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Projeto abre as portas de instituições de ensino superior na Alemanha, Áustria e Suíça a alunos de 8 a 12 anos

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Algo inusitado ocorre nas universidades alemãs. Tradicionais monólogos professorais, as aulas em auditórios de até 500 lugares abrigam agora um público atento, que às vezes grita de entusiasmo; em outros momentos, lacrimeja de emoção. No final dos 45 minutos regulamentares, um enxame de participantes cerca o professor e continua fazendo perguntas, eventualmente pedindo autógrafo. Do lado de fora, mais pessoas acotovelam-se diante das telas de TV, que transmitem em circuito fechado o que acontece no auditório.

A novidade chama-se
Universidade das Crianças

, projeto que abre as portas de instituições de ensino superior a crianças de 8 a 12 anos. Iniciada em 2002 em Tübingen pela universidade local e o jornal regional
Schwäbisches Tagesblatt

, a idéia se espalhou pela Alemanha, Áustria e Suíça. Hoje, são mais de 70 centros universitários nesses países que oferecem aulas, a título demonstrativo, para estudantes de ensino básico.

Quarta-feira, 30 de março de 2005. São 15 horas. O auditório da Universidade de Rostock, à beira do mar Báltico, na fronteira com a Polônia e a Dinamarca, está cheio. Faz mais de uma hora que 600 crianças esperam impacientes pelo início da aula do professor Alfred Flint. Ele vai proferir a palestra “Por que pó efervescente sobe como um foguete?”. Há algo de irreal no ambiente: crianças sentadas em poltronas muito largas e altas, luzes amareladas as tornam mais velhas, vozes infantis enchem o ar com tons agudos e agitados.

“Eu sei, é um ácido”, diz um garoto. “Sei lá, só sei que solta burbulhas”, responde uma menina. Meia hora depois, fica claro que ambos têm razão. Assim que uma assistente do professor coloca um pó efervescente numa proveta com água, estouram as bolhas. As crianças batem palmas entusiasmadas. “É dióxido de carbono”, anuncia Alfred Flint. Logo traduz para gás carbônico, mistura de bicarbonato de sódio, ácido e água. O espetáculo maior fica para o final. A assistente põe água numa garrafa de plástico cheia com o pó efervescente e rapidamente fecha a tampa. A garrafa sobe quase até o teto do auditório. “Ooooooh”, exclamam as crianças.










 Alunos na Universidade de

Tübingen, na Alemanha


Dois meses depois da aula, o menino Malte Thesenvitz, 8 anos, fala como se ainda estivesse acompanhando a curva da garrafa que virou foguete. Detalhista, esse aluno da 2ª série de uma escola pública descreve com precisão. “O foguete voou uns cinco metros de altura. Foi bonito ver como subiu perto do quadro negro. Deu para perceber que foi o que estava dentro da garrafa que deu energia ao foguete para voar. Ver uma coisa dessas é legal. Pena que foi muito rápido”.

Helena Scheimann, 12 anos, assistiu à mesma aula. Aluna da 6ª série de escola pública, já compara e tira conclusões lógicas.”Na escola não se faz nenhum tipo de experimento como na universidade. Seria muito legal se a gente tivesse algo parecido na nossa escola. A nossa professora de física também explicou como o professor da universidade, mas com o experimento é muito melhor porque então vemos o que acontece”.

Pai de Malte, Sven Thesenvitz elogia a Universidade das Crianças. “Meu filho voltou para casa muito entusiasmado. Ele ficou empolgado, porque percebeu o que se estava ensinando”, diz. Diretor de projetos de uma construtora de sistemas de refrigeração em residências e escritórios, ele critica o ensino público alemão. “É diferente quando ele vem da escola, onde a aula é muito abstrata. Na escola não falamos com os professores sobre a aulas na universidade. Nem mesmo na reunião de pais. Acho que nem adianta tocar no tema, porque os professores não vão querer mudar o método de ensino após 30 anos de experiência pedagógica”.

Linda Metz, 8 anos, já assistiu a duas aulas na Universidade de Tübingen, no sul da Alemanha, perto da fronteira com a Suíça. Ela ficou muito impressionada com o tema. “Por que é possível ler os pensamentos?”, apresentado pelo professor Nils Birbaumer, de Psicologia Médica. Aluna da 2ª série, ela descreve seu processo interior pouco antes do início da aula. “Chamei vários coleguinhas da escola para irmos juntos, mas ninguém tinha tempo. Mesmo antes de entrar no auditório, eu já estava pensando como é que dá para ler pensamentos. Enquanto eu esperava no auditório, não fiquei com medo por estar sozinha porque continuei pensando nisso, do mesmo jeito que quando leio o meu livro preferido,
Sams

, e fico imaginando outras historinhas”.

