altamente revelador de como estão sendo construídas as percepções destas crianças sobre quem elas são e qual o papel das emoções em suas vidas. Esta conscientização é muito importante e, eu acredito, pode até prevenir dificuldades escolares futuras”, aponta Tatiana.
Dentre as definições criadas pelos pequenos estão: “Ciúmes: é como ter duas melhores amigas e as duas ficam (juntas) sem você” ou “frustração para mim é ficar bravo e irritado quando alguma coisa não dá certo”. “Com o tempo, identificar as emoções e sentimentos pode tornar-se uma prática cada vez mais comum para essas crianças, promovendo maior autonomia e a possibilidade para que ela encontre, junto com o seu grupo, as melhores estratégias para favorecer as relações saudáveis e um estado emocional que não dificulte a aprendizagem”, finaliza Tatiana.

 

Acolhimento, escuta e conhecimento
Mônica Santos de Oliveira Moreira, professora do segundo e do terceiro ano na Escola Municipal Paulo Autran, em Guarulhos (SP), acredita que o primeiro passo para manejar as emoções em sala de aula é a escuta. “É imprescindível que estejamos atentos para perceber e também para acolher as demandas emocionais que possam surgir por parte dos alunos”, aponta a educadora.

Um exemplo dado pela professora traz uma pequena aluna que começou a todos os dias, no início das aulas, contar para a professora sobre o processo de um tio que estava preso. “Eu sentia que para ela era importante eu falar, então eu escutava com toda a atenção. Com o tempo eu pude perceber que a maior preocupação desta aluna era com a mãe, que estava sofrendo com a situação.
“Eu sei que não vou tratar esta criança – mesmo eu tendo formação e experiência como psicóloga. Mas esta escuta e acolhimento muitas vezes são suficientes para que o aluno se tranquilize e consiga estar presente para as atividades em sala de aula”, completa Mônica.

A professora aponta a formação oferecida pelo Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa como um divisor de águas em sua própria capacitação para lidar com as emoções dos alunos. “Eu abri minha cabeça e passei a aceitar, por exemplo, que quando você abre rodas de conversas ou cria situações para os alunos se expressarem, essas situações podem ser mesmo barulhentas e até caóticas. É normal que seja assim, desde que seja também produtivo”, aponta a educadora.

Mônica aponta a frustração como o sentimento negativo mais presente em seu trabalho. “Acho que nós também precisamos amadurecer emocionalmente para aceitar que, muitas vezes, mesmo que estejamos dando o nosso melhor, ele não será suficiente”, enfatiza. “Também é muito frustrante você encaminhar um aluno que necessita de ajuda externa à escola e perceber que, por uma questão de dificuldade de acesso ou de descaso da família, a criança não recebe o tratamento que seria adequado”, conta. “A paciência é um dos atributos mais importantes a serem desenvolvidos, eu acho. Em alguns processos, eu sei que estou plantando uma semente que irá se desenvolver apenas nos anos seguintes. Mas sinto que plantar essa semente é minha responsabilidade, de qualquer forma”, finaliza Mônica.

Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN