Cérebro em construção

É na adolescência que os jovens aumentam sua capacidade de concentração e o tempo de atenção que dedicam a atividades cognitivas

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O cérebro dos adolescentes ainda se encontra em formação, com a criação de novas conexões e redes neurais funcionais, e só atingirá a maturidade por volta dos 21 anos. Esse é um período de grande importância para que os jovens aumentem sua capacidade de concentração e o tempo de atenção que dedicam a atividades cognitivas.

"É na adolescência que as relações entre as regiões sub-corticais ligadas ao processamento atencional tornam-se mais estreitas e consistentes.  A maturação do span atencional (período de atenção) depende da maturação do cérebro e das conexões construídas através do aprendizado", explica a neuropsicóloga Mariana Mattos.

A região que tem maior atividade metabólica e expansão nessa fase é a pré-frontal, onde se processam funções de planejamento e organização de tarefas. Curiosamente, uma das atividades apontadas por neurologistas como benéfica para desenvolvimento cognitivo é o videogame, tido por muitos pais e educadores como um dos grandes vilões comportamentais contemporâneos.

"Os jogos treinam habilidades como desengajamento e mudança ou movimento atencional dos sistemas automático e voluntário. Mas o engajamento e atenção sustentada não são igualmente estimulados. Quem joga fica expert em mudar o foco da atenção e ineficiente para se engajar nas tarefas e sustentar a atenção por tempos maiores", diz Mariana. Ela ressalva que o maior problema é o tempo que as crianças despendem nesse tipo de atividade e a pouca variedade das modalidades atencionais que os jogos estimulam.

A TV, no entanto, é mais problemática, especialmente para crianças na primeira infância (0 a 7 anos). O excesso de estímulos visuais e auditivos captura o sistema automático de atenção e o controle interno da criança sobre o que faz fica prejudicado.
Para a psicopedagoga Quézia Bombonatto, que tem estudado os processos de cognição, os adolescentes de hoje têm maior capacidade de trabalhar com questões mais gerais, apresentando melhor visão de conjunto. Em compensação, têm menos habilidade para a construção de um conceito, com foco, para fazer um recorte mais profundo sobre qualquer assunto.

A psicóloga Rosely Sayão credita à valorização de habilidades e competências, idéia importada do mundo do trabalho, a formação que acredita ser generalista demais. "Todo mundo sai da escola sabendo nada de quase tudo. A norma culta da língua portuguesa, por exemplo, não é ensinada direito na escola. É uma loucura o que se está fazendo com o conhecimento, um patrimônio humano acumulado com tanto esforço", diz.

O uso da linguagem simplificada dos programas de bate-papo na internet é apontado por Quézia, especialmente no caso de crianças que ainda não terminaram seu ciclo de alfabetização, como um complicador para o aprendizado da língua. "A percepção e a memória visuais constroem o processo de assimilação da linguagem. Crianças pequenas expostas a isso podem perpetuar o erro", alerta.

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