Cobertura sobre educação evoluiu mas ainda enfrenta desafios

Jornalistas precisam abrir leque de interlocutores no debate sobre saídas para a melhoria do ensino

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Algumas autoridades se queixam (em críticas veiculadas por nós, da imprensa) de que é impossível discutir com profissionais da educação qualquer política de melhoria do ensino público. Para os governantes, a pauta dos profissionais é sempre “corporativa”, cobrando melhores salários e condições de trabalho.

Pois bem, para falar sobre a evolução recente do jornalismo de educação (e de alguns dos seus desafios) vamos antes começar sendo “corporativistas”. É impossível deixar de lamentar o enxugamento de editorias e o corte de pessoal especializado nas grandes redações, além do desaparecimento de títulos na imprensa segmentada.

Feita a ressalva – que tem menos o caráter de cobrança, dada a crise global do jornalismo, e mais o de constatação –, existem, sim, aspectos a se elogiar quando se analisa o histórico recente da cobertura de educação, aspectos que refletem o fortalecimento institucional do setor no país. Parte deles foi abordada no lançamento oficial da Associação de Jornalistas de Educação, a Jeduca, em junho, e em alguns dos primeiros textos publicados no nosso site.

Na mesa-redonda que marcou o lançamento da Jeduca, a superintendente do movimento Todos Pela Educação (TPE)), Alejandra Velasco, destacou a mudança de perfil da cobertura: “Os temas mudaram radicalmente”. Para ela, o espaço dedicado a questões pontuais, como filas para matrículas em escolas, abriu-se para o “debate sobre políticas públicas”, como o Plano Nacional de Educação ou a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Ex-secretária municipal de Educação do Rio e diretora do Banco Mundial, Cláudia Costin escreveu para o site um depoimento no qual comparou a cobertura nos jornais do Brasil e dos Estados Unidos em 2000-2001, quando morou em Maryland. Enquanto a imprensa de lá liderava o debate sobre o baixo desempenho dos alunos em testes internacionais como o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, na sigla em inglês), o tema era virtualmente ignorado aqui.

“Nesse período, saiu o resultado da primeira participação do Brasil no Pisa, em que figuramos nos últimos lugares entre, então, 56 países. Não me lembro de ter visto algum jornal dar chamada de primeira página. A maior parte sequer divulgou.”

De volta ao Brasil, Cláudia participou do movimento de disseminação de indicadores de qualidade do ensino, iniciado ainda nos anos 90 – tanto como secretária, com a introdução da Prova Rio e da AlfabetizaRio, quanto como interlocutora do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) na criação do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). Para ela, o papel do jornalista de educação ganhou maior relevância nesse contexto em que tanto o Pisa quanto o Ideb passaram a render manchetes ou, pelo menos, chamadas de capa.

“Podemos comparar escolas e observar que algumas em condições bastante desfavoráveis têm Ideb superior a outras em bairros de classe média e tentar entender o que leva a tais resultados”, escreveu. “Analisar essas diferenças e extrair informações úteis para o exercício da cidadania é tarefa para jornalistas com preparo específico.” As avaliações em larga escala permitiram aos jornalistas fazer seus próprios recortes de dados objetivos e identificar experiências de sucesso capazes de apontar caminhos para a melhoria do ensino – antecipando-se até, em alguns casos, a pesquisadores. Mas trouxeram efeitos indesejáveis que só agora estão sendo atenuados, como a comparação entre escolas e sistemas de ensino desiguais, que despreza variáveis cruciais, como o nível socioeconômico dos estudantes.

Nesse sentido, a divulgação do último Enem por escolas foi um marco. Além dos rankings gerais (criticados por especialistas, mas campeões de audiência entre leitores), a imprensa abriu espaço inédito para indicadores que levavam em conta tamanho da escola, nível socioeconômico dos alunos e até a formação de professores.

Para isso contribuiu o esforço feito pelo Inep nos últimos anos com a construção desses indicadores. Acredito que a Jeduca também fez a sua parte nesse processo, negociando com o Inep a adoção do embargo na divulgação dos dados, para dar aos colegas mais tempo de aprofundar e contextualizar análises, e publicando artigos de jornalistas e de especialistas sobre as limitações dos rankings – um deles, do ex-presidente do Inep Francisco Soares, foi reproduzido literalmente na cobertura de veículos de alcance nacional e regional.

