Carta além dos muros

Um grito de socorro e o dilema: colocar-se como vítima, ou pensar e agir a partir de uma escola em ruínas?

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Julio,


Quando você dizia nas aulas para que nos preparássemos para o pior, eu imaginava no máximo: indisciplina + desinteresse + transferências psicológicas de todo tipo + burocracia + má-vontade + falta de recursos + salário baixo. Mas isso tudo é pouco perto do que vi e vivi nesses anos. 


Os índices de violência na escola em que trabalho são preocupantes – um clichê, pois todos dizem o mesmo sobre onde trabalham. As crianças já na 5ª série se batem, se xingam, ameaçam os colegas e os professores, destroem qualquer coisa que chegue às mãos delas. Todo ano temos gastos imensos com carteiras, cortinas, pratos, canecas e talheres. O pátio parece um cenário de guerra após o intervalo. Certa vez, apartando uma briga, um menino me socou e a menina que estava batendo nele aproveitou para me dar uma cuspida. Canalhice já aos 13?


A escola crê no "protagonismo juvenil". Colocam os que dão mais problema na percussão, e tome batucada. Barulho ensurdecedor de escola de samba num lugar que deveria primar pelo silêncio. Enquanto isso, os alunos que colaboram com o trabalho em aula são esquecidos. A postura da escola é: gestão docente. Você é responsável por gerir conflitos em sala, e encaminhamentos são sinônimo de despreparo. Esse também era meu discurso antes. Um dia me peguei agindo como essas professoras estereotipadas de filmes e propagandas. Eu tinha de gritar, bater porta pra tentar chamar a atenção ou levar pra direção os casos graves. E eu me sentia tão imbecil nesse papel.


O que hoje te relato é reflexo da minha solidão profissional absoluta. Meus conceitos do que era ser um bom professor baseavam-se na imagem dos mestres que tive e no que já li. Eles (vocês) me ensinaram a pensar e até a sentir. Quis retribuir isso ao mundo sendo professora, mas são raros os interlocutores. Faço o teste, sempre: "para que você veio à escola hoje?". A resposta é decorada, como tudo o que aprendem em suas religiões, assim como o "sou da paz" na camiseta de quem está socando o outro.


O professor deveria se chamar ouvidor. Ouvem-se as idéias dos autores sobre educação, da coordenação pedagógica, dos pais, dos alunos. Professor não precisa pensar e, menos ainda, ensinar a pensar. No máximo, deve fornecer respostas prontas, decoradas também. Hoje, se houvesse um regime militar no país, não prenderiam professores. Não são formadores de opinião. São babás.


Sexta-feira passada morreu uma professora em sala, numa escola aqui perto. Ataque do coração. Dizem que ela era dedicada e bacana com os alunos. Eles chegaram a gritar ‘u-hu’ quando chegou o carro do IML, talvez porque não tivessem mais aula naquele dia. E, por mais que um professor seja tirano e estúpido, comemorar sua morte não me parece algo justificável. Porque nenhum professor comemora a morte de um aluno bandido, ainda que este lhe tenha trazido medo e angústia. Mas talvez seja porque apenas um aluno morrendo não nos dá aula vaga. Restam os outros na sala.


Abraços, Clarissa

Clarissa,

Você já deve ter-se dado conta de que determinados ex-alunos têm uma estranha ascendência sobre seus (não mais, mas ainda) professores. Isso porque eles, e só eles, são testemunhas e, às vezes, cúmplices de uma existência exposta ao limite em sala de aula, cujo despudor, por mais intenso que seja, não consegue evitar uma certa tragicidade aí latente: entre professor e aluno, há sempre algo mais a ser dito. É o que se passa aqui, creio.

Assim, nada que eu porventura lhe responda ombreará seu relato perspicaz e sombrio acerca da condição docente hoje. Perspicaz porque revela um desassossego raro dentre aqueles tantos professores que se deixaram corromper pelas rotinas venenosas do pensar e do agir. Sombrio pela mesma razão, uma vez que o preço de não tombar ante a implacabilidade de tais rotinas só se pagaria às custas da própria integridade. Daí a encruzilhada por você exposta: sucumbir, ou não, àquilo que se apresenta como a "realidade" brutalizada das escolas hoje. 

No primeiro caso, sucumbir significa escolher a morte em vida, aquela despejada a conta-gotas nas imagens de almanaque que nos convencem a ser quem mais desprezamos. Tal escolha se justificaria como rendição a uma conjuntura hostil ou desagregadora, e não mais passível de transformação. A vitimização torna-se, então, a razão nuclear para continuar existindo nas escolas. Nada além.  

No segundo caso, fazer frente a ela exige a coragem de colocar a própria vida em risco, em nome de algo que ultrapasse a miséria moral reinante e seus privilégios fúteis, firmando-se como conseqüência de um acordo íntimo com a existência que se quis e se fez – sem lugar para arrependimento, nem pesar, portanto. Habitar ruínas, valer-se de despojos, gestar acontecimentos inéditos a partir deles.

É exatamente dessa terra arrasada que você emite seus sinais: cenário devastado pela virulência do hábito (seja discente, seja docente), esse inimigo das chances de que dispomos para fazer girar a grande engrenagem da vida que se abriga também nas salas de aula. O hábito não nos convoca; petrifica-nos, aterroriza-nos. Eis como a encontro agora, diferentemente de quando nos despedimos anos atrás.

Encontro-a abatida por decibéis e falatórios sem razão, achacada por determinações tão redentoras quanto nefastas. Mas a encontro lúcida, clamando por mais que um minuto de silêncio – condição básica para pensar e agir afirmativamente. Encontro-a pulsando, enfim. E esse é todo o requisito para a experiência gratuita de liberdade e criação (e sem possibilidade de reduplicação) que só a educação pública oferece. Uma vida devotada a encontros aleatórios que se esgotam em si mesmos; frestas daquelas paragens exuberantes que um dia imaginamos vicejar no intervalo entre carteiras e quadros-negros; paragens de pouso de Machado, de Drummond, de Guimarães e, quem sabe, da colega sem nome que deixou seu coração em uma sala de aula qualquer.

Abraço,
Julio.

Clarissa é professora de português há oito anos, quatro dos quais na rede estadual paulista.



Julio Groppa Aquino – Professor da Faculdade de Educação da USP –



juliogroppa@editorasegmento.com.br


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