Cao Hamburger: “A sociedade precisa abraçar a questão da educação, mais especificamente do ensino público”

Diretor da última temporada de Malhação faz defesa da educação pública de qualidade e fala sobre experiência de inserir o tema na novela

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Cao Hamburger dirigiu a última temporada de 'Malhação' | Crédito: Ramon Vasconcelos (Divulgação)

Cao Hamburger. Crédito: Ramon Vasconcelos (Divulgação)

Cao Hamburger tem seu nome vinculado a bons momentos na vida de crianças e jovens — alguns já hoje adultos formados. Seu Castelo Rá-Tim-Bum (1994-1997) deve perdurar como marco de programa infantil de qualidade, mesmo passados vinte anos de sua exibição na TV aberta. As séries Cidade dos Homens (2002–2005), Pedro e Bianca (2012), e Filhos do carnaval (2006), além dos filmes O ano em que meus pais saíram de férias (2006) e Xingu (2012) ajudam a reforçar a imagem de um artista que mantém um olhar atento não só à juventude, mas ao nosso país e seus problemas. A essa lista de sucessos (e muitos prêmios, inclusive internacionais) veio somar-se a última temporada da novela Malhação (Rede Globo), encerrada em março e que recebeu o engajado subtítulo de Viva a diferença.

A audiência (22 pontos de média diária, algo como 27 milhões de pessoas sintonizadas, o que não acontecia nesta faixa de programação desde 2009), tudo indica, gostou tanto quanto a crítica. Esta não economizou elogios à trama cujas protagonistas eram um quinteto de meninas “empoderadas” e — finalmente na TV brasileira — a luta de todos por uma educação de qualidade, seja em escolas públicas ou privadas.

Para esta entrevista a Educação, Cao Hamburger gentilmente interrompeu suas férias para responder às perguntas por e-mail. Inserido numa família atípica de classe média (em que avó, pai, mãe, irmã, esposa e filha são educadores), reafirmou seu compromisso de denunciar o apartheid que separa alunos de escolas públicas da “elite” privada.

A maior emissora do país comprou a briga: já no final da temporada de Viva a diferença, a Globo usou o folhetim para lançar a campanha Você é o público da escola pública — que continua a ir ao ar também nos intervalos da programação e em outras plataformas de mídia. Vamos acompanhar as cenas dos próximos capítulos.

A última temporada de Malhação (Viva a diferença) foi sucesso de crítica e público fazendo uma defesa aberta por uma educação de qualidade. Você tinha objetivos claros de como fazer essa abordagem ou ela foi se construindo durante o andamento da novela?

Antes de começar a escrever, pesquisamos bastante as escolas públicas e privadas e tive ótimas conversas com educadores de diferentes especialidades. Além disso, sou de família de educadores, desde minha avó paterna, passando pelos meus pais — que são físicos e se dedicaram muito à educação por entender que esse também é um papel importante dos cientistas na sociedade —, até minha esposa e minha filha, hoje professora na rede municipal de São Paulo.

Minha percepção é que tem muita gente pensando a educação no Brasil, mas pouca discussão pública. A sociedade não está discutindo e não abraçou essa questão que, do meu ponto de vista, é o assunto mais importante para o Brasil hoje. O único caminho para o Brasil se tornar um país decente.
A elite econômica pensa apenas em qual escola particular vai colocar seus filhos. A população que frequenta a escola pública raramente participa e opina sobre os rumos do ensino no país.

Essa percepção me fez decidir que a educação, em especial a pública, seria o tema mais importante da novela. Mesmo que, muitas vezes, tratado como pano de fundo. Na minha opinião, a sociedade precisa abraçar a questão da educação, mais especificamente do ensino público, como prioridade. Mais de 80% das crianças e jovens brasileiros estão em escolas públicas. Teríamos de ter um movimento de toda a sociedade pela educação. Só assim, os políticos e governantes tratariam a questão como deveriam.

Por que optaram por contar essa história em São Paulo, saindo do Rio de janeiro pela primeira vez em 23 anos?

Por ser uma cidade cosmopolita e para apresentar outro sotaque, outras gírias, outra cultura.

Vocês fizeram pesquisas de qualidade para identificar os temas comportamentais que mais interessavam aos jovens, público-alvo da novela. O que mais chamou sua atenção?

Fizemos vários encontros com jovens de diferentes regiões de São Paulo, de diferentes backgrounds. O que mais me chamou a atenção é que, na essência, os jovens têm mais coisas em comum do que diferenças. E, na essência, os jovens de hoje são parecidos com os jovens de quando eu estava no colegial. Pude até usar algumas histórias da época em que estudava como inspiração. Ou seja, adolescentes, independentemente das tecnologias e de diferenças de espaço e tempo, são, na essência, adolescentes — e vivem essa fase mágica e confusa entre a infância e a vida adulta.