Além dos dados objetivos fornecidos pelos indicadores, a cobertura de educação tem hoje à disposição um arsenal de estudos técnicos nacionais e internacionais para embasar reportagens – complementando opiniões de especialistas com evidências empíricas. Também em colaboração para o site, a presidente-executiva do TPE, Priscila Cruz, destacou como esses estudos reforçam o papel da imprensa como “criador e criatura” do processo de aperfeiçoamento institucional do campo educacional.

“Exemplificando o poder de mobilização da imprensa, a divul­gação de estudos e pesquisas rea­lizadas por organizações da sociedade civil foi responsável por ações importantes do governo”, escreveu. “O lançamento do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, por exemplo, foi anunciado pouco depois da divulgação dos resultados da Prova ABC, iniciativa do TPE e parceiros, que mostrou o baixo percentual de alunos plenamente alfabetizados até os 8 anos de idade.”

Por outro lado, também em texto escrito para o site, o coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, chamou a atenção para o quanto a pauta de educação ainda é determinada pelo governo. Daniel admite que em qualquer país os governos têm papel preponderante na definição do debate público. “Contudo, o que ocorre muito pouco por aqui é a devida problematização dos dados e das opi­niões oficiais. Quando muito, há apenas um criticismo superficial.”

Para Daniel, outra especificidade brasileira é a influência na pauta de educação de grandes fundações privadas, que se sobrepôs não só aos pontos de vista de entidades da sociedade civil, mas também aos de professores, pais e alunos. “Por muito tempo, além dos governantes (em períodos de governos fortes), as fundações e movimentos empresariais – vocalizadores dos anunciantes privados nas pautas da educação – foram as principais fontes dos principais veículos.”
Eis um ponto sensível. Há uma responsabilidade dos jornalistas que exige atenção constante: a de ouvir os diversos atores da comunidade educacional. Se já temos dados objetivos para fazer diagnósticos mais precisos (sem desprezar suas limitações) da qualidade do ensino no país, é natural que a cobertura caminhe no sentido de apontar soluções para os nossos problemas. Quando se trata de colocar essas soluções na mesa, porém, a diversidade de pontos de vista e o choque de opiniões são inevitáveis.

O jornalista precisa retratar essa diversidade e fugir de simplificações à direita (“toda manifestação de professores é corporativista”) e à esquerda (“fortalecer o ensino técnico prejudica necessariamente a formação para a cidadania”). Também precisa ter sempre em mente que a superação dos nossos desafios na educação requer um concerto de políticas, da valorização do professor à melhoria da infraestrutura das escolas, do aperfeiçoamento da gestão ao reconhecimento do protagonismo dos alunos.

Para ficar em um exemplo bem específico, vale mencionar a BNCC. Sua adoção é defendida por vários educadores como um meio de garantir um padrão mínimo nacional de qualidade no ensino. Para outros, a padroni­zação é indesejável, empobrece o currículo. Simplesmente desconsiderar essa diferença de opinião pode levar a uma repetição do que ocorreu no Estado de Nova York, tido hoje como exemplo de fracasso na adoção do Common Core, a BNCC americana, pela rejeição que o processo despertou entre professores.

De resto, ainda que tenhamos uma BNCC bem elaborada (há fundadas dúvidas a esse respeito), ela não vai funcionar sem investimentos importantes em formação de professores e em material didático. Investimento até maior do que o feito nos Estados Unidos, porque lá o Common Core se restringe ao ensino de matemática e inglês, não abrange todas as disciplinas. Isso vai funcionar aqui em tempos de PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 241, que retira a obrigatoriedade de a União investir 18% do orçamento em educação?

Como se vê, mesmo uma análise rápida deixa claro o grau de complexidade da introdução da BNCC. E os contrapontos mencionados aqui não partiram de setores à esquerda da comunidade educacional, mas do professor de Stanford Paulo Blikstein, defensor da Base. Em entrevista ao Portal Porvir, ele faz uma ressalva sobre a BNCC que vale para qualquer tentativa de apontar saídas para a melhoria do ensino. “Ela é necessária, não é uma tábua de salvação. A gente tende a fazer isso o tempo todo na educação, se agarrar a tábuas de salvação.”

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