Choque de gerações

Lidar com os aparatos tecnológicos que fazem parte do cotidiano dos alunos é o grande desafio para os educadores.

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As novas tecnologias de comunicação e informação chegaram à escola para ficar – ninguém duvida disso –, seja para o bem ou para o mal. E uma questão se impõe aos educadores: como a escola irá redefinir sua função frente a esta nova realidade?


É cada vez maior a demanda por educadores preparados para dominar tecnologias que evoluem a cada dia, capacitados para desenvolver em seus alunos a necessária visão crítica diante da velocidade e do excesso de informações. Estariam eles prontos para esta tarefa?


A escola e os educadores, para darem conta dos aparatos tecnológicos, têm de partir do princípio de que não podem concorrer com eles. Esta é a opinião do professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo Adilson Citelli e de um grupo de pesquisadoras em tecnologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).


Segundo avaliação de Citelli, ao que parece há uma idéia generalizada de que vivemos numa sociedade com informação demais. E os educadores não sabem o que fazer diante dessa realidade. “Não acho que há excesso de informação. Os dados de que dispomos hoje – e sempre foi assim – são compatíveis com um determinado nível de desenvolvimento de nossa história e de nossa sociedade”, argumenta. “Eu prefiro, sim, trabalhar com o conceito de discernimento. Até onde nós ativamos esses conceitos diante das informações que recebemos?”


Para ele, não há de se ter medo da informação oferecida pelo “excesso” de aparato tecnológico do nosso tempo – “devemos é ter medo da dificuldade de discernir a informação de qualidade”, aponta. Esse discernimento de que fala Citelli se adquire com educação – por isso entenda-se não necessariamente apenas a escola formal. Mas ele ressalta que escola é lugar de produção de conhecimento que deve passar por esse crivo do discernimento.


Os professores, diz Lucila Pesce, docente do curso de Tecnologias e Mídias Digitais da PUC-SP e integrante do grupo de trabalho na área, devem, necessariamente, se colocar também como usuários desse aparato tecnológico que tanto os aflige na relação com o aluno. “Eles têm de fazer uma transposição didática dessa realidade e com isso vão necessariamente sair da linearidade para uma outra construção, em rede, com acesso a várias fontes de informação, como acontece com os jovens hoje”, explica.


O medo de que o aluno apresente uma tarefa totalmente copiada da internet deve, na visão desses educadores, ser colocado a favor do professor. “Esse ato de copiar sempre existiu – se hoje ele copia de um site, antes copiava da enciclopédia. O interessante é refletir sobre o que fazer diante dessa situação. Que tal propor então ao aluno uma síntese, uma resenha talvez, de tudo o que ele copiou?”, sugere Lucila.



Culpa da tecnologia


Para Adriana Bruno, que junto com Lucila e mais outras três professoras da PUC-SP – Maristela Sarmento, Ana Maria Hessel e Maria da Graça da Silva – faz parte do mesmo grupo de trabalho na universidade, isso só denuncia uma realidade presente na escola. “Dentro do processo histórico, o copiar e colar sempre aconteceu. Mas hoje leva o professor repensar o que faz na sala de aula. Ora, um trabalho copiado precisa de análise crítica, reflexão”, assegura.


O grupo também oferece formação a professores na área de educação a distância e Adriana relata que essa queixa é comum entre os docentes. “Nosso papel é ajudar professores a perceber essas questões, a mudança é postural, não é a tecnologia que vai mudar a atitude do professor na sala de aula. Aparato tecnológico existe faz tempo, em certa medida. 


Ana Hessel, Maria da Graça da Silva, Lucila Pesce e Adriana Bruno: papel de ajudar os professores a perceber que a mudança é de postura


O maior envolvimento dos jovens com isso vem talvez só explicitar uma realidade”, afirma Adriana. Segundo ela, é comum as pessoas culparem a tecnologia por uma série de comportamentos que identificam como sendo nocivos, ou prejudiciais. “Se nas famílias não se conversa mais, é culpa da tecnologia. Se o ambiente de educação a distância é frio, a culpa é da tecnologia, se o aluno copia e cola da internet, idem, e por aí vai. Nosso trabalho pretende mostrar que não é exatamente assim. As pessoas têm responsabilidade sobre essas situações.”


