Cinema do diálogo

As melhores coisas do mundo, de Laís Bodanzky, mergulha no universo juvenil para criar uma representação vívida das questões que afetam o adolescente contemporâneo

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Para construir a história de Mano (foto), produtores ouviram grupos de jovens



Para acertar o tom do seu filme e atingir o público esperado, os realizadores de As melhores coisas do mundo buscaram entender o universo do adolescente paulistano de classe média por meio de uma tática rara no cinema brasileiro: adaptar e modificar o roteiro de acordo com grupos de trabalho que opinavam a respeito de questões que iam desde o desdobramento de alguns conflitos até a trilha sonora do filme. A diretora Laís Bodanzky e o roteirista Luiz Bolognesi (mesma dupla que realizou Bicho de sete cabeças, de 2000, com Rodrigo Santoro) partiram da série de livros Mano, de Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto, para desenhar a história do protagonista Hermano (Francisco Miguez), o Mano, 15 anos, filho de professores universitários e aluno do ensino médio de uma escola particular de classe média alta em São Paulo, vivendo ao mesmo tempo as dificuldades da adolescência e a dissolução de seu núcleo familiar. O pai (José Carlos Machado) está deixando a mãe (Denise Fraga) para casar-se de novo. Com um homem, seu orientando de mestrado.


Projeto educativo


Além da preocupação em entender esse universo de maneira mais próxima da realidade, o filme tem a intenção de provocar um debate sobre os valores e grandes temas da adolescência e levar educadores a refletir sobre seu papel no fomento desses questionamentos. Para isso, a equipe do filme produziu um projeto educativo com sugestões para discussões em sala de aula, dicas de leitura e propostas de atividade a partir de situações do roteiro. São temas como ética e cidadania, violência física e psicológica, preconceito, sexo e o próprio valor da escola. O material pode ser baixado gratuitamente no endereço virtual
http://www.warnerlab.com.br/asmelhorescoisasdomundo/site/

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Antes de sua estreia, em 16 de abril, o filme foi exibido para educadores em São Paulo, com a presença de Laís Bodanzky e Gilberto Dimenstein, que debateram as possibilidades de interpretação da obra do ponto de vista da educação. Para a diretora, os adolescentes constituem um público muito crítico e encontrar o tom certo dependeu de uma pesquisa muito aprofundada. "O filme é uma memória, um registro de como é o jovem dessa época", disse. Para Dimenstein, o filme mostra que é possível educar com emoção e começa a preencher uma lacuna de diálogo entre o cinema e o jovem urbano. "Hoje o currículo está muito distante da realidade (do adolescente) e eu acredito na informação com emoção", afirmou.
 
A seguir, professores convidados para uma sessão especial de apresentação do filme avaliam a realidade que presenciam em sala de aula e a retratada na obra.

Contra o preconceito



Edson Luiz Pereira Camargo


, 44 anos, é professor de literatura no ensino médio do colégio e cursinho Rumo, instituição particular localizada no Bom Retiro, centro de São Paulo. Reconhece nos jovens protagonistas da história características próximas às de seus alunos.

"Esse público é exatamente igual ao que eu trabalho: a questão do bullying, a questão da classe média quase alta, o preconceito em todos os sentidos. O mau, aquele que quer aparecer a todo custo, mas escolhe o pior caminho. Mesmo entre os professores existe preconceito (em relação à homossexualidade)", diz.

Reforçando semelhanças com o enredo do filme, Camargo é homossexual e tem filhos já crescidos – um deles, seu aluno. "Começam a querer fazer piadinha comigo e a melhor maneira de enfrentar isso é dizer que eu sou logo na primeira aula: acabou a graça e não tem mais do que eles tirarem sarro", conta. Além disso, como educador, acredita que deve mostrar aos alunos a necessidade de se posicionar criticamente. "Cabe a mim, como professor, dar a minha opinião, e mostrar que eles precisam ter opinião. Meu papel é fazer os alunos enxergarem uma vida diferente. O filme traz possibilidades inclusive para trabalhar com gramática, biologia, física, química, antropologia, sociologia, literatura e até matemática", afirma.

