Carta para João Cabral

Gostaria de poder dar-te boas notícias da educação, mas essas são poucas

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Prezado João, que nos falavas de quantos morrem sem nunca terem vivido, saiba que ainda se morre no Brasil de morte igual, da mesma morte severina: a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte. Enquanto releio teu desabafo – Escolas são usinas, que engolem gente e vomitam bagaço – medito sobre a cruel atua­lidade das tuas palavras: o que fizemos de meio século de história? Aqui, na Terra, caro João, estão jogando futebol em estádios que custam milhões, enquanto se morre de fome um pouco por dia, porque a morte severina ataca em qualquer idade, e até gente não nascida.


Gostaria de poder dar-te boas notícias da educação, mas essas são poucas. Apenas te darei notícia de professores atentos. Escutemos a Ellen, conversando com os seus alunos sobre o que querem ser:
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Uma boa parte quer ser médica, outra parte quer ser engenheira e não identifiquei algum querendo ser professor. A comunidade na qual se localiza a escola em que trabalho tem altos índices de violência. Descobri que alguns alunos gostariam muito de ser pedreiros. Mas por que sonhar com uma profissão tão árdua e de pouca remuneração? Fiquei sem entender! Até que um daqueles, que sonham em ser pedreiro, teve dó de mim e resolveu explicar o motivo de muitos quererem essa profissão.


Tia, a senhora sabe o que é e o que faz um pedreiro?


Pedreiro é o profissional que trabalha na construção civil. Não deverias tentar ser doutor?


Ele sorriu e respondeu:


Tia, pedreiro é quem vende crack­. Aqui, quem vende mais pedras ganha mais, tem “participação nas vendas”. A senhora não vê alguns alunos com celulares de última geração e cordão da moda?


Neste momento, meu mundo desabou completamente. E, quando se justifica uma ajuda a professores que querem mudar a escola, crê, caro João, se contrata mais polícias e se constrói mais prisões.


Outro João me confidenciou que a diretora da escola o chamou para lhe sugerir que levasse o seu filho para uma escola particular, porque aquela só tinha aluno marginal, aquele aluno que a escola-usina vomita como bagaço, na ignorância de que o marginal regressará, armado de fuzil, ou já cadáver, exibido nos jornais e na TV.


A curiosidade levou-me até à escola dos ditos marginais. Contornei altos muros e dispositivos de proteção. Passei por jardins cobertos de lixo. Desemboquei num pátio repleto de avisos de proibições, entremeados de grades. Olhar inquisidor de uma funcionária fuzilava o visitante. Escutei os gritos de professores, dando aula. Vi jovens alheios à aula, bocejando, usando celular, fones nos ouvidos.


Em pleno século XXI, o da suposta valorização de minorias, num lugar remoto do nosso Brasil, escuto narrativas de culturas destruídas. Como aquela que nos fala de um astrônomo que visita uma aldeia, instala a sua luneta e convida um jovem indígena a espreitar constelações.


Consegues ver a constelação de Escorpião? pergunta o astrônomo.


Não. Eu vejo a da onça – responde o indígena.


Decorridos dois anos, o cientista reencontra o mesmo jovem na universidade. E renova a pergunta: Então, meu jovem, já consegues ver o Escorpião?


O jovem indígena responde: Consigo ver o Escorpião, sim. mas deixei de ver a onça. Houve um dia em que o escorpião matou a onça. E, agora, João?

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