Aos educadores que temem perder sua função por conta do maior aparato tecnológico nas instituições de ensino – uma queixa bastante comum, segundo as professoras da PUC-SP – a professora Ana Maria Hessel diz que é necessário estimular uma reflexão sobre o significado da escola. “Ela tem de rever seus desafios, que é trabalhar o conhecimento também, não só a informação. Esta é farta, veloz, e isso se reflete direto nos nossos alunos. Eles vivem o imediato, estão envolvidos em um pragmatismo diferente do nosso. E nós, professores, nos sentimos imobilizados para atender a essas demandas.”


O pesquisador Citelli, da USP, lembra que a tecnologia tem um papel, a escola, outro. “A internet, por exemplo, não vai sistematizar, normatizar ou hierarquizar nenhuma informação para ninguém. Isso é papel da escola”. E, no seu entender, escola e meios de comunicação e informação devem e precisam encontrar sintonias dialógicas. “Este é o ponto”, frisa.


Lucila Pesce partilha da mesma idéia. Para ela, a escola tem o papel de fazer o contraponto com a tecnologia, ou melhor, com o talvez excesso de aparatos tecnológicos em nosso dia-a-dia, ao lado de outras instâncias sociais. “O cinema cult tem sua importância social, em contraponto à indústria cultural da banalização, da massificação”, exemplifica. Embora, diga, há muita gente que não gosta desse tipo de filme – o que só reforça que ele ocupa um espaço relevante. A escola, acredita a pesquisadora, também tem de desempenhar esse papel, para não ir a reboque da sociedade sem fazer sua reflexão, sem oferecer uma visão crítica a respeito desse tema tão presente na vida de todos.


Maria da Graça da Silva, também da PUC-SP, observa que o aluno de hoje, especialmente dos grandes centros urbanos, é diferente do de 20 anos atrás. E o diferencial, chama atenção, está justamente na questão da tecnologia. Esse jovem, diz a professora, vive no contexto da tecnologia de qualquer forma – “não só pelo contato com ela, pois isso nós também temos, mas por conta de sua leitura de mundo, que é diferente, porque eles, os jovens, têm vivências diferentes –navegam na internet, têm celular, estão com o mundo constantemente conectado, mergulhados nos videogames, no Orkut. Esse aluno mudou, não aceita mais passivamente qualquer informação que o professor ofereça”, afirma. Segundo Maria da Graça, muitas vezes o professor está fora dessa realidade, ou não tão inserido como o aluno, e por isso entram em choque.


“É claro que não podemos esperar ter hoje um estudante como aquele do tempo em que a informação demorava dias para atravessar o Atlântico”, brinca Citelli. Atualmente, os docentes têm de saber ainda como lidar com um aluno que é também autor, e esse é um dado novo importante. Ele produz fotos, textos e filmes com muito mais facilidade e rapidez do que outras gerações, ressalta Maria da Graça.



Mudar é preciso


Já Maristela Sarmento, outra professora da PUC-SP, acha que na verdade quem precisa mudar, mais do que os docentes, é a própria instituição escola. “Acho que os professores já mudaram, até porque eles têm, na sua vida pessoal, convivência com tudo isso, com todo esse aparato tecnológico no dia a dia, e não têm como fugir. O que não mudou é a instituição escola, pois não conseguiu alterar sua estrutura. Tudo o que entra sobre tecnologia nas escolas ainda entra perifericamente”, polemiza.


Na avaliação de Maristela, falta às escolas incorporar a tecnologia a uma estrutura curricular e organizativa. “Ela só foi incorporada nas questões administrativas”, observa. Do ponto de vista da organização do currículo, não. “As escolas se organizam com salas de informática, por exemplo, ou com uma área que toma conta da ‘tecnologia’ e da informática. Mas isso não está em sua estrutura. Diante de um aluno que estabelece com o mundo fortes relações virtuais, a escola precisa avaliar como isso impacta o próprio desenho de seu currículo”, pondera.




 


Zélia Cavalcanti: cabe aos professores entender esse mundo de novas tecnologias e tomálo a seu favor


Lucila vai um pouco além e discute o conceito de inclusão digital. De acordo com ela, é importante estar alerta para não banalizar o seu sentido. “O professor não tem de procurar, para agradar ao aluno, fazer da aula um espetáculo tecnológico e só oferecer textos curtos, pois essa é a linguagem da internet e ele não se interessa por outra. Ora, nem todo aprendizado tem de passar necessariamente pelo prazer e o jovem estudante tem de estar consciente disso”, avisa.


