Briga por espaço

Professores, pais e acadêmicos discutem o que está por trás da expansão das escolas charter nos EUA; eficácia do modelo e a filosofia educacional trazida por elas não são consensuais

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Alunos protestam na Califórnia em defesa da escola pública: escolas charter levantam discussão sobre o papel do Estado

Duas crianças de seis anos conversam no playground de uma escola em Nova York: “não posso brincar com você porque sou acadêmico, e você não”. O menino que proferiu a frase estuda na escola charter Pave Academy. Já o “renegado” é aluno da Public ­School 15 Patrick F. Daly. Ambas estão situadas na rua Sullivam, número 71, no bairro do Brooklyn. Desde 2008, elas dividem o mesmo espaço físico. Por esse motivo, a professora Julie Cavanagh, ligada à escola pública, registrou a cena acima.

Do outro lado da cidade, a diretora Julie Zuckerman, que dirige uma escola bem conceituada em East Harlem, enviou um pedido ao Departamento de Educação para abrir uma escola no bairro de Washington Heights. Sua ideia era trabalhar com um currículo sem o foco em testes padronizados. Em 19 de janeiro, ela recebeu o aviso de que o órgão já havia encontrado um espaço para sua instituição. Pouco tempo depois, veio a notícia: o lugar em questão seria transferido para a rede Kipp de escolas charter .

Os dois relatos colocam em evidência algo que vem movimentando o meio educacional americano: a deliberação do Estado de expandir as charter school s, escolas geridas por entidades privadas e financiadas pelo sistema público. Apoiado pelo próprio presidente Barack Obama, esse movimento tem crescido exponencialmente nos últimos anos. Dados da National Alliance for Public Charter Schools apontam que o número de escolas charter cresceu de 4.638 para 4.919 entre 2008 e 2010, o que representa uma variação de 6,2%. A projeção de crescimento para este ano é de 7,5%. A associação prevê que os estados com maior aumento no número de escolas sejam a Flórida (12%), Illinois (14%) e Nova York (20%). Em contrapartida, essas instituições atendem apenas 4% dos alunos norte-americanos. Os números instigam e têm levado professores e pais ao seguinte questionamento: por que é tão interessante para o governo expandir esse modelo de escolas?

É difícil dizer. Há pouco consenso até mesmo entre os acadêmicos. Aparentemente, as charter não levam os governos estaduais a gastar menos, porque a verba que é originalmente destinada ao aluno da escola pública é gasta mesmo após a mudança  para a unidade do modelo “público-privado”. Quem complementa o orçamento excedente são grandes empresas, entidades sem fins lucrativos e outros tipos de doadores – nos últimos quatro anos, a rede Kipp recebeu US$ 160 milhões (R$ 256 milhões) em doações corporativas. Em 2011, o orçamento total do Departamento de Educação de Nova York é de US$ 18,5 bilhões (R$ 29,6 bilhões), sendo que o Estado repassa US$ 13,5 mil anuais a cada aluno das charter .

Uma opinião comum entre os especialistas é a diversidade de escolas do modelo pelo país – encontrar uma única resposta à pergunta inicial é arriscado, já que o cenário muda de acordo com cada estado. Katherine Merseth, professora da Universidade Harvard e autora do livro Inside Urban Charter Schools (algo como Por dentro das escolas charter urbanas ), defende que o investimento se justifica por três motivos. O primeiro seriam as oportunidades de inovação – como estão livres da burocracia do Estado, as escolas podem oferecer melhores salários aos professores, estabelecer currículos diferenciados, aumentar a jornada escolar etc. Além disso, elas proporcionam um elemento que faz parte do ideário norte-americano: a chance de escolha. “Os pais podem realmente escolher em que tipo de escola querem matricular seus filhos”, explica. A terceira consequência supostamente benéfica da expansão das charter seria a competição entre escolas. “Tínhamos um monopólio. Foi preciso introduzir forças do mercado e novas ideias que levam as escolas a competir. A competição traz o que há de melhor”, defende.

David Berliner, da Arizona State University (ASU), segue uma linha de raciocínio diferente. Para ele, parte da resposta reside no fato de a educação ainda ser uma das áreas “intocadas” pelas grandes empresas em seu país – o que estaria realmente acontecendo é uma tentativa de privatização. “Há muito dinheiro nessa área. A agenda corporativa força essa expansão porque acredita que o mercado vai sempre funcionar”, justifica. Mas David também enxerga nessa expansão o esforço de educadores que estão engajados em escolarizar as crianças provenientes de famílias de baixa renda. “Há pessoas abrindo escolas charter para dizer ‘eu consigo fazer um trabalho melhor do que aquele feito pela escola pública'”, afirma.

Outra tese para explicar o porquê desse movimento é a de que, ao transferir uma parte de suas escolas para a iniciativa privada, o Estado teria menos “trabalho”. Katherine Merseth, da Harvard, a refuta e afirma que o trabalho é o mesmo. Em alguns casos, até maior, porque há estados, como Massachusetts e Nova York, que têm de supervisar o funcionamento das escolas. “Escolas públicas tradicionais nunca são fechadas por desempenho ruim”, completa. No Arizona, esse tipo de fiscalização praticamente não existe. “Em muitos estados, não há qualquer tipo de acompanhamento. Elas podem ter o desempenho baixo ano após ano e ninguém as fechará”, explica David Berliner, da ASU.

Resultados
A relação entre o investimento do governo e a capacidade de essas escolas produzirem um “modelo” passível de ser aplicado em escolas públicas tradicionais também é uma questão em aberto. “Não creio que haja qualquer pessoa capaz de dizer que elas produziram um modelo. Ou custam muito caro, ou fazem algo que já é feito”, explica. Berliner cita o caso de Geoffrey Canada, presidente da Harlem Children’s Zone, no Harlem, e um dos personagens principais do documentário Waiting for Superman , de Davis Guggenheim. “Sou fã do que ele está tentando fazer, mas se o modelo é gastar US$ 20 mil por aluno, não temos nada sustentável para a escola pública”, afirma.

Já Katherine acredita que há muitas ideias e técnicas que podem ser extraídas das charter . Como exemplo, cita uma prática das escolas Kipp conhecida por slant (inclinação). “É uma técnica que diz: sente-se, ouça, compareça, acene e rastreie quem está falando. Isso seria bom para qualquer sala de aula”, defende. Em seu livro, a professora da Harvard chega a uma conclusão: muito pouco do que é feito nas charter está longe da capacidade das escolas públicas. “Se aquelas que analisei oferecem prova de que os testes padronizados são viáveis, as públicas também possuem práticas de sucesso em artes, línguas estrangeiras e educação especial”, afirma.

A discordância entre os acadêmicos não é fortuita. Há pesquisas que apontam ganhos acadêmicos e outras que evidenciam as falhas de escolas do modelo charter . Um estudo realizado pelo Center for Research on Education Outcomes (Credo), na Universidade Stanford, aponta que 17% dessas escolas apresentaram ganhos acadêmicos melhores que os das escolas tradicionais; 37% apresentaram resultados piores e 46% obtiveram resultados iguais aos das escolas públicas. O trabalho analisou os resultados em testes estaduais de leitura e matemática em mais de 70% das charter nos EUA (ao todo, foram 15 estados analisados).

Por outro lado, uma pesquisa conduzida pelo departamento de Economia da própria Universidade Stanford revela os impactos dessas escolas em Nova York. Para realizá-lo, os economistas compararam os alunos que entraram em charter e aqueles que se candidataram mas não foram sorteados (a matrícula é feita por um sorteio chamado lottery ). 

Descobriu-se, por exemplo, que um ex-aluno de charter apresenta três pontos a mais para cada ano que passa dentro da escola no exame Regent, responsável pela emissão do diploma do ensino médio regular no Estado de Nova York. Por último, para cada ano que passam na escola, aqueles que frequentam as escolas do modelo têm 7% a mais de chance de ganhar o diploma Regent aos 20 anos.

Consenso: a evasão
Entre tantas divergências, há um problema apontado até mesmo por aqueles que trabalham nessas escolas: a alta taxa de evasão. Um estudo conduzido no início deste ano pela entidade de pesquisa SRI International descobriu que, nas escolas Kipp da área de São Francisco (Califórnia), 60% dos alunos deixam os estudos antes do término do ensino fundamental. A informação mais relevante é que há evidências de que aqueles que largam os estudos antes do tempo previsto são os mais fracos, e o fazem por conta do rígido programa conduzido pela Kipp (jornada integral, com aulas aos sábados, altas doses de lição de casa etc.).

Josh Zoia, diretor da Kipp Academy Lynn, em Boston, conta que esse foi um dos problemas que a escola encontrou logo após sua inauguração. No início, 35 alunos de um total de 350 deixavam a escola sem concluir o ensino fundamental. “Percebemos que dizer ‘tentamos mas não funcionou’ não era bom o suficiente. Isso acontecia porque as crianças não se relacionavam com os adultos da escola. Instituímos sistemas de tutoria e aconselhamento, passamos a oferecer matérias optativas”, conta. Hoje, a escola apresenta a menor taxa de evasão da rede Kipp: em 2010, 7 de 350 crianças não concluíram o curso. As aulas na unidade começam às 7h e terminam às 17h, e aos sábados vão das 9h às 13h. Além das disciplinas tradicionais, o currículo hoje abrange dança, futebol, artes marciais, basquete, artes e outras optativas. “As crianças devem fazer a lição de casa. Se não fazem, não participam do recreio, que existe para ser um espaço de diversão mas também é um motivador, um prêmio por bom trabalho”, diz.

