Cada ano mais velho

Mudanças na pirâmide populacional brasileira e aumento do número de idosos obrigam país a criar ações para terceira idade

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Sérgio Rizzo





Quantos somos, os que vivemos no Brasil? No momento em que esta reportagem era escrita, em meados de março, totalizávamos 178 milhões, 449 mil e 125 habitantes, de acordo com a estimativa, atualizada minuto a minuto, feita pelo site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No mundo, éramos, no mesmo instante, 6 bilhões, 211 milhões, 505 mil e 557 habitantes. Em cada 100 pessoas, cerca de três ocupam o nosso território.



Esses números grandiosos representam um desafio igualmente gigante à erradicação das desigualdades sociais brasileiras. O alento é que a situação seria muito pior se, a partir da década de 80, as taxas de crescimento da população brasileira não tivessem sofrido uma drástica redução. Para ter uma pequena idéia do pesadelo que não houve: se fossem mantidos os índices que perduraram até os anos 70 (
leia tabela na pág. X

), a população brasileira já teria alcançado a marca dos 220 milhões. Não é preciso um esforço muito grande de imaginação sócio-política para entender os problemas que seriam causados por esse contingente adicional de 40 milhões, equivalente à população atual da Argentina.



“Teríamos não só a necessidade de políticas de saúde e previdenciária voltadas para a população idosa, e de geração de uma quantidade extremamente maior de postos de trabalho para absorver a população que ingressaria no mercado de trabalho, mas também a pressão de um enorme contingente de crianças e adolescentes por vagas nas escolas”, estima o demógrafo Juarez de Castro Oliveira, gerente de Estudos e Análises da Dinâmica Demográfica do IBGE.



Ninguém precisa perder o sono por causa dessa distopia que não se realizou: seremos 220 milhões apenas entre 2025 e 2030. Até lá, no entanto, vão se aprofundar as transformações registradas nas últimas duas décadas pela pirâmide populacional brasileira, que abandona pouco a pouco o formato triangular (base larga, representando os jovens, e topo estreito, representando os idosos), típico de “países jovens”, para se aproximar do formato de “retângulo na vertical” (base e topo equivalentes), característico de “países maduros”.



Esse envelhecimento é traduzido pelo aumento da participação relativa da população idosa (a partir de 65 anos) e a conseqüente perda de representação da população jovem (de até 14 anos) no total. “São duas as conseqüências: um certo alívio para os formuladores e gestores de políticas públicas voltadas à educação e à geração de postos de trabalho para o segmento que ingressa nas chamadas idades ativas, pois esse grupo tende rapidamente a se estabilizar, mas, em contrapartida, uma dor de cabeça para os que estabelecerem ações para a promoção do bem-estar da população idosa, pois essa é a que mais crescerá”, prevê Oliveira.



“Somos ainda um país jovem, mas com uma população que envelhece a passos largos”, resume Maria Coleta Oliveira, presidente da Associação Brasileira de Estudos Populacionais. “Teremos ainda uma geração jovem importante, que demanda mais atenção da sociedade e dos governos.”




Para Maria Coleta, os desafios já estão claros no horizonte. “Com o envelhecimento rápido, as demandas de cuidado com os idosos aumentam. É um tipo de cuidado caro, que requer mão-de-obra especializada, e cobertura de saúde. Com a tendência de enxugamento dos recursos para a previdência social, imagino que a situação vai ficar mais complicada”, analisa.

Os governos tenderiam a jogar o problema para as famílias, que deveriam então cuidar dos seus velhos. Ocorre que as famílias, agora, são menores, muitas vezes desfeitas e refeitas por divórcios e novos casamentos.


“Além disso, a mobilidade das pessoas no espaço também aumentou, fazendo com que membros da mesma família residam em diferentes partes do país e mesmo no exterior”, lembra Maria Coleta. “Como ficam as obrigações tradicionais dos membros de uma família nessas circunstâncias? Vivemos um processo de redefinição e rearranjo das solidariedades familiares, ou seja, dos vínculos e compromissos que ligam as pessoas.”



