Caminhos para a conscientização

Educadora acredita que o ensino de arte desenvolve a capacidade de aprender e facilita a descoberta dos direitos e obrigações de cada um

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Professora aposentada da Universidade de São Paulo (USP), Ana Mae Barbosa acredita que o ensino de arte nas escolas incentiva a criatividade, facilita o processo de aprendizagem e prepara melhor os alunos para enfrentar o mundo. Nascida no Rio de Janeiro, Ana mudou-se aos três anos para Pernambuco. Filha de família tradicional queria estudar Direito. Odiava a educação, que considerava instrumento repressivo.

Em um cursinho para concurso de professora primária, conheceu Paulo Freire, que a fez mudar de idéia. Mesmo formada em Direito, Ana Mae foi dar aulas e adaptou as idéias de Freire para o ensino da arte. Forçada pela ditadura militar, mudou-se para São Paulo e, em seguida, estudou nos Estados Unidos. Voltou como a primeira doutora brasileira em arte-educação e coordenou as primeiras pesquisas da Escola de Comunicações e Artes da USP na área.

Criadora da teoria da “abordagem triangular” e autora de diversos livros, como
A Imagem no Ensino da Arte

(Perspectiva, 134 págs., R$ 31) e
John Dewey e o Ensino da Arte no Brasil

(Cortez, 198 págs., R$ 24), ela defende a idéia de que o “ver” e o “fazer” são tão importantes quanto a contextualização da leitura e da prática. Nessa entrevista ao repórter Flávio Amaral, Ana Mae Barbosa analisa também o papel de governos, iniciativa privada e Terceiro Setor na arte-educação:




Revista Educação – Qual é a importância da arte-educação?


Ana Mae Barbosa – Há uma onda sentimentalóide em torno da arte-educação. Diz-se que a arte torna os alunos mais sensíveis, mas pouco se define o que é esse “sensível”. De qualquer forma, não é isso que importa. A arte desenvolve a cognição, a capacidade de aprender. Isso já foi demonstrado em uma pesquisa feita nos Estados Unidos em 1977, quando foram estudados os dez melhores alunos em um período de dez anos. Havia apenas uma característica em comum: todos tinham feito ao menos dois cursos de arte em suas trajetórias pelas escolas.




Sabe-se exatamente como a arte influi na capacidade de aprendizagem?


Ainda é preciso mais pesquisas, mas podemos dizer que a arte possibilita que os indivíduos estabeleçam um comportamento mental que os leva a comparar coisas, a passar do estado das idéias para o estado da comunicação, a formular conceitos e a descobrir como se comunicam esses conceitos. Todo esse processo faz com que o aluno seja capaz de ler e analisar o mundo em que vive, e dar respostas mais inventivas. O artista faz isso o tempo todo, seja para melhor se adequar ao mundo, para apontar problemas, propor soluções ou simplesmente para encantar, que é uma das formas de tirar você das mazelas do dia-a-dia. A arte não tem certo ou errado, o que é muito importante para as crianças que são rejeitadas na escola por terem dificuldade de aprender, ou problemas de comportamento. Na arte, eles podem ousar sem medo, explorar, experimentar e revelar novas capacidades.




A arte-educação traz esses benefícios em qualquer situação?


Não, depende de como é ensinada. Tem sido comum se ensinar arte apenas dando datas e apresentando “ismos”, o que é pouco importante. O bom ensino de arte precisa associar o “ver” com o “fazer”, além de contextualizar tanto a leitura quanto a prática. Essa teoria ficou conhecida como “abordagem triangular”. Para se aprender, é preciso ver a imagem e atribuir significados a ela. Contextualizá-la não só do ponto de vista artístico, como também socialmente. Eu tenho testemunhado alguns projetos em escolas que priorizam a análise da obra de arte e deixam de lado o trabalho de organizar suas idéias de maneira a comunicá-las por meio da imagem, o que é um trabalho poderosíssimo de organização dos processos mentais. Tem que haver um equilíbrio entre os três processos. Outro grande problema atual é que contexto às vezes vira estudo de vida de artistas, o que nem sempre interessa para entender a obra.




Como a senhora avalia os atuais parâmetros curriculares em relação à arte?


Primeiro, sou contra um currículo nacional. O melhor ensino que temos no mundo ocidental é o do Canadá, que sempre se recusou a ter um currículo nacional. Na Inglaterra, a educação piorou depois da adoção. Não deu certo na Espanha. Os atuais parâmetros foram feitos por gente muito boa, mas foram elaborados por universidades hegemônicas. Não se determina todo o conteúdo, apenas linhas estruturais. Se isso fosse debatido em cada Estado, em cada município e depois em cada escola, seria uma coisa interessante. Mas não foi assim. O governo anterior achou que os professores não tinham entendido direito e resolveu fazer uma cartilha dos Parâmetros Curriculares Nacionais. Criaram os Parâmetros em Ação. O primeiro de arte tinha coisas como escolher a imagem e mostrar um relógio determinando quanto tempo tem que se ficar olhando para ela. A primeira imagem é a
Santa Ceia

, de Leonardo da Vinci, com uma carga religiosa imensa. Numa escola pública, em que todas as religiões devem ser aceitas, como fica isso?




Os professores hoje estão preparados para ensinar arte equilibrando a leitura, a prática e a contextualização?


Varia muito. Tem professor que faz prova sobre arte, com perguntas até sobre data de nascimento. Ao mesmo tempo, a capacidade que o professor tem para potencializar as chances que lhe são dadas é extraordinária. Falta atualização permanente e os programas de formação, de maneira geral, não são adequados. Algumas universidades estão se mexendo com tentativas de se estudar estética, filosofia da arte e novas tecnologias.




Por que senhora é contra a utilização do termo educação artística?


