House of Cards: Cartas marcadas

Já virou piada corrente nas redes sociais a comparação entre o cenário político brasileiro e a série House of Cards

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Divulgação
Kevin Spacey, como Frank Underwood: diálogo direto com o espectador em meio a seus jogos de poder

 

Já virou piada corrente nas redes sociais a comparação entre o cenário político brasileiro e a série House of Cards (2013- ), produzida e veiculada pela Netflix. Não que não existam semelhanças entre a trama americana, que acompanha a ascensão de um inescrupuloso político democrata, e o jogo da política no Brasil. Estão lá os conchavos entre os congressistas, as intrigas palacianas, a traição, o arrivismo, o “toma lá, dá cá”, o jornalismo interesseiro, as exigências dos financiadores de campanha. Mas o que mais chama atenção são as constantes reviravoltas que, tanto na série quanto na realidade do Brasil atual, tornam a política um terreno imprevisível.

Atribui-se ao banqueiro e político mineiro Magalhães Pinto, um dos artífices do golpe militar de 1964, a seguinte frase: “Política é como nuvem: você olha e ela está de um jeito, olha de novo e ela já mudou”. Atualmente na quarta temporada, House of Cards tem o mérito de traçar esses desenhos no céu como poucas produções foram capazes de fazer. O personagem principal da série é Frank Underwood (Kevin Spacey), um obstinado deputado democrata que, ao longo de mais de 40 episódios, convence, engana, trapaceia e elimina adversários, aliados e jornalistas em seu caminho para o poder, com o apoio quase incondicional da mulher, Claire (Robin Wright).

Os diálogos afinados e a narrativa ágil têm seu ponto alto na primeira temporada, quando as relações entre poder e imprensa são desnudadas de maneira didática. A série também inova ao quebrar a chamada quarta parede do teatro, nos momentos em que Underwood se dirige diretamente à câmera, fazendo do telespectador um cúmplice de suas negociatas. Mesmo que a audiência não “torça” pelo protagonista, ela não resiste a enxergar o movimento das nuvens no céu pelo buraco da fechadura.

Streaming
House of Cards é a primeira produção original da Netflix. Lançada em fevereiro de 2013, a série apresentou o modelo inovador de divulgação de conteúdo do serviço de streaming: todos os episódios de cada temporada são liberados na plataforma ao mesmo tempo, ao contrário das séries tradicionais de televisão, que geralmente apresentam um episódio por semana.

Bastidores
O presidente dos EUA é personagem frequente de produções audiovisuais americanas, seja enfrentando terroristas ou combatendo extraterrestres. Numa chave mais realista, a série West Wing: Nos Bastidores do Poder (1999-2006) apresenta o dia a dia do estafe que orbita ao redor do Salão Oval e seu ocupante, um presidente do Partido Democrata. A produção teve sete temporadas.

Descrença
A quarta parede é um conceito originário do teatro. Seria a parede imaginária que divide o espectador da ação ocorrendo à sua frente. “Quebrá-la” significa explicitar ao público que aquilo que se encena é, também, ficção – um recurso utilizado no cinema e na televisão para criar uma ambiguidade dentro da narrativa. Pode tanto aproximar quanto afastar a audiência.


FILMOTECA

Narrativas políticas
Poder, Estado, jornalismo e a vida comum dos cidadãos se entrelaçam nessa seleção de filmes dos EUA, Brasil e Itália, com diferentes matizes em relação à abordagem de fatos reais.

Todos os homens do presidente (1976)
Talvez o filme mais importante sobre jornalismo e política. Dirigido por Alan J. Pakula, acompanha os detalhes da investigação de dois repórteres do jornal The Washington Post (Robert Redford e Dustin Hoffman) no escândalo conhecido como Watergate, que levou à renúncia de Richard Nixon da presidência dos EUA, em 1974.

Bom dia, noite (2003)
Marco Bellocchio conta a história do sequestro e morte do ex-primeiro-ministro italiano Aldo Moro pelo grupo extremista Brigada Vermelha em 1978, episódio que marcou profundamente aquele país. A narrativa se concentra na figura de Chiara (Maya Sansa), do grupo de sequestradores, dividida entre sua vida cotidiana e a tarefa de cuidar do refém.

O crocodilo (2006)
O diretor italiano Nanni Moretti, de O quarto do filho (2001) e Habemus Papam (2011), faz um filme dentro de um filme sobre a vida do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi. O fio condutor da história é Bruno Bonomo (Silvio Orlando), produtor com problemas financeiros e pessoais que, sem querer, se vê diante da possibilidade de contar a história de Berlusconi.

Terra estrangeira (1996)
Os diretores Walter Salles e Daniela Thomas se valem de um registro em preto e branco granulado e esmaecido para contar a história de Paco (Fernando Alves Pinto), que emigra do Brasil para a Espanha, terra de sua mãe. Misto de romance e suspense, tem como pano de fundo a desesperança e o confisco da poupança durante o governo Collor de Mello.

Entreatos (2004)
Na reta final da campanha de Lula da Silva em 2002, João Moreira Salles acompanhou os bastidores da cúpula petista durante debates, viagens e no dia das eleições em que Lula saiu vitorioso. Hoje, 14 anos depois, é interessante observar, sob a perspectiva do tempo, as ações de nomes como José Dirceu e Duda Mendonça, depois envolvidos em escândalos.

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