No seu entender, é importante repensar também a que preço se promove essa inclusão digital, o que isso significa. “Se não fizermos isso, corremos o risco de criar uma sociedade de ‘infoalienados’”, provoca.


E chama para algumas reflexões que considera fundamentais: “Qual o sentido da proficiência tecnológica? E em termos de consistência crítica, o que fazer com todo esse acesso à informação? Como mobilizo todos esses saberes para me construir cada vez mais enquanto cidadão?” Ela ressalta que não necessariamente a inclusão digital pura e simples contempla todos esses aspectos.

Para que não “briguem” entre si, educação e tecnologia, ao que parece, têm de caminhar juntas. Não se trata de fazer da tecnologia, como insistem algumas instituições de ensino, segundo os especialistas, um apêndice. “Nós temos hoje computadores em boa parte das escolas e professores capacitados para entender e pensar a tecnologia. Agora, é importante, para que tudo isso se articule, que a gente tenha políticas que institucionalizem essa incorporação da tecnologia no dia-a-dia da escola, caminhando junto”, afirma Maria da Graça.


Mas as pesquisadoras estão longe de ver a situação com pessimismo. Nas escolas que atendem, para formação de professores, afirmam elas, as mudanças já começam a ser sentidas. “Acho que as instituições de ensino passaram por uma crise por conta desse aparato tecnológico, da concorrência que isso significava para elas, entre outras questões”, diz Adriana.

Atualmente, prossegue, é possível perceber que existem movimentos no sentido de buscar um outro significado para a escola. “Acho que os cursos oferecidos aos professores estão caminhando nessa direção. Claro que é um trabalho que leva muito tempo, mas há progressos, como a própria visão do professor da escola em relação à tecnologia, que está avançado”, afirma. Para Adriana, ainda não vivemos uma situação ideal, mas o debate foi lançado.



Instrumento de trabalho


Em São Paulo, Zélia Cavalcanti, diretora do Centro de Estudos da Escola da Vila (CEEV), que capacita professores das redes pública e privada de escolas de todo o Brasil, afirma: “Na Escola da Vila a informática é hoje uma aliada, instrumento de trabalho para professores e alunos, usado como local de pesquisa e de publicação de trabalhos. Isso foi possível a partir do momento em que integramos o mundo digital ao cotidiano da escola, tornando-o disponível através da construção de um espaço virtual (o domínio Vila), que oferece e-mail a todos os funcionários e espaços de armazenamento e publicação de documentos para a equipe pedagógica”.


Este é um dos aspectos da questão. Mas como reage o professor diante dessa proposta da escola? “Hoje, entre nós, a utilização do espaço virtual para o trabalho em equipe é um fato, não é uma escolha. Nosso professor tem de se integrar a essa realidade, que é também a realidade do aluno e para a qual ele precisa ser educado. O que fazemos, tanto internamente quanto nas atividades realizadas pelo CEEV, é procurar formas de incentivar os professores a se abrirem para a tecnologia digital, usar a internet, seja buscando informações úteis ao desenvolvimento profissional, seja participando de atividades on-line, entre outras formas possíveis. Por exemplo, todos os comunicados da escola e do CEEV para os professores chegam por e-mail”, informa Zélia.


Mas ela observa que ainda há resistência dos professores em geral, embora não consciente. “Acho que os professores resistem porque não se dedicam a aprender a usar essa ferramenta tão potente de comunicação. Talvez seja uma manifestação de resistência à mudança da cultura profissional.” A diretora cita também a comunidade de aprendizagem do CEEV, que tem um site com uma área de textos e de trocas de experiência. “É sintomático termos um fórum e poucos se animarem a participar.”

O fato é que as visões diferentes de mundo entre professores e alunos criam um certo distanciamento que cabe ao educador superar. Para Zélia, um dos graves problemas desse mundo virtual é a dificuldade dos jovens de perceber os limites entre o público e o privado. “Estes limites quase passam a não existir. Trabalhamos com os professores para que realizem ações no sentido de mostrar aos alunos que os limites devem existir e são necessários.” E algumas dessas ações já se fazem sentir. 

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