A geógrafa Amélia Luísa Damiani, professora da Universidade de São Paulo e autora do livro
População e Geografia

(Contexto, 110 págs., R$ 18), também acredita que “teremos dificuldade de inserir os jovens nessa economia por demais financeira e, portanto, envolvendo ao mesmo tempo uma economia real e uma fictícia, sendo que a última não exige muitos trabalhadores, ao contrário, envolve uma mobilização monetária como fundamento, e não o trabalho”. Com isso, ela prevê uma inserção precária da população nos processos econômicos. “Somente mudanças econômicas radicais podem evitar os problemas sociais. Essa situação se repete no mundo, com certas diferenças.”, critica.



E como viverão os quase 40 milhões de habitantes com mais de 65 anos que o país terá em 2050? “O crescente volume de idosos demandará serviços de saúde, lazer, trabalho e integração na sociedade”, afirma Odeibler S. Guidugli, professor no campus de Rio Claro da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp). “Imagine só quanto isso custa em média hoje nos hospitais: qual o valor de um leito pediátrico e qual o de um leito geriátrico?”



Em São Paulo, observa Guidugli, diversos municípios já apresentam um total de mais de 100 idosos para cada 100 crianças e adolescentes. “São Caetano do Sul, na região metropolitana, é um dos municípios mais envelhecidos”, exemplifica. O geógrafo José Carlos Carreiro, vice-diretor da Escola de Aplicação da Universidade de São Paulo, defende que, primeiro, “é preciso efetivamente investir em educação e saúde, para que a população como um todo possa se beneficiar com as melhorias nas condições gerais de vida”. Depois, tanto os governos como a sociedade em geral “têm que aprender a tratar o idoso de outra maneira, com mais respeito e consideração, e não como um ser humano descartável, que já deu tudo o que tinha para dar e agora está fora. O Estatuto do Idoso, recentemente aprovado, é um dos caminhos, mas há muito a ser feito.”



Ainda está em tempo, no entanto, de o país planejar-se para esse cenário, pois virá uma longa fase de transição. “Em 1980, as maiores concentrações relativas de população no país estavam no grupo de até 4 anos de idade”, comenta o professor Alberto Augusto Eichman Jakob, do Núcleo de Estudos da População da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Já em 1991, o grupo dos 5 aos 9 anos era o maior. E, em 2000, o grupo que apresentou a maior participação relativa foi o de 15 a 19 anos. Atualmente, o grupo etário que mais tem crescido no Brasil é o de jovens e adultos. Portanto, ainda nos próximos anos seremos uma nação de jovens e, posteriormente, de adultos.”



Em relação às políticas públicas, Jakob acredita que, agora, é o momento de investir no mercado de trabalho para os jovens e na educação das crianças no ensino fundamental. “Com a globalização, o mercado de trabalho se modificou muito, priorizando terceirizações de atividades e automações. Foram mantidas nas folhas de pagamento pessoas mais qualificadas e experientes (adultos ou até idosas), ou com menores salários (mulheres), eliminando gradualmente aquelas que não se enquadram nessas características (os mais jovens). Assim, o jovem tem que competir com adultos, idosos e mulheres pela busca do primeiro emprego, e suas chances de êxito tornam-se mais remotas com uma menor escolarização e qualificação”, analisa.



Uma vez que famílias mais pobres têm menos condições de proporcionar boa educação para seus filhos, e quantidade maior de membros na família, o jovem desse grupo, segundo Jakob, é “duplamente prejudicado” por sua condição social.



Para mudar esse panorama, ele recomenda “investir na escolarização e profissionalização de crianças e jovens”, e principalmente no ensino fundamental. “Este é o momento propício, com a demanda cada vez menor de vagas para crianças de até 14 anos verificada atualmente”



A professora Márcia Milena Pivatto Serra, também da Unicamp, é incisiva em sua análise. “Temos uma nova oportunidade perdida, pois se tivéssemos nos preparado para essa grande massa populacional em idade ativa, o país teria a maior oportunidade de se desenvolver. Esses aspectos demonstram a importância do conhecimento demográfico da população, principalmente dos padrões atuais e futuros, como norteador de políticas públicas no país”, defende.








Serviço:






Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística


Site:




www.ibge.gov.br





 







 







 


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