Caminhos convergentes

Um neurocientista, um físico e um químico têm em suas trajetórias o reconhecimento comum de uma dívida do país com a Educação Básica

Compartilhe
, / 859 0

Alquimia da educação

A dedicação à educação científica absorveu a carreira do mineiro Eduardo Fleury Mortimer, desde que se formou em química, em 1980. Depois de trabalhar por três anos em indústrias e lecionar em escolas de Belo Horizonte, tornou-se professor de prática de ensino de química da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Em seu livro Linguagem e formação de conceitos no ensino de ciências, desenvolve uma nova teoria sobre o tema, com base na evolução do conceito de átomo entre estudantes do ensino fundamental. Ao lado do artigo "Construindo o conhecimento científico na sala de aula", escrito em uma temporada na Universidade de Leeds, Inglaterra, o livro tornou-se referência internacional no ensino de ciências.

Mortimer coordena, na UFMG, o grupo Formação Continuada de Professores de Ciências da Natureza. "Os 350 professores que passaram pelo grupo não saíram incólumes – todos acabam fazendo algo diferente em sala de aula e isso causa um efeito multiplicador", disse. As pesquisas resultaram em vários materiais didáticos para o ensino médio. O livro Química, escrito em 2002 em parceria com Andréa Machado, foi distribuído às escolas públicas por meio do Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio.

O químico não se vê sozinho em sua paixão pela pedagogia científica. "O ensino de ciências no Brasil cresceu, se democratizou, perdeu qualidade e acumulou inúmeros problemas", analisa. "Mas está em curso um grande movimento da comunidade dedicada ao ensino científico e muita coisa significativa está sendo feita. Estamos em um momento único e tenho uma visão bastante otimista." (ARS)

Hamburger e o Mão na Massa

Ernst Wolfgang Hamburger recebe a reportagem em sua sala na Estação Ciência alegando que é "apenas" um professor aposentado do Instituto de Física da USP e que não está mais à frente da Estação Ciência. Não é mesmo mais o diretor da instituição que fundou, após quase 50 anos de trabalho pela divulgação científica. Essa experiência lhe valeu, em 2001, o Prêmio Kalinga pela Popularização da Ciência, da Unesco.

Mas Hamburger segue na Estação Ciência à frente do projeto Mão na massa. Ele acompanha atentamente o trabalho de formação de professores – segundo ele, a principal questão na efetivação desse ensino baseado, desde a alfabetização, na investigação. "A experiência internacional mostra que o professor leva vários anos para internalizar esse processo", afirma. "Na universidade não é assim, e o aluno tende a repetir o que aprendeu."

Desde os anos 50 Hamburger discute educação. Ele se lembra de que quando estudou na USP houve uma "revolução" na alfabetização. Foi construído o Centro Regional de Pesquisas Educacionais, um projeto de Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira para melhorar a alfabetização na América Latina. "Foi importante para a renovação dos métodos de alfabetização, pois não exigia decorar, mas todo um raciocínio", recorda-se.

Como professor, sempre ouviu o chavão: "o nível da educação está caindo". Ele discorda: "Se fosse verdade, a gente já estava enterrado".
Durante sua infância, argumenta, havia uma barreira socioeducacional: o exame de admissão, ao final da 4ª série. "Gente pobre ficava, e a maioria da população nem chegava a isso."

Com o físico Mario Schenberg, discutiu o falso dilema entre o ensino para toda a população e a formação de um corpo científico de excelência. "Seria um engano tirar a ênfase do ensino universitário em favor da Educação Básica. E também o inverso. Quando o Barão de Munchausen afundava na neve, ele segurava um ganchinho da bota e se puxava para cima. Isto é fisicamente impossível. Mas é nessa situação que a gente está: tem de subir tudo ao mesmo tempo." (ARS)


O homem dos braços Robóticos



Ele é o principal candidato brasileiro ao prêmio Nobel. A especialidade mais conhecida do cientista paulistano Miguel Nicolelis é o estudo da integração do cérebro humano com as máquinas, com o objetivo de criar neuropróteses. Sua principal descoberta, um sistema que possibilita a criação de braços robóticos controlados por meio de sinais cerebrais, está na lista das "tecnologias que vão mudar o mundo" do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Com todas essas credenciais, ele não acredita que o trabalho do cientista deva se limitar à pesquisa nas fronteiras do conhecimento. Nicolelis lidera um grupo de neurocientistas na Universidade Duke, nos Estados Unidos, mas tem como meta principal passar mais tempo trabalhando no Instituto de Neurociências de Natal, no Rio Grande do Norte. Para se dedicar a seus projetos de "uso da ciência como agente de transformação social".

"A proposta é utilizar o conhecimento gerado no instituto para modificar seu entorno, onde estão as piores escolas públicas do país", diz ele, baseado em estatísticas do Ministério da Educação. A missão científica do instituto é tão importante quanto sua missão social, avalia Nicolelis, que considera sua criação, em 2007, a realização de um sonho.

"Desenvolvemos um projeto que promove a educação científica para alunos da Educação Básica porque acreditamos que com isso vamos responder ao principal desafio do país, a inclusão social", diz. "A idéia é envolver os meninos em processos de ensino de tal forma que os conteú­dos científicos sejam incorporados como parte da compreensão do seu entorno, para além das aparências, desenvolvendo a consciência crítica e ampliando a cidadania."

A educação científica oferecida pelo projeto do instituto de Natal é fundamentada no empirismo, por opção do cientista.  Ele acredita que, ao ensinar ciência fazendo ciência, os conceitos são mais bem absorvidos, e o próprio método científico é transformado em ferramenta pedagógica. "Isso facilita a formação de cidadãos críticos, pois há mais espaço para que o sujeito desenvolva idéias próprias." (ARS)

Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN