Cláudia Arbex

Por que os homens são minoria nos ciclos iniciais de ensino?

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A presença de homens atuando nos ciclos iniciais, ao lado das mulheres, pode trazer enormes benefícios aos alunos”


Nas pesquisas envolvendo educação, muito se tem visto, revisto e questionado. Os sistemas de avaliação, os métodos e filosofias adotadas nas instituições, o olhar para os educandos, as funções e posturas dos professores e coordenadores, o currículo, o espaço pedagógico, tudo isso tem sido observado e redimensionado. E é importante que seja assim.   

                


Mas há questões mais subjetivas, e nem por isso menos abrangentes, que têm sido negligenciadas sistematicamente. Uma delas, me parece de extrema importância, e por alguma razão que desconheço nunca ouvi dizer que estivesse sendo debatida ou abordada como um problema.



Trata-se da desproporção visível entre a atuação de mulheres e homens nos ciclos iniciais de ensino (educação infantil e ensino fundamental). Esta desproporção não é fruto do acaso. Penso que é conseqüência de algo maior envolvendo padrões sociais e culturais enrijecidos e estabelecidos, que necessitam ser revistos.



Este desequilíbrio prejudica, mesmo que de maneira sutil para a maioria das pessoas, o desenvolvimento sadio e pleno das crianças. A


presença de homens atuando nos ciclos iniciais, ao lado das mulheres, pode trazer enormes benefícios aos alunos, às instituições de ensino e, conseqüentemente, à sociedade.



Parece-me que há uma “falta de interesse” dos homens em relação à educação, e especialmente em relação à profissão de professor. No entanto, considero esse desinteresse apenas aparente.

Creio firmemente que há outros fatores cerceando a manifestação desta tendência nos homens.


Conheci, durante 25 anos de atuação em escolas, homens com evidentes inclinações para o exercício dessa profissão; conheci homens intuitivos, perspicazes e perceptivos, “educadores natos” atuando como engenheiros, arquitetos, administradores e outras profissões.



O que impede uma maior participação dos homens na educação, em especial dos ciclos iniciais de ensino? O que os afasta desta experiência tão enriquecedora e gratificante?



Atualmente não podemos dizer que a resposta esteja vinculada apenas a questões econômicas, embora ainda se justifique esse desinteresse pelos baixos salários da profissão (baixo salário é uma realidade de quase todas as profissões em nosso país).



Não se pode dizer tampouco que se trata de uma profissão feminina, cujas habilidades somente as mulheres possuem.


Muitas hipóteses podem ser levantadas para explicar este fenômeno, menos a tão usada e falsa idéia de que homens não têm paciência ou não gostam de crianças.



Orientada pela Prof. Dra. Eloísa Quadros Fagali, fiz uma pesquisa intitulada “O Professor Oculto, mitos e tabus na relação de aprendizagem – valores de uma cultura patriarcal”. Procurei investigar as razões dessa desproporção nas instituições de ensino através de alguns estudos envolvendo os universos feminino e masculino, as manifestações de suas características, as influências desses universos no âmbito cultural e social, e conseqüentemente na educação formal e informal.


Foquei meu olhar nas poderosas influências dos padrões culturais sobre as relações familiares e sociais.



Busquei na história da cultura os traços deixados pelas forças matriarcais e patriarcais para entender os fortes valores patriarcais da nossa civilização atual.



Pensei no homem e nos universos masculino e feminino; pensei na mulher e em ambos universos mais uma vez. Depois lembrei da criança, do aluno, e de como se dá esta relação entre pais e filhos, educadores e educandos. Tentei compreender esses vínculos sob o ponto de vista masculino, ou melhor, do universo masculino.



Entrevistei pessoas ligadas à educação por meio de suas profissões ou de seus filhos. Baseada na pesquisa e nas análises dos resultados das entrevistas realizadas, pude constatar que os valores da cultura patriarcal permanecem muito presentes na consciência da maioria das pessoas, traduzindo a idéia de trabalho como algo ascético, frio e rígido. E essa idéia, a meu ver, gera um profundo distanciamento da função da educação como atividade profissional.



A educação de crianças tem um caráter que entra em conflito com a noção patriarcal de trabalho, valorizando e se valendo de qualidades como a intimidade, o afeto e o diálogo.


Essa divergência de percepção da realidade pode ser uma das causas do afastamento dos homens desta atividade profissional e também, por outro lado, a razão de algumas pessoas considerarem a escola simplesmente uma extensão do lar.



Certamente muitas explicações podem justificar esse fenômeno, mas nenhuma delas, conclusivas ou não, modificam o fato de haver um desequilíbrio significativo nas instituições de ensino no que se refere à atuação de mulheres e homens.



Finalmente devo confessar que durante a pesquisa foram levantadas novas perguntas que ficaram sem respostas, por isso acredito ter dado um passo em direção ao início de uma discussão mais ampla.


Gostaria de colocar esse assunto em pauta, e espero que possa ser através deste artigo. 


 



* Cláudia Arbex é psicopedagoga formada pela PUC de São Paulo; professora especializada em educação infantil e licenciada em educação física; coordenadora da escola de educação infantil Capítulo I, da qual é sócia fundadora.



 


 


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