A questão dos preconceitos e conflitos comuns no universo escolar recebeu destaque no roteiro. Que cuidados a equipe de autores tomou para não cair num discurso doutrinador ou ideológico?

Essa foi uma de minhas maiores preocupações em relação ao tom geral da novela. Para não cair em um discurso fácil e vazio, eu cuidei primeiramente para que as histórias não fossem nesse caminho, sempre procurei aprofundar e humanizar as questões. E orientei meus colaboradores a tomarem cuidado com o tom dos diálogos. Qualquer deslize, eu ainda conseguia editar. O Brasil está em um momento muito polarizado, eu não queria cair nessa armadilha.

Homofobia, racismo e preconceito socioeconômico foram discutidos claramente durante a temporada. Você acha que essa nova geração avançou nesses temas ou ainda reproduz uma visão reacionária mais arraigada na sociedade brasileira?

Acho que estamos avançando como sociedade nesse sentido. Talvez não na velocidade que gostaríamos, mas estamos avançando.

Cao Hamburger

Crédito: Ramon Vasconcelos (Divulgação)

Os personagens centrais compunham um grupo de meninas. Esse, como se diz hoje em dia, “empoderamento feminino”, na sua avaliação, foi bem sucedido, gerou empatia ou despertou alguma resistência no público?

O quinteto, que foi apelidado como “as five”, fez muito sucesso. Não só pelo empoderamento feminino, mas pela possibilidade de uma amizade forte e de carne e osso, em um mundo de milhares de “amigos” virtuais, seguidores, curtidas e likes. Acho que as personagens geraram empatia e identificação por serem independentes, proativas e cheias de energia. Adolescentes inteligentes, curiosos e antenados, inclusive com assuntos coletivos e do país.

Você estudou em escolas públicas e também em privadas consideradas de elite. De que forma você trouxe a experiência pessoal para essa temporada de Malhação?

Foi muito importante minha experiência escolar na elaboração do conceito e na condução da história. Às vezes de forma inconsciente, às vezes aproveitando lembranças dos dois universos.

A novela não escondeu uma torcida pela escola pública. No final, há uma aliança simbólica com a escola particular. Você acha que esse intercâmbio é realmente possível?

Nas pesquisas, soube de algumas parcerias de sucesso. Mas a posição explícita da novela pela valorização da escola pública é pela constatação de que esse é o único caminho possível para o Brasil. Nesse sentido, se as parcerias com as escolas particulares forem positivas para
as escolas públicas, que se multipliquem.

Durante esses meses, que tipo de retorno você recebeu de professores, pais e alunos?

Muito positivo. Acho que porque tentamos mostrar a importância da escola na vida dos alunos, a importância da qualidade e comprometimento dos professores, educadores e demais profissionais dentro da escola. E, no caso da escola pública, não escondemos os problemas, mas também não contribuímos para sua estigmatização. Mostramos a importância e as qualidades do gigantesco sistema de ensino público brasileiro.

Como você pessoalmente enxerga a atual juventude, hiperconectada e considerada individualista por muitos educadores?

Não senti o individualismo exagerado, mas não tive um contato tão profundo como os professores têm.

Você já declarou que a divisão entre escolas públicas e privadas no Brasil é um “verdadeiro apartheid”. Você poderia desenvolver esse raciocínio e apontar saídas?

O apartheid é claro. Basta visitar as escolas e ver que nas particulares só está a elite social. Na escola pública está a maioria da população. Alguns bolsistas furam esse bloqueio, mas é muito pouco. Na minha opinião, a separação da sociedade nesse grau, desde a infância, é muito perverso para o país. A dita elite vive em uma bolha, não convive com a maioria da população, não conhece o país.

Por outro lado, a maioria da população estuda em condições, na maioria das vezes, piores que a elite e sonha com a ideia de ir para o éden das escolas particulares. Muitas vezes os pais se esforçam e pagam uma escola particular mais barata, e de baixa qualidade de ensino, só pelo status. A elite apartada da sociedade gera distorções e conflitos. Gera preconceitos e acentua a desigualdade. Uma democracia não está completa sem que toda a população possa ter uma educação do mesmo nível.

Como já apontei nas respostas anteriores, para mim, a única saída é uma tomada de consciência da sociedade como um todo para a questão do ensino público. E essa consciência se transformar em uma ação conjunta de elaboração e execução de um plano que faça a imensa estrutura já instalada receber as condições de se tornar tão boa, ou melhor, que a rede particular. Para isso acontecer mais rapidamente, talvez ajudasse se a classe média e alta voltasse a frequentar a escola pública e ajudasse nesse processo. Já estou fazendo campanha para que meus netos, quando nascerem e estiverem na idade, frequentem a escola pública.

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