Cidadão consciente ou doutrinado?

Educação é como um edifício: para chegar na cobertura e desfrutar a linda vista, é preciso construir as bases

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Gustavo Ioschpe




Tenho chegado cada vez mais à conclusão de que a educação brasileira é o fracasso que é porque os professores não almejam o sucesso.

Levantamento recente dos professores brasileiros, realizado pela Unesco, perguntou quais as finalidades mais importantes da educação. 72,2% disseram que era “formar cidadãos conscientes”. 8,9% sugeriram “proporcionar conhecimentos básicos”.

Ora, se menos de 9% dos professores apontam a transmissão de conhecimentos básicos como finalidade importante da educação, será de se surpreender que 74% da nossa população, segundo pesquisa recente do Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (Inaf), não é plenamente alfabetizada? Que nosso índice de repetentes na primeira série do ensino fundamental é de 32%, mais de dez vezes o que se vê nos países desenvolvidos e em linha com um punhado das nações mais miseráveis da África? Claro que não. É o esperado.

Quando se fala que a escola tem de ensinar o aluno a ler e escrever e fazer contas, pra começo de conversa, vem o rótulo de “reducionista”. “A educação é muito mais do que isso!” Claro que é. Mas é como um edifício. Pra chegar na cobertura e desfrutar a linda vista, primeiro você precisa construir as bases.

E as bases de uma educação humanista, crítica etc. são as habilidades básicas, como de leitura e aritmética. Sem elas, não há cidadania, nem consciência.

Não há nada além de doutrinamento, de uma tentativa de fazer lavagem cerebral, na maioria das vezes com uma ideologia esquerdista de porta de cadeia, de gente que se diz marxista sem nunca ter lido Marx, que se diz engajada na luta pela igualdade ao mesmo tempo em que detesta dar aula em periferia.

Por que essa obsessão pela construção da cidadania na escola? Não seria uma tarefa de cada indivíduo, junto com sua família e talvez sua fé? Você gostaria que um professor dissesse ao seu filho como ele deve pensar? Eu, certamente, não. E não é porque os pais dos alunos mais pobres se furtam desse papel que o professor deve assumi-lo. Se a escola falha redondamente ao cumprir sua missão mais básica, que credencial ela tem para querer ensinar filosofia de vida?

Não entendo a insistência na tecla da cidadania.

Será por que macaqueamos tudo do exterior, sem nos darmos conta de que a discussão que faz sentido para um país que já equacionou seus problemas educacionais básicos não faz sentido para nação de iletrados? Será que a ênfase num ensino político é apenas uma maneira de disfarçar nossa incompetência técnica, já que ele é totalmente subjetivo e não mensurável? Será por que nossos professores estão tão horrorizados com o caos social do Brasil que se sentem impelidos a fazer algo?

Se este último for o caso, dou uma sugestão: filie-se a partido político ou ONG, mas não traga sua militância para a sala de aula. Se quiser incutir bons valores em seus alunos, dê a eles a capacidade de pensar por si próprios. Daí em diante eles provavelmente chegarão sozinhos ao bom caminho.

Se não chegarem, paciência. É melhor errar pensando do que acertar comandado. O primeiro acaba acertando, e o segundo volta ao estágio zero quando o comando acabar. 



GUSTAVO IOSCHPE


Mestre em desenvolvimento econômico com especialização em economia da educação



desembucha@uol.com.br






 

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