Com os dias contados

Se continuar neste ritmo, desmatamento pode acabar com metade da Amazônia entre 50 e 100 anos

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Cristina Charão, Flávio Amaral e Lígia Ligabue*


Há duas maneiras de se olhar para o mapa da Amazônia brasileira. A primeira, com as lentes do urgente crescimento econômico do país. E aí se verá na extensa área uma fonte de riqueza imediata. Embora responsável por apenas 7% do PIB nacional, a região amazônica produz hoje alguns dos mais importantes itens da pauta de exportação brasileira: soja, carne e minérios. A segunda maneira é sob a ótica do desenvolvimento progressivo e sustentável. Com o foco posto mais adiante, a Amazônia promete ganhos ainda maiores. Segundo Carlos Nobre, coordenador do Experimento em Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA, na sigla em inglês), em cem anos a região pode ser responsável por 30% a 40% do PIB brasileiro. O problema é que, como afirmam muitos pesquisadores e ambientalistas, a Amazônia pode não sobreviver até lá.





Se for mantido o atual ritmo de desmatamento, mais da metade da maior floresta tropical do mundo deixaria de existir em um período que pode variar entre 50 e 100 anos, segundo pesquisadores que participam do LBA. A partir de simulações virtuais desenvolvidas em computadores, eles traçaram diferentes cenários para o futuro. No mais pessimista, que prevê a manutenção do atual nível de desmatamento, 60% da Floresta Amazônica deixaria de existir. No lugar, surgiriam grandes savanas, com vegetação semelhante a que é encontrada no cerrado. Os outros cenários traçados pelos cientistas são menos drásticos. A transformação da floresta em savana poderia ser até nula se ações contra o desmatamento fossem tomadas desde já. Mas, por enquanto, a perspectiva não é otimista.





Somente no período de agosto de 2002 a julho de 2003, mais de 23 mil km2 de floresta foram desmatados. É uma área um pouco maior que o território ocupado por Sergipe. Desde que começou a ser explorada, a Amazônia já perdeu cerca de 15% de suas árvores. É como se a área de dois países com a dimensão da Itália tivesse deixado de ter sua cobertura vegetal original. A situação fica ainda mais grave quando se verifica o crescimento dos índices de desmatamento nos últimos 25 anos. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre 1977 e 1988, pouco mais de 21 mil km2 da floresta foram desmatados. Nos dez anos seguintes, a área destruída foi de quase 150 mil km2. Já nos últimos cinco anos, a área ocupada por floresta perdeu mais de 100 mil km2.



Boa parte do potencial econômico da região é desperdiçado. Junto com as árvores, tombam espécies de animais, microrganismos e plantas, alguns extintos antes de serem conhecidos. Perde-se uma riqueza de biodiversidade inestimável. Novos remédios para combater doenças são destruídos sem serem descobertos. Tudo isso tem um valor incalculável e o grande problema enfrentado por pesquisadores e ambientalistas é ter de entrar na guerra pela Amazônia com balas de faz-de-conta, contrapor um valor que ainda não existe contra milhões de dólares bastante reais. “Os minérios, as madeiras, os bois e a soja possuem valor financeiro imediato, e a política econômica exige respostas imediatas, pois o Brasil é grande devedor e não possui poupança interna para custear seu próprio desenvolvimento”, afirma Charles Clement , do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) (
leia entrevista na pág. 40

).




De fato, a receita gerada por atividades extrativistas não destrutivas na Amazônia hoje não se aproxima do que é arrecadado pela produção de soja ou pelo comércio de madeira. Em 2003, a soja movimentou US$ 2,8 bilhões na Amazônia Legal, segundo as estimativas de Emeleocípio Botelho de Andrade, da Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (Embrapa). A exploração da madeira gera US$ 2,5 bilhões por ano (aproximadamente R$ 7 bilhões), pelos cálculos do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Já a castanha-do-pará, produzida exclusivamente na Amazônia e exportada para o mundo inteiro, rende apenas US$ 33 milhões, ou R$ 92,4 milhões.