Alunos do mundo real

Nos primeiros dias de aula, quando identifica uma turma mais difícil ou alunos mais rebeldes, a professora de português Valéria Martins Mônaco, 46 anos, se vale de um recurso que invariavelmente funciona: exibe o filme Bicho de sete cabeças, de Laís Bodanzky, e discute trechos do livro que inspirou a obra cinematográfica, Canto dos malditos, de Austregésilo Carrano. "São assuntos que eles adoram discutir", diz a professora de ensino médio das redes estadual e municipal no Jardim São Luís, na periferia da zona sul de São Paulo.

Valéria pretende repetir a experiência com As melhores coisas do mundo, já que encontrou pontos que devem despertar o interesse dos alunos. "A essência dos problemas é a mesma em qualquer ambiente, dentro da minha casa e nas escolas onde trabalho. A questão do preconceito, da orientação sexual, da ética entre os professores, entre direção e professores e entre os próprios alunos, tudo isso pode ser abordado independentemente da classe social", afirma. Para ela, o grande mérito do filme é estar "baseado na realidade". "O filme não representa o mundo da Rede Globo, mas o mundo dos meus alunos", completa.

Quebrar a ‘casca’ da comunicação

Perto de se aposentar, a professora Beatriz Andrade Silva, 60 anos, enxerga no filme uma crítica ao comportamento dos próprios educadores em relação a temas como preconceito e bullying. "A coisa mais antiga no filme é a questão do preconceito e da hipocrisia, mas agora isso é tecnológico: a gente vê como ela corre pela internet, pelo celular. Os professores pisam em ovos e não quebram essa casquinha da comunicação com o jovem", diz.

Beatriz leciona língua portuguesa e literatura na EE Rui Bloem, zona sul de São Paulo, uma das melhores escolas estaduais da capital, e na EE Brasílio Machado, na Vila Mariana, de classe média alta. Para ela, é tarefa do docente diminuir a distância entre professor e aluno. "A educação tem de se aliar à emoção artística. Poucos professores vão à internet ler o que seus alunos escrevem. Ou não sabem interpretar isso. A questão maior é em relação aos professores. O aprendizado formal é consequência dessa interação mais artística, com mais de subtexto", ensina.

Contatos e distâncias na periferia

Mesmo com jovens que frequentam a Casa de Cultura e Cidadania da Vila Guacuri, bairro vizinho a Diadema, um filme sobre o cotidiano do aluno da classe média paulistana pode estabelecer "pontos de contato". É a opinião do educador André Pereira do Amaral, 23 anos, que trabalha com oficinas de formação cultural. "Como disse a Laís Bodanzky, você pode fazer um filme no sul da Itália e passar no Guacuri que vai encontrar esses conflitos, que não são do jovem, mas do ser humano. Conflitos contemporâneos, como a questão do pai separar da
mulher para morar com o namorado, têm sido colocados em debate de 30 anos pra cá. Os jovens se reconhecem nessa nova configuração da família", afirma.

O preconceito racial – ausente do filme – também chama a atenção de André. O recorte de um universo do qual o negro não faz parte provoca uma oportunidade de discussão. "A discussão pode ser boa tanto quando você se reconhece quanto no momento em que se afasta", acredita.

Olhares sobre o aprendizado

Em As melhores coisas do mundo quase não se vê aprendizado formal. As cenas em sala de aula ou no laboratório são centradas em brincadeiras e na sensação de enfado. O único professor que inspira os alunos, interpretado por Caio Blat, não fala à classe sobre física, sua disciplina, mas sim sobre a formação do indivíduo questionador, autônomo. No filme, o aprendizado "útil" do protagonista Mano se dá na aula de violão, em que o professor é apresentado como uma espécie de mestre zen, que ensina de maneira despojada, baseado na experiência.

A questão do aprendizado formal versus educação fora da escola também está no recente Educação (2009, de Lone Scherfig). Com roteiro do escritor britânico Nick Hornby, tem como protagonista a jovem Jenny (Carey Mulligan), 16 anos, que na Londres dos anos 1960 se esforça para entrar na Universidade de Oxford – para atender ao desejo do pai rigoroso – e posteriormente encontrar um bom casamento. Essa trajetória é interrompida quando conhece o bon vivant David (Peter Sarsgaard), quase o dobro de sua idade, que a leva a restaurantes chiques, salões de festas em Paris e leilões de arte, ao mesmo tempo em que a inicia no sexo e na vivência amorosa e a afasta do ideal de Oxford. O nome ambíguo do filme em inglês, An education, uma educação, parece sublinhar a validade dessa outra forma de aprendizado, mais próxima às "coisas do mundo". (GJ)

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