Círculo vicioso

Para a pesquisadora Flávia Schilling, da Feusp, precarização do trabalho do professor leva à rotina do descompromisso, da agressão e da vitimização docente

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Presa de 1972 a 1980 no Uruguai, sob a acusação de militar no grupo político de esquerda Tupamaros, a gaúcha Flávia Schilling só foi libertada depois de ampla campanha que mobilizou o Brasil. Graduada em pedagogia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, mestre em educação pela Universidade Estadual de Campinas e doutora em sociologia pela Universidade de São Paulo, da qual é hoje professora da Faculdade de Educação, ela integra a Cátedra Unesco de Educação para a Paz, Direitos Humanos, Tolerância e Democracia.


"Como construir o lugar da escola na atualidade, nesse momento essencial da história da educação brasileira em que, pela primeira vez, estamos com praticamente todas as crianças na escola, quando temos o direito à educação – ainda com dificuldades enormes – se universalizando?", pergunta-se Flávia. "Não é uma tarefa fácil e é, ao mesmo tempo, uma grande prioridade, pois o que percebemos em trabalhos com escolas onde há queixas de violência é que ninguém consegue ocupar o seu lugar."


Como se estabeleceu a crise da autoridade, que se manifeta de forma mais aguda em certas escolas?

Isso deriva, em parte, da perda da idéia de qual é a função da escola em uma sociedade. Daí que uma das primeiras intervenções nessas escolas é a constituição de um espaço para que os adultos possam se colocar como adultos que sabem a que vieram, o que devem fazer e que, assim, possam acolher os mais jovens, aqueles que chegam ao mundo. Uma ênfase deve ser dada ao fortalecimento dos adultos que, assim como os alunos, não se conhecem, não confiam uns nos outros, "passam" pela escola sem comprometer-se com o seu cotidiano. Chamo a atenção para o fato de que essa é uma questão estrutural: em um sistema de ensino em que praticamente a metade dos professores é formada por "precários" (temporários), torna-se quase impossível constituir um coletivo que sabe a que veio, que tenha uma proposta político-pedagógica, que possa se engajar na tarefa de ensinar e acolher.


Quais os efeitos concretos que decorrem dessa precarização?


A precarização do trabalho do professor leva a impasses em relação à escola, torna seu trabalho meramente formal e burocrático, não leva ao engajamento ou ao compromisso com a transformação do ambiente, do local onde trabalha e da vida daquelas pessoas que ali estão.?Há, também, problemas sérios na escolha dos diretores e dos coordenadores. Assim, temos escolas onde há queixas de violência em que vemos claramente que o desengajamento, o temor, o cansaço, a desistência de tudo começa na equipe de adultos, que não conseguem perceber saídas. Daí a temer ou desprezar os alunos é um passo. Cria-se, assim, um círculo de agressão/vitimização. Os alunos sentem-se vítimas de preconceito e discriminação por parte dos professores; os professores sentem-se vítimas de discriminação e preconceito por parte da sociedade, do governo, dos pais e dos alunos que não os respeitam. Vê-se, quando descrevemos esse círculo vicioso de agressão/vitimização, que não há lugar de autoridade para o professor.


Como seria esse lugar?


Precisa ser composto, criado a partir de algumas premissas: da constituição de um coletivo que possa organizar, acolher, proteger, ensinar; de um coletivo que tenha um discurso de mútuo apoio, que tenha regras e normas claras para proceder em relação ao grupo de adultos e ao grupo de alunos (uma das queixas é a severidade com faltas cometidas por alunos e a ausência de qualquer severidade em relação a comportamentos de alguns professores); mostrar claramente a que se veio, qual é a proposta pedagógica, qual é o objetivo; mostrar a utilidade, desenvolver uma identidade com a cultura escolar, fomentar a paixão e o interesse pelo conhecimento (de acordo com [o sociólogo francês] François Dubet, os eixos centrais de qualquer instituição escolar). Somente assim haverá um reconhecimento de uma autoridade na escola, da autoridade do professor, da autoridade do adulto, que assume assim sua função de resguardar, guiar, orientar aqueles que chegam ao mundo.


Qual a sua análise de episódios como o da depredação ocorrida na Escola Estadual Amadeu Amaral, em São Paulo?


Havia ali um clima de desânimo muito antigo. Circula uma fala que diria desse colégio o seguinte: escola… onde o aluno entra burro e sai animal. Como se poderia esperar algo distinto do que aconteceu em uma instituição cercada por esse desprestígio? É claramente, como já comentei, uma "escola de passagem", onde ninguém gostava de estar. O acontecimento da depredação foi uma "crônica de uma morte anunciada", pois precedida de vários episódios que não foram tratados. Nada é pior do que deixar passar… Claramente, não havia um grupo de adultos que pudesse conversar, se constituir como um grupo de mediação de conflitos. A tendência, em escolas assim, é a ocorrência de situações cada vez mais graves. O cotidiano se torna vazio, burocrático, nada acontece, a exasperação toma conta.


O que fazer nessas situações?

Logicamente, recompor um coletivo, ou construir um coletivo que tenha como objetivo central, com os alunos e os pais, construir uma escola da qual todos possam se orgulhar. Essa composição passa por assembléias, por um tempo de conversa com todos os integrantes daquele cotidiano, pelo estabelecimento de acordos sobre como agir, por onde começar. Repito que esse trabalho não avançará se não envolver os alunos e os pais que se disponham a transformar aquela escola em um lugar que ensine, que tenha uma identidade positiva, que seja um modelo de instituição educacional para aqueles que lá estão. Que quebre com o imaginário de que aquela escola era a ante-sala da Febem, tal como apareceu na mídia. Não é um trabalho fácil, mas trata-se de algo imprescindível e que já foi realizado por outras escolas.

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