A contradição amazônica é que as maiores responsáveis pelo desmatamento são exatamente as atividades mais lucrativas hoje. Segundo especialistas, uma das principais ameaças à preservação da Amazônia é a soja. Em 2003, foram colhidas mais de 14 mil toneladas de soja na Amazônia Legal, que abrange toda a extensão florestal e áreas limítrofes. Segundo Andrade, a plantação de soja em áreas de floresta ainda é pequena: “91% da produção amazônica saiu de áreas de cerrado do Mato Grosso, mas o que preocupa é que a produção em áreas de floresta triplicou em 2004.”




Algumas das principais empresas do ramo plantam na região e já constroem portos para escoar a produção. “Um grupo de empresários paulistas plantou 6 mil hectares de soja no ano passado e este ano vai plantar 15 mil”, afirma o pesquisador. O grupo construiu na região uma usina de calcário, usado para reduzir a acidez de solo.




A expansão do plantio da soja e outros grãos, no entanto, pode prejudicar outras áreas hoje produtoras. Pesquisas divulgadas durante a Conferência do LBA, realizada no fim de julho, indicam que o desmatamento da Amazônia pode afetar o clima em várias regiões do Brasil e em países distantes. As nuvens de fumaça geradas pelas queimadas podem diminuir o nível de chuvas sobre a própria floresta e sobre as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país. O desmatamento na região prejudicaria até a produção de soja nos EUA.




Em carne viva – Se a soja preocupa no futuro, a destruição da floresta para que as terras sejam usadas pela pecuária é uma realidade. No início deste ano, o Banco Mundial publicou o estudo Causas do Desmatamento da Amazônia Brasileira, que afirma que a transformação da floresta em pastos seria responsável por 75% do desmatamento. Segundo estudo do Centro Internacional de Pesquisas Florestais (Cifor), o número de cabeças de gado na Amazônia mais que dobrou desde 1990. Em 2002, chegou a 57 milhões. Três estados da região – Pará, Mato Grosso e Rondônia – contribuíram para o crescimento de 100% do rebanho nacional e o aumento de cerca de 160% das exportações de carne brasileira no período de 1999 a 2002.




O crescimento da pecuária é o principal fator de destruição da floresta, mas ainda está concentrado em poucas regiões. Já a exploração ilegal de madeira, muitas vezes considerada a principal vilã da Amazônia, atinge um número maior de localidades. Segundo o Greenpeace, dos 36 pontos críticos de desmatamento, 26 estão relacionados à indústria madeireira.




Marco Lentini, pesquisador de economia florestal do Imazon, cita dados do Ibama que indicam que só 53% da produção amazônica é legal. Desse percentual, 20% vem de desmatamentos autorizados pelo órgão federal e o restante é originário de áreas onde ocorre o manejo florestal, uma técnica que prevê a colheita de árvores maiores, preservando as menores para que sejam utilizadas no futuro.




O manejo florestal deveria ser uma garantia que a exploração da madeira não traria grandes conseqüências para o equilíbrio do ecossistema florestal. Mas, segundo o Greenpeace, mesmo esse tipo de extração é altamente destrutiva devido ao uso de tecnologias obsoletas. Pior ainda é o desperdício da madeira e de oportunidades. Apenas um terço das toras extraídas é transformado em produto final. E segundo Lentini, “se aumentássemos as exportações e vendêssemos móveis prontos em vez de madeira serrada, o produto seria valorizado, aumentaria a arrecadação e geraria mais empregos”.




A industrialização é a sugestão de Antônio Nobre, pesquisador do Inpa, para garantir o desenvolvimento com preservação ambiental. “Ela agrega valor e gera empregos, ao contrário do investimento em agricultura.” O exemplo citado por Nobre é a Zona Franca de Manaus, responsável pelo maior volume do PIB amazônico e não destrói as florestas em volta.