A designação tem um conceito já acoplado a ele, que é o de professor polivalente, aquele que era formado em dois anos para ensinar música, teatro, artes plásticas, dança e desenho geométrico, da 5ª à 8ª série. Isso é um absurdo epistemológico ainda exigido nos concursos públicos para professor. Não existem mais cursos de licenciatura em educação artística que formam o professor para tudo. As universidades reagiram contra isso. Hoje se estuda quatro anos música, artes plásticas ou artes cênicas e, na hora do concurso, o candidato tem que responder perguntas em todas as áreas. Ele não está preparado.




O ministro Tarso Genro recentemente afirmou que o grande desafio para a educação no Brasil é a falta de professores no ensino médio. Há previsão de déficit no ensino de arte. E a arte-educação?


Fica a perigo. Não é um problema generalizado no país. Nos grandes centros, há professores suficientes. O problema é no interior. O grande desafio do MEC é a formação de professores. Na arte-educação, também é preciso investir em cursos de pós-graduação. Há seis anos, eram cerca de 130 licenciaturas em arte no Brasil e apenas seis linhas de pesquisa em arte-educação. Na USP, são só três professoras orientando, em média, sete alunos cada. A cada quatro anos, saem só 21 novos pesquisadores.




Ainda é comum que escolas improvisem professores de arte sem formação adequada? Por que isso ocorre? Falta de professores?


O grande problema é que o arte-educador tem poucas horas de aula. Resultado: para ter 40 horas de trabalho, o professor corre de escola em escola. Acontece o mesmo com o professor de inglês. Muitas escolas, especialmente as privadas, estão juntando inglês e artes. Já nas escolas públicas, é comum o professor de história ensinar arte. E ainda tem aquela idéia de que, se está faltando umas horinhas para completar o horário, o professor ensina arte.




O ensino de arte não passou a ser mais valorizado nas escolas durante os últimos anos?


Em 2006, faço 50 anos de arte-educação. O progresso é imenso. Antes havia uma rejeição. Hoje, a arte já está presente nas faculdades de Pedagogia. Um diretor já traz da universidade a idéia da importância da arte para crianças e adolescentes. A pesquisa universitária também passou a ser respeitada. Em 1972, quando decidi fazer o mestrado, não achei ninguém no Brasil que quisesse me orientar. Fui para os Estados Unidos e pedi bolsa. A Capes respondeu com uma carta em que dizia que arte-educação não era uma área de pesquisa. Hoje, você tem centros muito bons. Em pouco mais de 30 anos, a área está reconhecida a ponto de eu receber, no ano passado, a Ordem Nacional do Mérito Científico.




A evolução pôde ser percebida nas escolas, mas os governos passaram a valorizar a arte-educação?


Ainda falta reconhecimento, mas tem mudanças interessantes. A iniciativa do governo de São Paulo de permitir que o professor faça mestrado ou doutorado sem prejuízo dos vencimentos é uma grande abertura. Outra experiência interessante é colocar o especialista em arte-educação para dar aula no primeiro ciclo do ensino fundamental. Os CEUs
(escolas-modelo da Prefeitura de São Paulo) f

oram uma invenção maravilhosa ao ligar educação e cultura, levar espetáculos para a escola. Foi a melhor iniciativa em arte-educação do Brasil. Mas ainda há alguns escorregões, como os concursos do governo paulista exigindo polivalência.




Qual a importância das ONGs para a arte-educação?


As ONGs que nascem de projetos comunitários fazem trabalhos extraordinários. Há muitos projetos interessantes em desenvolvimento no Nordeste, por exemplo. Mas há quem pense apenas em formar orquestras para algumas empresas mostrarem que têm responsabilidade social. Tenho visto barbaridades, projetos equivocados, pensados para projetar o presidente da empresa ou o nome da mulher dele na revista
Caras

. Há projetos que instalam ateliês temporários em favelas, em que a comunidade ajuda um artista famoso a pintar o que ele determina. Há outro, apresentado como grande projeto social, que leva artistas para decorar a casa de favelados. Isso é oportunismo de pessoas explorando a ingenuidade dos pobres. Ou no mínimo uma brutal falta de consciência política. Não gosto que as empresas façam projetos, prefiro que elas apóiem projetos nascidos na comunidade.




A arte-educação é importante na educação para a cidadania?


Ando meio encrencada com a palavra cidadania. A direita tomou conta dessa palavra. Prefiro usar o termo do mestre Paulo Freire, conscientização. A arte abre caminhos para a conscientização social, para a descoberta dos direitos, das obrigações de cada um. Tem um monte de gente com discursos vazios que abusa do termo cidadania. Tenho arrepios quando ouço falar em educação para a cidadania. Dependendo de quem fala, pode ser uma picaretagem.




Como Paulo Freire influenciou sua carreira?


Ele me pegou em um momento em que eu reagia à educação e me convenceu de que educação não é repressão, pode ser um processo de libertação. Minha família só me deixava trabalhar como professora e fui fazer um cursinho para um concurso. Ele era o professor de português. Na primeira aula, pediu às alunas que escrevessem por que queriam ser professoras. Odiando aquilo tudo, escrevi por que não queria ser: que era obrigada pela família, que preferia trabalhar em escritório, que educação não levava a nada e coisas do tipo. No dia seguinte, ele entregou as redações de todo mundo, menos a minha. Disse que queria conversar. Após umas quatro horas de conversa, saí completamente convencida de que a educação é algo reestruturador do indivíduo. Passei no concurso e ele me convidou para trabalhar com ele. Ficamos muito ligados e mantivemos o contato mesmo durante o exílio dele no exterior e o meu exílio em São Paulo. Filosoficamente, ele é um dos pensadores da educação que norteiam o meu trabalho.




Reportagem: Flávio Amaral



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