Cantador pioneiro

Livro conta história de Domingos Caldas Barbosa, poeta e tocador de viola que inaugurou a canção popular brasileira

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Alexandre Pavan



 


Pode procurar nos livros de literatura. Ao lado dos nomes mais conhecidos do arcadismo, como Cláudio Manuel da Costa (1729-1789), Basílio da Gama (1741-1795) ou Bocage (1765-1805), dificilmente haverá uma referência mais aprofundada sobre Domingos Caldas Barbosa (1740-1800) – no máximo, ele aparece como uma notinha de rodapé.



Aliás, nada muito diferente do que o poeta enfrentou em vida, com a maioria de seus contemporâneos fazendo de tudo para amiudar a importância de sua produção lítero-musical. Quem apresenta a real dimensão de Caldas Barbosa é o jornalista e historiador José Ramos Tinhorão, em seu novo livro,
Domingos Caldas Barbosa – O Poeta da Viola, da Modinha e do Lundu

(Editora 34, 240 págs., R$ 29).



Filho de um português funcionário do rei com uma negra angolana, o multado carioca Caldas Barbosa escapou de nascer escravo porque sua mãe foi alforriada pouco antes de dar a luz. Apesar da infância pobre, o menino teve uma educação formal e se diplomou mestre em Artes no Colégio dos Jesuítas.

Na verdade, sua formação foi diversa: dentro da escola tradicional era mantido na linha, estudando o que mandava a cartilha; fora dela, abusava de tudo aquilo que a gente das camadas baixas do Rio de Janeiro lhe oferecia, um universo de “vagabundagem e chalaça”, como escreve Tinhorão. Freqüentando essas duas “escolas”, Caldas Barbosa afiou sua arte de grande improvisador de versos e tocador de viola.



Em 1763, parte para Portugal, a fim de estudar direito na Universidade de Coimbra. Com poucos recursos financeiros, mal chega a se matricular na faculdade, passando a viver errante, sobrevivendo com os trocados que recebia quando, vez por outra, se apresentava como menestrel em festas de famílias nobres, cantando modinhas e lundus.



Sua vida só melhora quando dois jovens irmãos da rica família Vasconcelos e Souza passam a protegê-lo. Posteriormente, Caldas Barbosa ganha uma vaga na Nova Arcádia, integrando a nova geração de poetas, na qual se destacavam nomes como Bocage. Acontece que a obra do brasileiro fugia ao padrão. Diferente dos outros escritores, ele tinha o espírito dos trovadores populares, utilizava onomatopéias, africanismos e contava o cotidiano. Seus versos não se dirigiam à musa árcade, mas falavam diretamente às mulheres, com uma intimidade incomum para a época.



Essas “saliências” não eram bem vistas. Puro preconceito, afinal, não bastasse ser mulato e brasileiro, ele utilizava a linguagem do povo das ruas e dos botequins – e ainda por cima tocava viola. Onde já se viu? Num soneto agressivo, Bocage chegou a chamá-lo de “orangotango com gestos e visagens de mandinga”.



Mandingueiro ou não, Caldas Barbosa foi pioneiro em sua arte.Mais tarde, seus versos inspirariam, por seu coloquialismo, poetas como Fernando Pessoa. Já suas melodias inauguraram a música popular urbana, e dariam origem a serestas, choros, maxixes e sambas.



Pena que a academia e alguns literatos, por sua vez, herdaram apenas o preconceito de dois séculos atrás.




Jornalista e co-autor do livro Populares e Eruditos

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apavan@uol.com.br





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