Bruno Caravati

A obrigatoriedade do espanhol nas escolas e suas implicações

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Segundo dados da Unesco, depois do chinês, o espanhol é o idioma mais falado em todo o mundo como língua materna. São 417 milhões de falantes, sendo que desses 358 milhões o tem como primeira língua, distribuídos em 21 países, dos quais 19 estão situados na América Latina e 7 destes fazem fronteira com o Brasil.








 








Hoje, cerca de 30 milhões de brasileiros falam espanhol, um número que tende a crescer muito nos próximos dez anos, com a sanção da Lei




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, referendada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Esta Lei, que tem, segundo o governo, o objetivo principal de fortalecer as relações do Brasil com o Mercosul – hoje somos o único país da América Ibérica que fala português -, obriga as escolas públicas e privadas de ensino médio a oferecerem a língua espanhola. Os alunos, depois de cursarem os oito anos de educação fundamental, poderão optar por estudar o espanhol – atualmente as escolas são obrigadas a ensinar um idioma estrangeiro, à sua escolha. O processo para a implantação será gradual, devendo estar concluído em no máximo cinco anos.








 








O escopo da Lei vai atingir muitos estudantes (9,1 milhões de matrículas no ensino médio, de acordo com o MEC – Ministério da Educação e Cultura e com o Inpe – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) e trazer à tona uma discussão que data da década de 90, quando o boom do espanhol mostrou que o Brasil não estava preparado para o ensino da língua – nem com material didático, nem com corpo docente.








 








Em primeiro lugar, o ensino de uma língua estrangeira na escola regular envolve muita complexidade. Muitas vezes, a matéria fica relegada ao segundo plano pelos currículos escolares e até pelas pesquisas acadêmicas. Nesse sentido, a língua espanhola, apesar de ter adquirido status nos últimos anos, fica a mercê de questões impostas pelo poder econômico. Além disso, a semelhança com o português coloca o espanhol num patamar de “inferioridade”.








 








Depois, e talvez o mais agravante, para atender toda a demanda, será necessário contratar 200 mil professores com licenciatura para lecionar o idioma no Brasil. Isto é, alunos que no curso de Letras, após o primeiro ano, escolhem a licenciatura




em espanhol. Porém




, historicamente, a maioria dos estudantes opta pelo inglês em detrimento do espanhol.








 








Estes fatos geram um dilema, porque poucos profissionais têm o diploma, mas nem sempre o domínio do idioma, o que é essencial para os alunos. E a grande maioria dos profissionais disponíveis no mercado tem o domínio, mas não o diploma. Como seria, então, possível contratar 200 mil educadores com licenciatura para ensinar os alunos do ensino médio?








 






 








A meu ver, como professor de ensino de línguas há mais de 30 anos, há algumas alternativas. Uma, seria oferecer aos professores de espanhol que lecionam nos cursos livres cursos de reciclagem – que já são oferecidos somente para os acadêmicos – com o intuito de dar a estes professores de escolas particulares o respaldo acadêmico. A outra seria seguir o exemplo das escolas de idiomas de cursos livres: contratar profissionais com fluência e treina-los de acordo com o seu método pedagógico.








 








A maioria dos professores que leciona em escolas de idiomas não possui o curso de Letras com habilitação específica (alguns até a tem em outra língua, como o português, por exemplo). Também há os formados em outros cursos universitários, os que possuem apenas formação de nível médio em Magistério e os falantes nativos sem formação. Mas, todos esses profissionais têm a fluência e são treinados para ensinar dentro do método pedagógico de cada escola. Dessa forma, conseguem atingir o objetivo principal de toda a escola: ensinar os alunos.








 








Para sabermos o que as escolas vão enfrentar a partir de agora para colocar em prática esta Lei, devemos, antes de tudo, questionar a adequação dos objetivos propostos quando o idioma passar a ser oferecido para os alunos, o método e o material utilizados pelos professores, bem como suas causas e conseqüências. Se a Lei vai surtir o efeito desejado? Isso só será sabido daqui um bom tempo.








 










* Bruno Caravati é vice-presidente da Fundação Richard H. Fisk











 








 








 








 








 








 



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