Chute histórico

Se o pontapé inicial da Copa do Mundo 2014 for dado por um paraplégico, o Brasil terá sido o precursor de um avanço científico tão importante quanto a chegada do homem à Lua

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Nem o artilheiro Fred, tampouco o versátil meia Oscar. Muito menos o badalado craque Neymar. Se depender do empenho do cientista brasileiro Miguel Nicolelis, o pontapé inicial do jogo de abertura da Copa do Mundo de 2014, no dia 12 de junho, será o de um brasileiro paraplégico, com lesão medular, que vai caminhar até o centro do campo e realizar o histórico gesto. O feito será possível graças a um exoesqueleto – espécie de veste robótica acoplada ao corpo da pessoa com deficiência – que começará a ser testado no Brasil a partir de dezembro.


O audacioso projeto, batizado de Andar de novo (Walk again, em inglês), já foi definido pela prestigiada revista Scientific American como um dos dez projetos científicos que poderão transformar a humanidade. “Se tudo der certo, vamos mostrar ao mundo que o Brasil também é o país da ciência e tecnologia, capaz de fazer um grande gol na história da humanidade”, declarou Nicolelis, em coletiva à imprensa mundial em junho último. O cientista já é reconhecido nacional e internacinalmente por esse projeto, e por ter rompiodo com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em junho de 2011.
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Cérebro separado
O projeto Andar de novo é resultado de mais de 15 anos de estudo dos sinais cerebrais. Há alguns anos, como fruto desse trabalho, Miguel Nicolelis apresentou ao mundo os conceitos da interface cérebro-máquina. Na ocasião, o cientista anunciou que havia conseguido “separar o cérebro do corpo”, “ligando” o cérebro diretamente a artefatos robóticos externos, que conseguem ler os estímulos elétricos e realizar o movimento desejado. “Tudo o que nosso cérebro faz é produzido por tempestades elétricas. O cérebro cria um programa motor e elétrico e manda para a medula espinhal para permitir que o membro se mexa”, explicou Nicolelis na ocasião.


Os primeiros experimentos da interface cérebro-máquina foram realizados com a macaca Aurora (veja box) e os resultados positivos deram ao cientista a convicção de que o modelo poderia ser aplicado em seres humanos. Os testes efetua­dos com animais demonstraram que a atividade cerebral pode ser codificada e posteriormente decodificada para comandar o movimento de um aparelho externo –  no caso, o exoesqueleto. “Trata-se agora de ajustes entre a decodificação da atividade elétrica cerebral e aspectos da coordenação motora, de forma que a utilização do aparelho funcione com eficiência”, explicou o neurocientista.


Como a raquete do tenista
As primeiras imagens do exoesqueleto que está sendo construído na Europa, desenhado pelo cientista Gordon Cheng da Universidade Técnica de Munique, na Alemanha, foram divulgadas no início de agosto no Facebook de Miguel Nicolelis. Em setembro, a veste robótica ficou pronta. Em dezembro, os primeiros exoesqueletos devem chegar ao Brasil e começar a serem testados em dez brasileiros paraplégicos. A partir da chegada da estrutura mecânica, o estudo, que envolve cerca de 170 pesquisadores, espalhados por Alemanha, Suíça, Estados Unidos e Brasil, irá agora se concentrar em solo nacional, com intercâmbio de profissionais, interação do sistema e acompanhamento fisioterapêutico dos dez brasileiros que testarão os exoesqueletos, restando cerca de seis meses para a sonhada data da façanha.


Segundo o cientista, os experimentos realizados indicam que o cérebro humano assimila as ferramentas que usamos como parte da representação do corpo. “A experiên­cia com a interface cérebro-máquina sugere que o cérebro passe a incorporar o exoesqueleto como parte do corpo, assim como um bom tenista sente a raquete como extensão de seu braço.”


Miguel Nicolelis é professor titular de Neurobiologia e codiretor do Centro de Neuroengenharia da Duke University, nos Estados Unidos, e fundador e coordenador do Instituto Internacional de Neurociência de Natal – Edmond e Lily Safra, em Macaíba, Rio Grande do Norte. À frente do projeto Andar de novo, atua em cooperação com pesquisadores não só da área da neurociência, como também da robótica, engenharia eletrônica, ciência da computação e reabilitação motora. “Temos cientistas do mundo todo para que essa colaboração dê certo e todos já sentem a mesma emoção. Um estádio com 60 mil pessoas que verão ao vivo. Isso é algo muito poderoso”, afirmou Nicolelis à imprensa mundial.


