Chega de “mais”, precisamos de “melhor”

O problema não é de atendimento, mas de continuidade, que só vem com a qualidade

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O Brasil já venceu a inflação monetária, mas a educacional ainda grassa firme. É preciso construir mais escolas, formar mais professores, comprar mais computadores, criar mais universidades, adicionar mais um ano ao ensino fundamental (que até hoje ninguém conseguiu me explicar pra que vai servir), aumentar o escopo do Fundef, injetar mais dinheiro no Fundeb, colocar mais professores nas salas de aula.



Sem falar na batalha pelos recursos. Primeiro, era a luta pra vincular os gastos com a educação à despesa governamental. Depois, por vinculação maior. Já que não há dinheiro no orçamento, a luta que surge agora é pela transformação da dívida externa em recursos para a educação. Mais, mais, mais! Com mais leis, escolas, professores e dinheiro, melhorou a educação brasileira? Não. Os resultados nas avaliações só pioram, e a porcentagem da população que chega às universidades permanece estável.



Essa visão vem da premissa de que a falta de dinheiro explica o baixo número de alunos nos níveis médio e superior. Essa idéia é absolutamente falsa. Os países mais ricos e industrializados do mundo gastam o equivalente ao valor do seu PIB
per capita

por aluno, desde o pré-primário ao ensino superior. A Argentina, 81%. O Uruguai, 67%. O Chile, 133%. Israel, 118%. São todos países com sistemas educacionais bem melhores que o brasileiro. E o Brasil, quanto gasta? 204% do PIB
per capita

por aluno! Só perdemos da Jamaica, esse portento, que gasta 266%.




Hoje, o Brasil coloca quase 100% de suas crianças na primeira série. Então, o problema não é de atendimento, mas de continuidade. E continuidade vem com qualidade. A primeira série diz tudo: quase um terço de nossos alunos repetem esse ano. E quando o aluno repete, não é porque ele é burro, é porque a escola falhou. Com essa qualidade pífia, ele vai repetindo, progredindo aos trancos e barrancos, até que abandona a escola. Aí o leitor bem-intencionado pergunta: mas o dinheiro não ajuda na qualidade? Não dá pra se querer mais qualidade e ao mesmo tempo mais recursos?





Acabei de concluir um estudo pro MEC sobre financiamento internacional da educação. O que ficou claro ali, estatisticamente demonstrado, é que o volume de recursos aplicados na educação não tem – repito, NÃO tem – relação significativa com sua qualidade presente ou melhora futura. Não quer dizer que faça mal, claro, e certamente pode fazer bem, mas não resolve nada sozinho. E quanto mais eu acompanho a discussão sobre política educacional no Brasil, mais eu me convenço de que as lutas pelo “mais” e pelo “melhor” são, sim, excludentes.




Porque enquanto a pessoa (aliás, o sistema) acredita que o problema é falta de recursos, ela se despreocupa em melhorar o que já está ali. E o grande problema da batalha pelo “mais” é que ela é infinita: hoje a gente acha que precisa vincular mais de 25% do orçamento pra gastos em educação. Se vincularem 30% e a educação não melhorar, então vão se convencer que precisa ser 35%. E assim por diante. Essa obsessão pelo “mais” deixou de fazer sentido quando colocamos quase todas as crianças de 7 anos na escola. Agora, temos de fazer com que elas fiquem. E pra que fiquem, têm de aprender. Professores, é com vocês!

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