No entanto, para vários pesquisadores, a salvação para a Amazônia é o desenvolvimento da região, com o investimento em atividades sustentáveis. O crescimento dessas atividades e a conseqüente geração e distribuição de renda desestimulariam as atividades predatórias. Aparentemente, não são esses os planos do governo federal para a região amazônica.




“Nossa visão é que a Amazônia não é um problema para o Brasil, e sim a solução, tanto para geração de emprego, geração de renda ou equilíbrio na balança comercial”, afirma Djalma Mello, diretor da Agência de Desenvolvimento da Amazônia (ADA). “Temos aqui as maiores reservas mundiais em energia, água doce e minério, basta que esse potencial seja explorado economicamente, sem danificar o ambiente”, completa. O diretor da ADA afirma que “o Ministério da Integração Nacional quer desenvolver sustentavelmente a região, com inclusão e preservação social”. No entanto, questionado sobre as principais atividades financiadas pela agência, Mello citou a indústria da soja, a agropecuária e a mineração.




As contradições externas também se refletem dentro do governo. Jorg Zimmermann, secretário de Coordenação da Amazônia do Ministério do Meio Ambiente, olha para a região com olhos no futuro. “Se pensarmos a médio e longo prazo, não plantaríamos soja”, afirma Zimmermann. “Ela dá lucro imediato, mas em dez anos não dá mais para plantar.” O secretário acredita que é preciso casar desenvolvimento com meio ambiente, mas admite que, atualmente, “as forças econômicas não estão favorecendo o meio ambiente”.




“Os principais investidores são empresas responsáveis por megaprojetos, que visam beneficiar o mundo externo, não a Amazônia”, afirma o jornalista Roberto Smeraldi, diretor da ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira. “Empresas das áreas de mineração, energia e agricultura quando muito desenvolvem técnicas para diminuir os impactos, nenhuma faz avaliações ambientais estratégicas”, completa, antes de lembrar que boa parte desses projetos são financiados com verbas provenientes de instituições públicas. A Amigos da Terra também acredita que o desenvolvimento pode ajudar a preservar a Amazônia. Tanto que criou o projeto
Eco-Finanças

, cujo objetivo é “assegurar que investimentos de instituições financeiras privadas eliminem o impacto adverso sobre os recursos naturais, estimulem o desenvolvimento sustentável e incorporem as comunidades locais no âmbito de seus projetos”.




Em mais uma fatídica contradição, o aquecimento da economia regional, seja ele criado por atividades sustentáveis ou convencionais, exige obras de infra-estrutura. A construção de usinas hidrelétricas na Amazônia resultaria na submersão de grandes extensões de floresta. Só a Usina de Tucuruí inundou quase 3 mil km2 de mata. Já a abertura de estradas facilita tanto o escoamento da produção sustentável quanto das atividades predatórias. Um levantamento feito pelo Inpa estima que a abertura de uma única estrada na Amazônia desmata uma faixa que se estende de 50 km a até 200 km mata adentro, em ambos os lados da rodovia.




Charles Clement só consegue vislumbrar uma saída para que a Amazônia não desapareça: “O Brasil teria que investir pesado em ciência e tecnologia e em pesquisa e desenvolvimento em busca de alternativas que mantenham a floresta em pé e tenham viabilidade econômica.” Hoje, a Amazônia recebe apenas 2% dos investimentos nacionais em ciência. De cada cinco artigos científicos sobre a região, quatro são feitos por pesquisadores estrangeiros. Os institutos de pesquisa voltados para a região, como o Inpa, do Amazonas e o Museu Emilio Goeldi, do Pará, atravessam constantes crises de recursos. Mas, no último mês de julho, durante a Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em Cuiabá (MT), o ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos (por sinal, ex-governador do Amazonas), anunciou investimentos de R$ 37,6 bilhões em política científica até 2007, sendo que uma das prioridades será o estudo dos biomas brasileiros, incluindo a Amazônia. Resta conferir se a promessa será cumprida.



*Da Agência Repórter Social



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