Birbaumer pesquisa na universidade como seria possível comunicar-se com pessoas que não podem expressar-se nem movimentar o próprio corpo. Tímida ao falar com estranhos, Linda só conta o ambiente geral. “O professor mostrou fotos e explicou tudo de um jeito que as crianças entenderam. Foi muito legal, quero ir de novo”. Sua mãe, Christina Lautenbach, confirma que “Linda voltou transformada para casa, seus olhinhos brilhavam e perguntou muito a respeito do tema. Em geral, ela fala pouco sobre a escola, talvez porque a acha chata”.

A mãe de Malte, a engenheira naval Gudrun Thesenvitz, teve uma experiência mais direta e profunda. Ela foi um dos 300 adultos que ficaram numa sala próxima ao auditório, assistindo às aulas pelo circuito fechado de TV da Universidade de Rostock. “Eu mesma aprendi coisas novas. Não sabia o porquê do pó efervescente gerar as reações mostradas no auditório. No carro, voltando para casa, falamos muito a respeito dos experimentos. Malte ficou impressionadíssimo. Eu me senti mais próximo ao meu filho. Cada vez que vemos algo parecido na TV, ele fala a respeito da experiência na universidade. “

Filho de pais com curso superior, Malte já queria conhecer a universidade. “Agora, ele mesmo esteve lá, assistiu a uma aula, viu que tem que prestar atenção para poder aprender e que os alunos não batem palmas quando termina a aula, mas simplesmente batem com os punhos fechados na mesa”, explica Gudrun. Há garotos que vão além e pedem autógrafos aos professores, como se eles fossem artistas ou políticos.

Os professores também aprendem na Universidade das Crianças. Mesmo a preparação da aula para os meninos é diferente. Hans Ulrich Schnitzler, professor de Zoologia em Tübingen, admite que não foi fácil. “Precisei aprender coisas novas para dar aulas de 45 minutos para centenas de meninos. Só para a escolha do assunto falei com várias crianças, inclusive com meu neto, e coloquei quatro temas para que elas elegessem o que achavam mais quente. Depois, treinei várias vezes, até me sentir à vontade”.

Schnitzler preparou um filme e uma apresentação em Power Point de 20 telas para o tema “Por que os morcegos vêem com os ouvidos?”. Acertadamente, ele identificou que o maior problema seria retomar a aula depois de cada situação engraçada ou comentário inesperado. Para conquistar os ouvidos dos alunos, decidiu apelar para os olhos. No início da aula, Schnitzler explicou que os morcegos precisam de absoluto silêncio, senão não conseguem se orientar em vôo. E mostrou um cartaz com um morcego preto desenhado num fundo vermelho. Assim, cada vez que o barulho era insuportável, ele levantava o cartaz e um silêncio de morcego reinava novamente.

Hartmut Möller deu a aula “Cuco, por que você está triste hoje? ” em Rostock. Ele enfrentou a dispersão infantil com um conjunto de atividades que não usa com os universitários. Primeiro, exibiu um filme que mostrava como os camelos lacrimejam ao ouvir um violino em bemol. Depois, quando um grupo de 17 estudantes da Faculdade de Música tocou violino no mesmo semitom, muitas crianças choraram. O mesmo trecho em sustenido soltou gritos de alegria.”Dar aulas para crianças é viver uma roda-viva de sensações: tem o momento do silêncio, da bagunça, da participação, da desatenção, da alegria, da tristeza. A música é como a criança, vive de e para os sentimentos”.

A coordenadora da Universidade da Criança em Rostock, Birgit Krumpholz, acredita que a instituição ganha muito com o intercâmbio. “As crianças podem trazer agora, com muitos anos de antecedência, os temas que serão trabalhados no futuro. As matérias na universidade poderão ser preparadas de outra forma, as aulas serão diferentes e os estudantes também irão aprender de outra maneira”. Um dos iniciadores da Universidade das Crianças, Michael Seifert, adverte que a iniciativa não é uma reação ao ruim desempenho alemão no Relatório PISA, produzido pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. “Ela não pode reparar os déficits do sistema escolar e, além disso, esta não é tarefa da universidade”, diz ele, que é o chefe da assessoria de imprensa da universidade de Tübingen e já pensa nos temas do próximo semestre.




Reportagem: Salvador Pane Baruja, de Witten (Alemanha)




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