Cada palavra conta uma história

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Por: Robson Melo*

Há alguns anos, abri o livro de uma criança que tinha escrito sua primeira obra. Aos sete anos de idade, Carolina narrava um mundo sem fronteiras para a imaginação e, alternado entre ilustrações coloridas, vinha um texto que contava as aventuras de uma princesa pela floresta encantada. A riqueza de detalhes da história dizia muito sobre a pequena autora: sonhos, anseios, medos e o desejo de ser uma princesa que anda de bicicleta em vez de cavalo.

Carolina é apenas uma das mais de 250 mil crianças que a Estante Mágica já transformou em autores por todo o país. Nessa iniciativa, mais de três mil escolas aplicam, em sala de aula – dentro do seu planejamento ou a partir dos projetos pedagógicos oferecidos dentro da plataforma digital –, o projeto em que crianças escrevem e ilustram seus próprios livros.

A partir dessa amostragem, foi montada a análise de dados que contou com a segmentação estatística de cerca de 60 mil títulos e a catalogação de 600 mil palavras utilizadas por alunos de escolas públicas, particulares e redes de idioma. Daí resultou o projeto Nuvem de Palavras.

Em resumo, a Nuvem utiliza algoritmos específicos para apresentar graficamente a proeminência das palavras encontradas na amostra analisada: quanto mais utilizada é a palavra, maior é o seu tamanho na nuvem. Um exemplo dessa análise pode ser observado na imagem abaixo, que considera os títulos das histórias escritas por alunos da rede pública de ensino, predominantemente do primeiro segmento do ensino fundamental:

crianças escritoras

Vejam que a história da Carolina certamente ajudou a engrossar a significativa proeminência da palavra princesa entre os livros analisados – o que ajuda a inferir, por exemplo, que ainda há uma forte indução criativa das fábulas mais clássicas no imaginário infantil. Essa mesma nuvem também nos permite inferir que as crianças utilizam suas publicações para expor sentimentos, informação que pode servir de base para desenvolver, pedagogicamente, habilidades socioemocionais.

É possível também observar tendências a serem aplicadas em salas de aula de redes de idiomas. Na nuvem observada a seguir, a partir dos títulos das obras, há uma significativa proeminência da palavra life, o que pode indicar obras autorais mais autobiográficas, sabendo-se que a autorrepresentação é uma das utilizações mais recorrentes no início dos cursos de idioma.

crianças escrevem livro

No desenvolvimento dos textos em escolas particulares, é possível verificar a forte tendência da autorrepresentação a partir do ambiente familiar. Nessa análise – além das palavras vez e dia, comuns em expressões como era uma vez ou um dia –, é possível observar que menino, menina, mãe e casa se repetem ao longo da produção textual. Não à toa, a relevância dessas palavras na amostra coincide com os primeiros desenhos mais comuns nos primeiros anos escolares.

palavras mais usadas por crianças

Esse trabalho gera dados que, em breve, podem ajudar as escolas a identificar tendências, padrões e preferências a partir de uma simples análise visual. Além disso, as informações podem ser utilizadas em pesquisas psicopedagógicas e orientar iniciativas em sala de aula segmentadas por região, tipo de escola ou até por turmas específicas.

A ampliação da plataforma em escolas brasileiras, apenas em 2018, vai envolver mais de 300 mil crianças. Os números ajudam a contabilizar o impacto, mas é a busca pela promoção da leitura e da escrita que nos move a buscar o que cada palavra tem a contar.

*Robson Melo, cofundador e diretor de Educação da Estante Mágica.

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