Clima de escola

Autor de pesquisas que investigam os impactos do ambiente escolar na aprendizagem, Brian Perkins, diretor da Escola de Professores da Universidade de Columbia, fala sobre o desânimo generalizado dos professores e do seu papel para trazer inovações à sala de aula

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Divulgação
Brian em apresentação no Brasil: faltam líderes nas escolas


Diretor do Programa de Liderança em Educação Urbana da Escola de Professores da Universidade de Columbia, em Nova York, Brian Perkins viaja com frequência por diferentes países, entre eles a África do Sul, Brasil e China, para desenvolver consultorias relacionadas às suas áreas de pesquisa, em especial sobre liderança e clima escolar. Em todos os lugares, Perkins percebe pelo menos uma característica em comum entre os professores que encontra: uma grande apatia. A maioria, diz ele, está sem estímulo para se aprimorar e sem sentir prazer em dar aulas.


Médico formado por Yale, Perkins vê nesse desânimo não o problema central da educação, mas apenas um sintoma de que algo realmente não vai bem na área educacional. Por isso, parte de seu trabalho é encontrar formas de levar os educadores a reencontrar, em si, os princípios da mudança e inovar.
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De passagem pelo Brasil recentemente para prestar projetos de consultoria para a Escola Sesc de Ensino Médio, Perkins concedeu a seguinte entrevista à revista Educação, no Rio de Janeiro.


O senhor tem viajado por muitos países. Quais são os sintomas comuns que percebe e que males da educação revelam?
O primeiro sintoma é a apatia do professor. Quando ele está fortemente afastado do seu prazer original de educar, que é a motivação interna para investir em si mesmo, ele deixa também de sentir a mesma energia para educar crianças e adolescentes, e isso é essencial para seu trabalho. Mas percebo também uma grande lacuna de liderança, seja do tipo da liderança operacional – daquele que administra, olha os processos e o que é necessário para uma escola funcionar – seja da liderança inspiradora, que articula a visão da comunidade de pais, alunos e professores em torno da missão da escola e é capaz de motivá-los e transmitir inspiração. Faltam líderes e isso leva à falta de sinergia entre os diferentes atores da educação.


Há, nessa apatia, algo de conformismo também?
Sem dúvida esse quadro se completa com uma preocupante falta de interesse público ou, em outras palavras, de consciência sobre a responsabilidade que todos temos no que diz respeito à educação de toda a população. Há um certo clima de aceitação, um pensamento do tipo “fazemos o que podemos”. Falta uma consciência da educação como prioridade para a saúde e o bem-estar das pessoas, como condição para o desenvolvimento social, que impacta todas as demais áreas, como a saúde, o trabalho. Estamos falhando em colocar a educação como prioridade em nossas sociedades, especialmente se pensarmos no papel global da educação para o ser humano. Estamos muito preocupados com o cognitivo e deixamos o lado emocional. Estamos esquecendo que compaixão se ensina, que empatia se ensina. Precisamos pensar o que os nossos alunos estão perdendo ou esquecendo de um ponto de vista holístico.

Mas, por outro lado, não há uma disseminação global da ideia de educação como desempenho em matemática, linguagem, ciência, ou seja, da finalidade da educação como função das demandas do trabalho, desconsiderando os outros aspectos?
O conceito de desempenho é uma construção e, como tal, pode ser modificado. Nada impede que incluamos nesse conceito de performance focado no cognitivo também o fortalecimento da autoestima das crianças, o campo da ética, dos valores, das atitudes. Depende de nós. Pense no exemplo radical da escravidão: do ponto de vista estritamente lógico, você não encontraria erro em um sistema no qual o trabalho é gratuito e gera riquezas… Mas se não investirmos tempo e energia para desenvolver o sentido de moral e ética, a lógica leva à destruição. Há muitos exemplos de como o estímulo cognitivo precisa ser equilibrado com as demais dimensões do humano. Veja as crianças que vivem em um clima de extrema violência urbana, no qual a expectativa de vida é de 25 anos. É natural que elas não acreditem na educação, não faz sentido nenhum para elas. Por isso precisamos encorajá-las, dar-lhes mais elementos para que entendam o valor da educação. Isso virá da inspiração, que deve ser incutida pela escola e pelo professor.


