Carta para o Padre Vieira

Quiseste pregar aos peixes, enquanto os homens não te quisessem escutar

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Em São Luís do Maranhão, longe da Lisboa onde Santo António havia nascido, quiseste lembrar o “santo casamenteiro”, atribuindo ao sermão proferido nessa data a designação de “Sermão de Santo António aos Peixes”. Estávamos em 13 de junho de 1654. Três dias depois, embarcaste para Portugal, escondido no fundo de uma nau. Estava no auge a luta dos jesuítas contra a escravização dos índios e tu ias procurar apoio no outro lado do mar.


Esse teu sermão é revelador da tua ironia e da capacidade de observação dos vícios dos colonizadores e dos esbirros da Inquisição, que lograste ludibriar recorrendo a alegorias. Jesuíta inteligente e moralista exímio, deitaste mão a metáforas memoráveis, que, se eram ajustadas à crítica dos costumes da sociedade do século XVII, continuam atuais – quiseste pregar aos peixes, enquanto os homens não te quisessem escutar.
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Permite, meu Vieira pregador, que transcreva um excerto do teu primeiro sermão: Pregava Santo António e, como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes.


Este trecho é tão eloquente (e atual!), que qualquer peixe, por menos atento que seja, lhe conferirá significado. Porém, o mesmo não sucede com os homens. A educação brasileira, que, em recuados tempos, sofreu os efeitos da Inquisição, continua cativa de novas inquisições. Se não, repara. reconhecendo que os alunos da escola pública “estão em desvantagem”, se instituiu bonificação de 20% sobre a nota do vestibular, para usufruto dos pobres coitados, que foram objeto de mau trato pedagógico. Acreditas que já são formados professores “especializados em. bullying? E a desigualdade perpetua-se por via de uma tradição hierárquica. Imagina que, nas pobres escolas que ainda temos, existe hierarquia até na hora de urinar, ou defecar. Essas escolas têm banheiro de alunos separado de banheiro de professores. É verdade, isso te asseguro! Presumo que nos lares dos ilustres pedagogos dessas escolas também haja banheiros separados, encimados por dísticos como: “banheiro de papai”, “banheiro de mamãe”, “banheiro de filhos”.


Outro Antônio (o amigo Nóvoa) tem denunciado a “pobreza das práticas”, mas parece que, também, somente os peixes lhe dão ouvidos. Tal como fez o Mestre Agostinho da Silva, outro português no Brasil. Tentava concretizar os teus princípios – que o homem não foi feito para trabalhar, mas para criar e que a vida deve ser gratuita – na Brasília da década de 1960, quando a ditadura o afastou da companhia do Darcy e fez abortar projetos de uma escola humanizada.


Mas fica sabendo, caro Vieira, que o sonho não esmorece. Na mesma Brasília, no mês de novembro, acontecerá um encontro de educadores, que já pensam e fazem a educação necessária. Sei que estarás conosco, em espírito. Requiescat in pace!


*José Pacheco
Educador e escritor, ex–diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)
josepacheco@editorasegmento.com.br

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