Caminho para inovação

Prioridade no foco acadêmico é o sucesso de parceria entre Alcoa e UFScar

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Prioridade no foco acadêmico é o sucesso de parceria entre Alcoa e UFScar

 

por Márcia Soligo*

 

Um dos principais motivos das empresas buscarem parcerias com instituições de ensino superior é a procura por inovação. Berço de novos talentos na pesquisa e no desenvolvimento de soluções sustentáveis e criativas para problemas reais, é justamente a universidade o lugar mais propício para a geração de inovação.

Numa análise superficial a combinação empresa-universidade parece ideal, já que a parceria se caracteriza por uma via de mão dupla. A empresa busca na universidade o caminho para a inovação e a universidade recebe recursos financeiros da empresa, treina seus alunos e realiza pesquisas de ponta com mais investimento. Contudo, existem os desafios da relação. É preciso ter consciência de que são dois ambientes distintos. A academia preza pela análise e pela pesquisa, valorizando o tempo gasto nas mesmas. Enquanto a empresa, muitas vezes, busca rapidez de desenvolvimento e resultados de qualidade.

Foi nesse sentido que nasceu a bem sucedida parceria da Alcoa, multinacional fabricante de alumínio, e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), localizada no interior de São Paulo. A Revista Ensino Superior foi apresentada ao laboratório do Grupo de Engenharia de Microestrutura de Materiais (GEMM) da UFSCar em visita a convite da Alcoa. O GEMM trabalha em colaboração com a área de Pesquisa e Desenvolvimento da Alcoa e a parceria, hoje conhecida no mundo inteiro pela sua produção – inclusive de talentos –, já dura mais de 20 anos.

 

Saguão Principal do Laboratório da Alcoa na Ufscar

Saguão Principal do Laboratório da Alcoa na Ufscar

Muito mais do que serviço

A empresa viu na pesquisa dos alunos de Engenharia de Materiais um caminho para inovar e produzir soluções para o seu negócio. O modelo de parceria utilizado por aqui é um pouco diferente dos praticados pela empresa no exterior, que consistem geralmente em prestação de serviços. Na UFSCar, a Alcoa conta com um laboratório equipado com aparelhos de ponta, no qual já investiu aproximadamente R$ 5 milhões. Os alunos – que devem participar de um estágio obrigatório de seis meses em período integral como parte do curso de engenharia – têm a chance de trabalhar na empresa, podendo ser contratados e encaminhados para cursos fora do Brasil.

“Parcerias entre universidades e indústrias proporcionam a formação de talentos capazes de transformar ciência em inovação real pela interação constante com desafios concretos. As contribuições para a empresa e para o país são inestimáveis”, reforça Jorge Gallo, gerente de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Alcoa Latino América & Caribe.

Na parceria, a empresa leva em consideração as prioridades da academia, como publicação de artigos e produção intelectual. De acordo com Gallo, ter em vista o foco acadêmico é um ponto importante para a parceria dar certo. “O foco da empresa é diferente da universidade. A empresa não pode cobrar serviço, a universidade tem um papel mais nobre de extensão, formação de pessoas e pesquisa. Esta tendência de prestação de serviços teve que ser superada”, comenta.

No caso da parceria com a UFSCar o processo foi longo até atingir a convergência de objetivos. Segundo Victor Pandolfelli, coordenador do projeto e professor de Engenharia de Materiais na UFSCar, no início da parceria, em 1985, os alunos tinham receio sobre a entrada da empresa na universidade. “Quando começamos, a visão dos estudantes era de que a universidade estava sendo vendida. Hoje em dia a visão é que você deve interagir com a empresa. Houve uma evolução muito grande, um aprendizado conjunto”, conta Pandolfelli.

Outra característica de parcerias com grandes empresas é a formação diferenciada de recursos humanos. Durante a formação acadêmica, a proximidade do contato com os processos industriais permitem aos alunos também a oportunidade de crescimento profissional, já que os colaboradores da empresa se fazem presentes dentro da universidade, seja participando de cursos para aperfeiçoarem seus conhecimentos ou avaliando teses em bancas de trabalhos de conclusão. Ao todo, na UFSCar, são 20 mestrandos formados, quatro doutorandos, 80 estágios curriculares e diversos funcionários da Alcoa envolvidos no processo.