Qual é o papel da comunidade nesse processo?
É fundamental que a comunidade esteja presente, e o diretor seja um líder comunitário. Quando colocamos o Google maps sobre uma escola e vemos o que existe no entorno – uma igreja, uma padaria, um posto de saúde -, podemos imaginar que se aquelas pessoas andam juntas, transformam-se em uma comunidade, com mais força, recursos, responsabilidades. O papel do diretor é torná-la essa comunidade, o que tem impacto até mesmo sobre a diminuição da violência, principalmente nos grandes centros urbanos. A comunidade também precisa trabalhar para que as crianças cheguem e se sintam em segurança na escola. Isso não pode falhar nunca, pois os alunos precisam ter certeza de que lá não precisam temer nada.


O senhor tem feito pesquisas sobre a importância do clima escolar. Como o senhor define clima?
É fácil de entender quando comparamos os alunos com uma flor. Para que a flor cresça, ela depende das condições do solo, luz, umidade, ou seja, um clima adequado. Em educação é o mesmo. Não é preciso ter ótimas condições, mas pelo menos boas, suficientes. Ninguém discorda disso: o desafio é criar essas condições. A questão é que o clima escolar não surge do nada. Precisamos criá-lo deliberadamente. Os educadores precisam saber qual é o clima que desejam naquela escola e trabalhar para construí-lo. Temos de ter objetivos claros e estratégias para atingi-los. Geralmente, nas escolas, nós imaginamos objetivos ideais, mas não desenhamos o que terá de ser feito dia a dia para alcançá-los.


Muitas vezes, os professores associam o bom clima escolar à manutenção de uma certa disciplina. Mas clima escolar é mais do que manter a disciplina, não é?
Sim, clima é mais que disciplina. Trata-se de criar um ambiente de apoio e que seja capaz de encorajar os alunos a fazer o seu melhor. Assim, envolve a participação de todos – ou seja, de pais e da comunidade – e também outras questões, como a infraestrutura. Aliás, a questão das condições físicas que oferecemos em uma escola é muito importante. Se eu vou para um lugar e vejo banheiros sujos, paredes rachadas, insetos, penso: ‘neste lugar não sou importante, ninguém liga para mim, eu não tenho valor aqui’. Essa é a mensagem que damos às crianças quando não cuidamos das condições físicas da escola. Tudo isso conta para o clima e faz diferença no aprendizado.

Hoje é muito comum falar das gerações que chegam à escola com novas características, especialmente ligadas ao uso das tecnologias. Isso tem impacto no trabalho do professor?
Tem muito impacto e nos mostra o quanto precisamos de professores renovados. Vale a pena pensar um pouco em nossa ideia sobre inovação. Inovar não é buscar soluções para velhos problemas, mas encontrar novos caminhos para novas questões. Hoje, todas as mensagens falam sobre o que a sociedade, o mundo exige dos alunos. Mas precisamos lembrar que os alunos também estão mudando e querem novas coisas da escola e do professor. Há um fosso entre o que oferecemos e o que as crianças esperam de nós.


O que os educadores podem fazer?
Eu sou médico por formação. Por isso, vejo as pessoas tratando os sintomas como se eles fossem o problema, e esquecem de investigar qual é o real problema por trás dos sintomas. O desafio do educador hoje é semelhante: temos de ir atrás das questões reais. Em vez de tentar desconstruir as crianças para que se adaptem ao nosso mundo, precisamos ajudá-las a construir sentido para o mundo em que vivem. É um desafio para todos, mesmo para quem se formou há pouco tempo. Inovar não é melhorar para fazer o mesmo, mas buscar soluções novas. E precisamos de soluções para hoje. Por exemplo: se os alunos já estão acostumados a compartilhar experiências em escala global, se as questões que vivem são planetárias, os currículos precisam necessariamente ter componentes internacionais, estimulando experiências com escolas e alunos de outros países. Até porque outros países estarão procurando pelas mesmas oportunidades. Os alunos precisam ser expostos, ter ferramentas para compreender outras culturas – o que inclui dominar outras línguas, serem capazes de articular ideias, comunicar-se bem com os outros. As habilidades de comunicação são cada vez mais fundamentais na escola.


É um mundo novo para todos. Não é fácil manter o ânimo diante dos desafios.
Sim, mas precisamos trabalhar e ir em frente, tanto os professores como os alunos. Essa é, aliás, uma questão muito importante que está relacionada com os problemas de fundo da educação hoje. É muito fácil dizer para uma criança: você não consegue fazer isso. Como educadores, temos de lhe dar muitas oportunidades para falhar e para seguir. Basta pensar em nossa vida. Quem de nós, adultos, não se comportou mal, não errou quando era estudante? Certamente não esquecemos das novas chances que tivemos. De novo, temos de ter chances de prosseguir. Desistir realmente não é uma opção.

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