Carta aos meus professores

Nesse Dia dos Professores, perguntamos a diferentes pessoas quem foram os educadores que marcaram a vida delas. Veja abaixo o depoimento da jornalista e autora do blog Educação & Pesquisa

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Sempre gostei de estudar. O castigo que minha mãe me dava quando tinha oito ou nove anos era me proibir de ir à escola. Meu mundo desabava: como ia passar o dia inteiro em casa, sem aprender sobre o movimento bandeirante do século XVI nos bosques do colégio, ver os meus colegas, falar com os professores e tomar uma tubaína na tia do buraco do rato (uma lanchonete perto da escola)? Na escola, encontrava a Lizani, professora de ensino fundamental 1, que me deixou um recado certa vez pedindo para que eu não parasse de estudar nunca. Ou o Laudelino, professor de matemática do ensino fundamental 2, que disse que eu seria uma ótima jornalista um dia. Também falava com a Celia, professora de história de ensino fundamental 2, que ensinava história como se estivesse vivendo tudo naquele momento.


No ensino médio, minha relação com a escola mudou. Tudo se resumia à decoreba e isso me aborrecia demais. Talvez por estar na fase da adolescência, vivia revoltada com o fato de a minha vida se resumir a uma simples prova de vestibular. Por esse motivo, não me esqueço do Carlos Eduardo, professor de literatura que adorava a banda escocesa Belle e Sebastian, fazia provocações extremamente interessantes sobre livros diversos e até me deixou dar aula um dia como assistente. Aquele episódio salvou meu último ano de ensino médio.


Daí para frente, conheci professores que marcaram minha vida de maneiras distintas. Como não falar do Mario, do Igor e do Carlos, que me ensinaram tanto sobre jornalismo na faculdade em tão pouco tempo? Ou do Sérgio, que me adotou como orientanda quando fiz pós-graduação sem me dar aula formalmente e abriu a minha cabeça com o livro do cientista político John Kingdon? Impossível não mencionar meu professor de econometria do mestrado, que me fez perder o medo de matemática aos 28 anos por entender profundamente do assunto e, ao mesmo tempo, falar sobre ele como se tudo se resumisse a 1+1=2. Tampouco posso esquecer meu orientador, que faz perguntas sobre as quais eu nunca tinha pensado, dá aulas que não me deixam nem piscar e me faz acreditar que sou capaz de fazer tudo e mais um pouco.


Durante a minha trajetória acadêmica, aprendi que o professor tem um poder que nenhum outro profissional tem. Quando trabalha dentro das condições normais de temperatura e pressão, e mesmo quando não está nessa situação, já que conheci verdadeiros heróis na educação pública brasileira nos últimos seis anos, o professor pode mudar uma vida. Não há profissão mais bonita nesse mundo. Nesse dia dos professores, queria contar a vocês, meus professores, que depois de mais de vinte anos como aluna, decidi recentemente que quero ser professora. Espero um dia fazer pelos meus alunos metade do que vocês fizeram por mim. A vocês, meu muito obrigada. E meu respeito profundo.






*Beatriz Rey é jornalista e mestranda em Ciência Política na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, nos Estados Unidos, e autora do blog “Educação e Pesquisa“, da revista Educação.

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