 

Celeiro de inovação

A Petrobras também possui parceria com algumas universidades no Brasil, uma delas é a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul. A empresa investiu aproximadamente R$ 3 milhões na construção de um prédio situado no campus da UFSM, onde são desenvolvidas pesquisas buscando a melhoria da produção e controle de qualidade do petróleo.

A parceria acontece desde 2009 e o prédio construído para abrigar o Centro de Estudos de Petróleos Extrapesados (Cepetro) foi inaugurado em 2012. A criação do Laboratório de Análises Químicas Industriais e Ambientais (LAQIA) e do Departamento de Química do Centro de Ciências Naturais e Exatas na UFSM em 2004 deu origem à parceria, pois a estatal buscava universidades com experiência em energias alternativas. De acordo com Roberto Carlos Gonçalves de Oliveira, gerente da Petrobras, o contato acadêmico é fundamental para a produção de novas tecnologias. “O investimento na universidade é importante, principalmente após a descoberta do pré-sal, pela necessidade de aprimorar as tecnologias utilizadas no refinamento do petróleo”, diz.

Na parceria, a Petrobras busca novas formas de utilização de energia e promete dar aos alunos e à universidade reconhecimento pela realização de um trabalho ainda pouco explorado no Brasil. Ao todo, a universidade realiza dois projetos para a indústria, contando com dois grupos de pesquisa.

 

Investimento na pesquisa

No Brasil, as parcerias com características de pesquisa e inovação acabam ocorrendo mais frequentemente em instituições públicas. De acordo com Jorge Gallo, isso se dá porque essas universidades são as que mais produzem pesquisa e desenvolvimento. “As instituições públicas trabalham nos três pilares: pesquisa, ensino e extensão. A atividade de extensão é obrigatória, pois é exigido um retorno à sociedade. Por conta dessas razões, as oportunidades de parcerias são maiores com as universidades públicas”, explica.

Desenvolver o ambiente de pesquisa nas instituições de ensino é o caminho apontado para ampliar as chances de parcerias e contato com empresas. Os ganhos dessa comunhão são evidentes. Quando bem aplicadas, contribuem para a promoção do meio acadêmico institucional, além de melhor desenvolver a capacitação dos estudantes e se constituir uma porta de entrada para o mercado de trabalho.

O grande desafio, no entanto, é o equilíbrio entre os interesses e o respeito pelo modo de trabalhar de cada um. O que geralmente se afina no decorrer da parceria. A empresa precisa fomentar a produção intelectual, publicações e especializações e a universidade precisa entender que a indústria busca qualidade e rapidez na produção.

 

 


Dentro do mercado

Para Mariana de Albuquerque a parceria foi o ponto de partida para sua carreira

Para Mariana de Albuquerque a parceria foi o ponto de partida para sua carreira

Além do desenvolvimento de pesquisa e geração de investimento, a aproximação de empresas e instituições de ensino superior é também uma forma de estreitar a formação com mercado de trabalho e desenvolver uma melhor capacitação profissional dos alunos. Esse foi o caso de Mariana de Albuquerque, PhD em Engenharia de Materiais pela UFSCar e engenheira de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Alcoa, que começou no projeto fazendo iniciação científica. De acordo com ela, a parceria foi indispensável para sua formação. “Foi o ponto de partida para o desenvolvimento da minha carreira, gerou oportunidades de crescimento profissional e pessoal”, conta. Durante a iniciação científica, no quarto ano, Mariana começou a preparação em projetos da Alcoa, já pensando em realizar um estágio na empresa.  A engenheira também foi uma das selecionadas para participar do curso da Federação Para Pesquisa e Educação Internacional em Refratários (FIRE), da qual a Alcoa e a UFScar são membros. Hoje, a engenheira faz parte do quadro de funcionários da Alcoa, atuando na fábrica e no laboratório implantado na Federal de São Carlos.

 

*A jornalista visitou o laboratório do Grupo de Engenharia de Microestrutura de Materiais (GEMM) da UFSCar a convite da Alcoa.

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