Chalita e seus irmãos

O ex-secretário é tão-somente a ponta do iceberg neomoralista que vem de encontro às conquistas democráticas da educação brasileira

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A despeito de sua insólita passagem pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, Gabriel Chalita parece ter conquistado definitivamente seu quinhão ao sol editorial. Mais ainda, ele vem se firmando como um arrojado e bem-sucedido representante da aguerrida linhagem de "especialistas" devotados à auto-ajuda, agora direcionada ao campo educacional – essa fatia potencialmente fértil do mercado consumidor, dadas sua grandeza numérica e fragilidade ético-política.


A estratégia por eles empregada é tão trivial quanto infalível: o apelo messiânico com vistas à redenção individual diante de contextos sociais em desgraça, o que incluiria o sofrível domínio escolar. Trocando em miúdos: salve-se quem puder.


Dentre dezenas de títulos intrigantes da lavra do ex-secretário, um dos últimos se destaca: Educar em Oração. Nele, o leitor deparará com um empreendimento inimaginável: três preces destinadas, respectivamente, aos professores desempregados, aposentados e em exercício. Ali, porém, não consta nenhuma oração dedicada aos professores subempregados e suas claudicantes condições de trabalho. O ex-ocupante do mais alto posto da educação paulista nada tem a declarar sobre o assunto. Ou melhor, tem.


Com ele, aprendemos que seria possível superar a baixíssima qualidade do ensino brasileiro por meio de um modelo de conduta profissional baseado em um tal "afeto pedagógico", agora alçado à condição de pedra de toque do projeto educativo nacional. Ciências, artes e humanidades, para quê? Os pobres precisam mesmo é de pão, circo e alguma doçura.


A reboque da queixa generalizada de uma tal "perda de valores", a cantilena pedagógica agora se volta para a inculcação moral junto às crianças e jovens das camadas populares. Já não importa difundir o legado racional, mas "resgatar" valores supostamente solapados pelos novos tempos. Daí a silenciosa cooptação das práticas pedagógicas pelo discurso religioso – signo máximo do abandono do projeto de uma educação democrática para as massas.


O saldo calculado de tal investida é a deterioração crescente tanto da capacidade intelectiva do alunado quanto da dignidade profissional dos professores, tornados serviçais de forças conservadoras que eles próprios já não conseguem reconhecer, quanto mais delas se defender. 

Tempos traiçoeiros estes em que o atributo "laico" já nem sequer parece tomar parte do léxico educativo. É vocábulo supérfluo, de luxo. Pior: declarar-se contra a influência religiosa sobre os serviços ligados à educação tem se tornado sinônimo de intolerância, autoritarismo, heresia democrática enfim.

Chalita e seus irmãos são a ponta do iceberg neomoralista que vem de encontro às conquistas da educação brasileira nas últimas décadas. Um pesadelo interminável, cujos efeitos apenas a lucidez da vigília constante pode dissipar.


Julio Groppa Aquino

Professor da Faculdade de Educação da USP



julio.groppa@editorasegmento.com.br

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