O fator Macaíba
A participação do Brasil no projeto, por meio do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (RN), costuma ser exaltada por Nicolelis. O instituto é, de certa forma, a “menina dos olhos” do cientista brasileiro. A começar pela escolha do local: Macaíba é um dos municípios brasileiros com o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil. Ao escolher a cidade, Nicolelis quer mostrar que é possível fazer ciência, e formar cientistas de ponta, num dos lugares mais pobres do país, basta que eles tenham oportunidade de estudo.


Funcionando como um projeto educativo-social envolvendo crianças e adolescentes da cidade da periferia de Natal, o Instituto forma os jovens desde os primeiros anos da escola até o final do curso médio. Segundo pesquisas do Ministério da Educação, o curso de iniciação científica do Instituto tem uma evasão de 2%; muito abaixo dos 56% do ensino público no Brasil.


Ainda assim, apesar dos resultados positivos, o Instituto não é unanimidade entre a classe científica brasileira. “Nós tivemos pessoas no Brasil que questionaram o fato de o país tentar fazer parte de um projeto como este. Uma visão que eu acho equivocada”, defendeu Nicolelis, em recente entrevista para a agência de notícias alemã Deutsche Welle.


Na opinião do neurocientista, o Brasil atualmente está inserido no mercado internacional de ciência e, para avançar mais, é preciso se envolver com projetos ambiciosos. “Se você nunca sonhar alto, nunca vai mudar de nível”, declarou. Ele defende que projetos como o Andar de novo são importantes na divulgação da ciência e em mostrar o que ela pode fazer pela humanidade. “As pessoas que criticaram o investimento público do governo federal no projeto também não sabem que, em todo mundo, são os governos que investem em ciência abstrata e aplicações iniciais.”


Ciência como inclusão
Desde que começou a pesquisar as possibilidades da interface cérebro-máquina, o neurocientista brasileiro vislumbra nas aplicações práticas das descobertas a capacidade de incluir socialmente pe­ssoas com deficiência de locomoção, entre outras deficiências físicas. Ele destaca que o exoesqueleto poderá ser adaptado a diversos tipos de lesão. Segundo Nicolelis, há no mundo cerca de 20 milhões de pessoas que sofrem de algum tipo de paralisia causada por lesão medular. Ele pondera que o Andar de novo é um projeto global que traz para o Brasil novas e avançadas tecnologias, além de formar e desenvolver pesquisadores. Embora mostre otimismo, o cientista reconhece a complexidade do projeto e diz ser impossível afirmar com certeza que tudo estará pronto até o jogo de abertura da Copa de 2014. Apesar disso, diz que não trabalha com outra hipótese.


No futuro, ele almeja ver as vestes robóticas disponíveis ao público, permitindo que as pessoas tenham acesso à nova tecnologia e possam usufruir de seu benefício. “São tecnologias inéditas, um grau revolucionário de reabilitação. São articulações do exoesqueleto e todas controladas por diferentes sinais biológicos dependendo da lesão da medula espinhal”, explica. Nicolelis afirma que a imagem da ciência brasileira ganhou destaque nos últimos anos e que atingir a meta de fazer um paraplégico dar o pontapé inicial da próxima Copa do Mundo mostrará que a ciência pode ser um instrumento de inclusão.








O caso Aurora


A interface cérebro-máquina que pode revolucionar o tratamento de pessoas paraplégicas e com outras deficiências motoras teve como pioneira a macaca Aurora. Através da conexão entre o cérebro do animal e um braço robótico, a macaca pôde movimentar o braço mecânico ao responder a estímulos de uma espécie de videogame instalado num monitor à sua frente, enquanto seus verdadeiros braços permaneciam imobilizados. Aurora imaginava o movimento e a interface codificava os estímulos elétricos-cerebrais. Dessa forma, o braço robótico foi assimilado pela macaca, expandindo então a possibilidade de que o mesmo possa ser feito por seres humanos. 


O que poderia parecer impossível agora pode estar perto de tornar realidade – ler a intenção motora de um paciente usando técnicas computacionais e de engenharia microeletrônica e decodificar suas intenções de movimento com uma veste robótica ou com o exoesqueleto. Como se não bastasse, os cientistas já cogitam o uso de emitir sinais elétricos a distância, sem fio. A prima da macaca Aurora, Cherry, por exemplo, passou pelo mesmo experimento do videogame só que numa conexão cérebro-máquina wi-fi.

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