Colégio eleitoral

Na Europa e nos Estados Unidos, propostas para área de educação terão papel decisivo nas eleições

Compartilhe
, / 930 0



 





Alceu Luís Castilho e Fábio de Castro*




 

O que pode definir a eleição de políticos como George W. Bush, Tony Blair, Jacques Chirac ou Silvio Berlusconi – ou por eles apoiados? Somente a guerra no Iraque? Os índices de desemprego? Fatos recentes na Europa e nos Estados Unidos mostram que ações concretas em educação – ou discursos coesos sobre o tema – terão um peso considerável nos próximos pleitos.



Para analistas, há uma diferença grande entre a situação no Primeiro Mundo e a repercussão da educação entre os eleitores brasileiros. “Mas que cada vez mais a educação tem estado no discurso dos governantes, está”, analisa o cientista político Rui Tavares Maluf, especialista em eleições. Ele lembra que, no caso da França, as posições sobre educação são decisivas. “Toda e qualquer tentativa de reforma universitária na Franca gera chiadeira que não é fácil”, analisa.


Maluf faz questão de diferenciar medidas como a de Chirac sobre os símbolos religiosos, que seriam coerentes com uma tradição republicana consistente na França, com ações como a de Berlusconi ou Bush. “As escolas públicas americanas vêm reduzindo o espaço de interação étnica – negros e latinos ficam mais sozinhos e a qualidade do ensino vai se perdendo.” Com um detalhe: os votos principalmente de latino-americanos deverão ser decisivos nas eleições de novembro nos EUA.



No Brasil, a percepção de que os temas educacionais não influenciam tanto nas eleições – apesar de aparecerem genericamente nos discursos – é consensual entre os cientistas políticos e especialistas na área. Mesmo assim, este ano traz uma novidade: a aposta da prefeita Marta Suplicy nos Centros Educacionais Unificados (CEU) como principal bandeira para a reeleição. Um motivo básico para a diferença em relação ao que ocorre nos países da América do Norte e Europa seria o próprio grau de escolaridade do brasileiro.


 



*



Da Agência Repórter Social, com reportagem de Heros Schwinden, de Madri (Espanha) e Luciana Cabral, de Roma (Itália).




 




Discussão pasteurizada







Especialistas analisam tratamento eleitoral da educação no Brasil




 


Durante a campanha presidencial de 1994, o professor Fernando Henrique Cardoso exibia os cinco dedos de sua mão, cada um representando um grande tema que ele proclamava como prioritário. Um desses “dedos” era a educação. Segundo a professora de pós-graduação Roseli Fischmann, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (Feusp), “nenhum candidato deixa de destacar a educação em sua plataforma”.  “Mas o que me chama a atenção é que o discurso sobre o tema, sempre presente, é sempre padronizado”, pondera. “Você observa políticos dos mais diferentes partidos em cargos do executivo ou do legislativo e o discurso sobre educação geralmente é o mesmo, não mudam nem as palavras.”



Sua colega de faculdade Flávia Schilling, do departamento de filosofia da educação, estende de certa forma essas observações aos eleitores. “Penso que o eleitor se interessa por educação da mesma forma que os políticos. Espera que apareça nas promessas. Como este direito somente agora se universaliza, como o acesso à escola dos atuais adultos ainda foi restrito, o interesse existe, mas é superficial, confunde-se com ter um lugar que cuide das crianças, as alimente, etc.”



Segundo Roseli Fischmann, educação é um “campo minado” – por isso a pasteurização da abordagem pelos políticos, que evitam polarizações.  “Eles geralmente batem na tecla das ações políticas que visam a expansão da escola pública”, analisa. Ela diz que esse é o principal tema desde o fim da década de 40, embora algumas décadas depois esse discurso tenha “evoluído” para as promessas “de qualidade”. “Isso porque a própria população foi percebendo que não adiantava ter acesso a uma escola que era uma porcaria.”



Outro ponto recorrente nas campanhas, segundo Roseli, é a informática. “A partir da campanha de 1998, vários políticos começaram a aparecer no programa eleitoral ao lado de monitores de computadores, prometendo a implantação da informática nas escolas”, conta. “Em resumo, a questão da educação está sempre presente como chamariz para os votos, mas a abordagem é sempre genérica e baseada no senso comum. De fato, é um discurso do qual fica difícil discordar.”




Flávia Schilling lembra que não há como se exercer plenamente os direitos políticos – e o voto é um desses direitos – se não há garantia dos demais, em especial o direito à educação e à informação livre. “Isso, aqui no Brasil, apenas agora começa a estar no horizonte, com a universalização do acesso à escola. Outros países universalizaram esse acesso há muito tempo e isso faz toda a diferença na cultura política da população.”
(Ag. Repórter Social)




Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN