Caminhos que contam história

Alunos de escolas judaicas refazem trajeto percorrido por seus antepassados na Polônia durante a II Guerra Mundial

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Alunos de escolas judaicas de São Paulo na entrada do Campo de Aushwitz: memória de um povo

Era um sonho de criança. Reviver o que sofreram os seus antepassados não foi fácil, mas teve grande importância para Natan Freller, estudante do 3º ano do ensino médio do Colégio Bialik, de São Paulo. Ele percorreu o mesmo caminho de cerca de um milhão de judeus – do total de três milhões que morreram na Polônia na II Guerra Mundial. Como eles, Natan caminhou pelos três quilômetros que separam o local onde ficava o campo de concentração de Auschwitz do campo de extermínio de Birkenau. A viagem para a Polônia – que depois teve uma segunda etapa em Israel – ajudou o adolescente a decidir que não prestará vestibular neste ano. Preferiu dedicar um ano de sua vida ao Shnat, movimento juvenil judaico em Israel, para transmitir a outros jovens a idéia de que o Holocausto não pode se repetir.

“Muitos historiadores disseram que as duas guerras mundiais ocorreram para que nenhuma outra tivesse mais lugar. Mas hoje ainda vemos massacres na África, guerras civis e outras tragédias que começam por um simples preconceito. Independente de ser judeu, como ser humano, acho que preciso mostrar que isso não pode ocorrer mais, com qualquer raça que seja”, reflete o estudante.

A primeira edição da Marcha da Vida Mundial – a mesma que levou Natan a essas conclusões – aconteceu em 1988, organizada por um sobrevivente americano. O Brasil participou pela primeira vez em 1992. Agora, em 2007, o recém-criado Projeto Chinuch – Marcha da Vida teve a participação de cerca de 200 estudantes brasileiros do ensino médio dos colégios Bialik, Iavne, I.L.Peretz e Renascença, todos de São Paulo, que visitaram a Polônia e Israel em abril.

Um dos objetivos da criação do Projeto Chinuch foi incorporar, como estudo do meio, a Marcha da Vida ao currículo de 200 dias letivos exigidos pelo Ministério da Educação. Para Karina Hotimsky Iguelka, diretora do projeto, a importância da iniciativa se dá também pela afirmação dos adolescentes na passagem para a vida adulta. “A escola tem papel fundamental nisso. A instituição é o espaço para os alunos viverem os conflitos e os questionamentos longe da família, e a atividade proporciona, com vários elementos, um modelo de identificação, seja ele social e histórico ou o próprio modelo do judaísmo”, diz a diretora.

Segundo Glaucimara Baraldi, coordenadora pedagógica e professora de história do Colégio Renascença, a proposta não é só ressaltar a religião, e sim proporcionar um enriquecimento cultural e histórico. “São 15 dias de aulas contínuas. Há uma recuperação do contexto histórico da II Guerra Mundial e do Holocausto. Em Israel, temos uma discussão sobre o movimento sionista, há um estudo histórico e geopolítico profundo”, completa. 

O objetivo após o retorno é fazer com que os alunos multipliquem para pais e outros alunos o que vivenciaram. Isso é feito por meio dos diários produzidos durante a viagem, que resultarão numa espécie de sarau literário, com músicas, poemas e fotos. No Colégio Bialik, dois projetos paralelos, um de criação de material didático para uso interno na escola, com fotos e textos colhidos durante a viagem, e outro que visa atingir escolas não-judaicas, têm o objetivo comum de transmitir o que os alunos passaram durante a Marcha. “Temos de mostrar para o resto do mundo o que aconteceu e que a comunidade continua viva. Isso não pode ser esquecido. Essa é uma mensagem que faz parte da vida de todos que foram para lá”, defende Natan.

Para ele, o objetivo da viagem foi cumprido quando viu pessoas não muito ligadas ao judaísmo se emocionarem. “Na Polônia, as pessoas se abraçavam e diziam que queriam ir para Israel, criando um espírito sionista.” 


História in loco

“A idéia do programa é alicerçar a identidade judaica dos alunos através da vivência”, explica Glaucimara Baraldi. “Não tínhamos o objetivo de reviver o sofrimento do Holocausto, e sim de visitar os museus e lugares onde as marcas históricas estão presentes. É um trabalho de reconstrução histórica, memória pessoal e familiar.”

Neste ano, a Marcha teve dois momentos: o primeiro foi a visita aos campos de concentração e de extermínio na Polônia, além de cemitérios e guetos, e o caminho de Auschwitz ao campo de extermínio de Birkenau. “Apesar de ser uma parte muito intensa e difícil para os alunos, os fez entender aquilo não como meros lugares. Brotaram muitas histórias de famílias”, relembra Glaucimara.

Segundo a estudante Gabriela Vitron, de 16 anos, estudante do Colégio I.L. Peretz, com tudo o que viram na Polônia, é difícil crer que ainda exista quem negue o Holocausto. “Sites do Orkut e as próprias declarações recentes do presidente do Irã, que disse que nada disso aconteceu, me parecem ainda mais absurdas agora. Está tudo lá para quem quiser ver.” Para seu irmão gêmeo, Renato Vitron, o que marcou foi a dimensão do campo de extermínio de Birkenau e os cemitérios da Polônia. “Visitamos uma vala comum em um gueto, com cerca de 150 mil corpos.”


Natan Freller, aluno do Colégio Bialik: “o Holocausto não pode ocorrer mais”

Alberto Shammah, que cursa o 3º ano do colégio Iavne, sentiu na pele o preconceito que, segundo ele, ainda existe na Polônia. “Esse país ainda hoje é muito frio e anti-semita. Quando chegamos e estávamos à procura de nosso hotel, fomos xingados por bêbados que estavam nas praças. Depois disso, ficamos receosos e procurávamos andar juntos.” Para ele, a população do país já esqueceu o que aconteceu lá. “Há poucos judeus na Polônia hoje. Os campos de concentração e de extermínio não são nada para eles. As crianças, por exemplo, brincavam lá como se estivessem em um parque de diversões”, relembra. 
  
Na segunda parte do evento, a visita a Israel, os estudantes participaram de comemorações como o dia da lembrança pelos soldados mortos nas guerras de Israel (Yom Hazicaron) e o dia da independência (Yom Haatzmaut), além de visitar locais históricos.

“Vi a importância da construção do Estado de Israel para a população judaica. Depois da II Guerra, os judeus tinham um território e não precisavam mais passar pelas humilhações e preconceitos que viveram na Europa”, avalia Natan. 

Para Daniel Hudler, 15 anos, aluno do 2º ano do Colégio Renascença, sua visão de Israel mudou radicalmente. “A teoria que temos na escola é muito diferente da vivência. Sabíamos a importância, mas não vivíamos na pele. Hoje, se acontecesse alguma coisa no Brasil, por mais difícil que isso possa parecer, temos Israel, que é muito mais uma idéia de nação do que de país. É o nosso refúgio e a nossa segurança. Ficamos mais sionistas. Se Israel existisse antes, poderíamos ter evitado a morte de mais de 6 milhões de judeus”, completou o estudante. 


“NÃO PODÍAMOS MAIS ANDAR NAS CALÇADAS”


“Só aprendendo com o passado viveremos com segurança “, diz Ben Abraham, sobrevivente do Holocausto

“Nosso povo viveu dois mil anos de discriminação. Só aprendendo com o passado viveremos com segurança o presente e de cabeça erguida o futuro”. Depois de viver na pele a história, Ben Abraham, 82 anos, sobrevivente do Holocausto, acredita que contar o que aconteceu é a melhor forma de fazer com que a tragédia não se repita.

Sua epopéia particular começou em Lodz, na Polônia, quando tinha 14 anos e avistou soldados alemães invadindo a sua cidade. “Não podíamos mais andar nas calçadas e ruas principais, as barbas dos religiosos foram cortadas e o cerco aumentava até que nos prenderam.” Os 162 mil judeus da cidade foram aprisionados no gueto de Lodz. Somente 1.500 sobreviveram. Da família numerosa de Ben, apenas ele, um tio e dois primos se salvaram.

Em 1944, os prisioneiros foram enviados ao campo de concentração de Auschwitz, e no dia da liquidação, após uma seleção, sua mãe, considerada inapta ao trabalho, seguiu para a câmara de gás. E foi o que aconteceu com grande parte da família. Seu pai morrera meses antes, de fome, no gueto. Mas Ben foi destinado ao trabalho forçado e ficou em Auschwitz até o suicídio de Hitler, em 30 de abril de 1945. “Nessa noite, os guardas do campo fugiram e nos deixaram à própria sorte. Depois de sair de lá, tentei reconstruir minha vida numa cidade vizinha”. Dez anos depois, Ben, resolveu vir para o Brasil.

“Lembrava de meu pai falar de um tio que morava aqui e que era um lugar onde os judeus podiam viver em paz. Isso ficou gravado na minha memória. Resolvi vir para cá e não me arrependo. Constituí família e hoje sou muito feliz aqui”, diz.  



Os mortos da II Guerra

A II Guerra Mundial (1939-1945) ocasionou a morte de 55 milhões de pessoas, sendo 17 milhões de militares e 33 milhões de civis. Entre eles, 6 milhões de judeus mortos em campos de concentração pela Alemanha nazista de Adolf Hitler. Mas as idéias de Hitler não foram fatos isolados na história da humanidade. O Gulag, sistema de campos de trabalhos forçados para criminosos e presos políticos da União Soviética, à semelhança dos campos nazistas, funcionou de 1918 até 1956. Foram aprisionadas lá milhões de pessoas, vítimas das perseguições de Stálin. Com a derrota e posterior separação da Alemanha, cerca de 3 mil civis alemães se viram forçados a trabalhar em Gulags, como prisioneiros de guerra.

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