Com a bola toda

À frente da Fundação Gol de Letra, ex-craque do futebol investe, junto com o sócio e jogador Leonardo, US$ 1 milhão em educação

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Faoze Chibli

“Olha lá! Olha o Raí!”, anuncia um garoto que joga futebol em uma das quadras. Os mais velhos param e olham admirados, conferindo se aquela figura alta é mesmo o ídolo de anos passados. Os mais novos parecem menos deslumbrados, mas também ficam cheios de respeito. Eles conhecem outro Raí. Não o virtuoso com a bola, detentor de diversos títulos, entre eles o de tetracampeão do mundo pela seleção brasileira. Eles conhecem o Raí da Fundação Gol de Letra, na cidade de São Paulo (SP). Realidade há cinco anos, a fundação é o sonho concretizado de Raí Souza Vieira de Oliveira, nascido em Ribeirão Preto (SP).



Atualmente, a Gol de Letra tem programas de arte-educação, leitura, escrita e educação física com 540 crianças de 6 a 14 anos. Além disso, 200 jovens participam do
Programa de Formação de Agentes Comunitários

, que desenvolve a cidadania e incentiva a atuação na comunidade local. Muitas famílias buscam a fundação com esperanças de tornar o filho um jogador famoso. Mas elas encontram muito mais do que essa perspectiva. Na verdade, o futebol é coadjuvante em um programa amplo de educação.




Em 1990, no São Paulo Futebol Clube, os companheiros de time e amigos, Raí e Leonardo, tinham por hábito discutir os problemas do país. Em 1997, na França, decidiram passar do campo teórico ao prático. Os craques começaram a cogitar uma participação efetiva na sociedade. “A única saída do Brasil é investir em educação”, profere Raí. Hoje, o esportista se divide entre a Gol de Letra e uma empresa criada por ele para cuidar de sua publicidade e desenvolver projetos. Raí afirma que o ponto de partida da fundação foi imaginar o que ele e Leonardo gostariam que seus próprios filhos tivessem acesso.




O objetivo inicial era ajudar e complementar a atuação da escola. “Começamos trabalhando com as limitações de escolas em regiões desfavorecidas. Aos poucos, fomos percebendo que o trabalho era tão rico que serviria de modelo para qualquer tipo de escola”, relata o jogador. Desde o início, porém, havia o desejo de se tornar modelo e referência. Quando se escuta Raí falar de educação, percebe-se, além de sua tranqüilidade habitual, a desenvoltura de quem sabe o que está dizendo.




Pesquisar, explica o paulista de 39 anos, despertou paixão pela pedagogia, pelo construtivismo e por Paulo Freire. “Uma das primeiras coisas que aprendi é que, em um ambiente educativo, todo mundo é educador”, considera. Em 2001, Raí e Leonardo foram eleitos
Educadores do Ano

pela Academia Brasileira de Educação, prêmio pela primeira vez concedido a esportistas.




Raí começou a faculdade de história em Ribeirão Preto e foi para o time do São Paulo antes de terminar o curso. O pai do craque é seu “grande inspirador pessoal”, veio de origem pobre, era autodidata e fez sua primeira faculdade depois de casado. Outra influência importante apontada por Raí é Sócrates, irmão 11 anos mais velho e que teve uma infância precária – quando Raí nasceu, o pai era funcionário público na cidade de São Paulo e já gozava de um pouco mais de estabilidade. Sócrates enxergava a manipulação da ditadura sobre o futebol e isso “fez aflorar ainda mais essa visão crítica”, pondera Raí. Mas não foram apenas o interesse por educação e a visão crítica que trouxeram sucesso ao projeto social.




Apesar de se considerar uma pessoa de “muito coração e pouco prática”, o que transparece no afeto com que trata e é tratado dentro da Gol de Letra, houve muita habilidade para alinhavar diversas parcerias públicas, privadas e com o terceiro setor. Raí investiu com Leonardo mais de US$ 1 milhão na empreitada. Hoje, o projeto caminha firmemente. Só para citar um exemplo, Raí se orgulha das parcerias, como a firmada com a Unimed, que garantem benefícios às crianças: elas são as titulares dos planos de saúde, e as famílias é que são dependentes. A Gol de Letra tem, ainda, um braço para captação de recursos na França e uma nova unidade em Niterói (RJ). “Tenho boas sacadas”, é o máximo de crédito que Raí se permite.


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