A filosofia educacional por trás das escolas charter é mais um objeto de discussão. Em abril, uma professora (“Miss C”) fez um relato contundente a um blog sobre sua experiência em uma charter no bairro de South Bronx, em Nova York. Publicado no site de Mary Ann Reilly (maryannreilly.blogspot.com), também docente, o texto fala sobre o cotidiano da escola. “Fiquei horrorizada ao descobrir que meu dia inteiro era programado. Lembro de uma lição de matemática sobre os múltiplos de 10. ‘Depois de cada verso, diga uhn duas ou três vezes no ritmo’. Reduzi a experiência docente a regurgitar linhas de uma página”, escreve. “A programação incluía o que, quando e como ensinar, além de como colocar os alunos em fila, como ensiná-los a andar no corredor, o quanto e o quê dar de lição de casa, como arrumar os móveis, como distribuir lápis e giz de cera”, desabafa.

Questões em aberto
A realidade descrita por “Miss C” não pode ser aplicada a todas as escolas do modelo espalhadas pelos EUA, mas encontra eco na fala de pais que estão cada vez mais envolvidos na discussão sobre os rumos da educação no país. Christina LaBrie, advogada e mãe de dois alunos matriculados na Public School 9 Teunis G. Bergen, em Nova York, faz parte do grupo que luta pela expansão da escola, que só funciona até a 5ª série do ensino fundamental – a ideia é fazer com que a PS 9 ofereça todo o ensino fundamental. Entretanto, em 20 de dezembro do ano passado, a instituição recebeu a notícia de que passaria a dividir o espaço com uma unidade da Uncommon Shools, uma das maiores redes de charter no país. Há quatro meses, pais e profissionais ligados à escola brigam com a prefeitura por sua expansão – o Departamento de Educação ainda não tomou uma decisão final. Christina afirma que, independentemente da resposta, seus filhos só estudarão em escolas públicas. “A PS 9 é focada na criança como um todo. Há um comprometimento com artes e o ambiente não é rígido, entre outras coisas. É a educação que eu quero para os meus filhos”, diz.

Em meio a tantos interesses corporativos e demandas pessoais, resta saber o que o Estado americano, ali naquele ponto em que seus interesses se encontram com aqueles da sociedade americana, quer para si. Nesse caso, a soma de múltiplos projetos particulares não parece resultar em um projeto coletivo.







Entendendo os casos de Nova York
Além de construir um prédio novo ou alugar um edifício, os responsáveis por escolas charter têm outra opção para abrir uma nova unidade em Nova York: a sublocação. Isso significa que a charter se instala dentro do prédio de uma escola pública regular em caráter de “empréstimo”. Se na prática esse “empréstimo” de espaço deve durar meses, há casos de escolas que coabitam no mesmo ambiente por mais de três anos. Atualmente, duas em cada três charter estão localizadas dentro de escolas públicas na cidade. Segundo o jornal The New York Times , grandes redes (como Kipp e Uncommon Schools) dividem espaço com as escolas públicas sem custos. A Kipp não paga aluguel de suas sete escolas em Nova York; as sete instituições da Brooklyn Academy do Harlem e do Bronx também não. Da mesma maneira, a Uncommon School tem doze escolas pela cidade, todas sem custos de locação para a rede. Ainda segundo o jornal, 67% das redes que atuam segundo o modelo recebem espaços de graça em escolas públicas, contra 51% das charter geridas por educadores independentes.







Quem não espera pelo super-homem






Passeata em Nova York contra o filme Waiting for Superman

A discussão sobre as escolas charter faz parte de um debate maior, que tem mobilizado educadores e políticos nos EUA. De um lado, professores, sindicalistas e acadêmicos como Diane Ravitch, Deborah Meyer e o próprio David Berliner. Do outro, secretários de educação, gerentes de fundos hedge, presidentes de entidades sem fins lucrativos e bilionários como Bill Gates e Eli Broad. Para os primeiros, quem é responsável pela medição do desempenho das crianças é o professor. Os segundos acreditam que os testes padronizados cumprem esse papel. Da mesma maneira, defendem a expansão das charter (o que o grupo de professores abomina).

A briga chegou até o meio audiovisual: se o documentário do diretor Davis Guggenheim faz uma exaltação ao modelo das charter, a resposta elaborada pela professora Julie Cavanagh, junto com pais e educadores, faz o oposto. The inconvenient truth about Waiting for Superman , lançado em maio, parte do pressuposto de que os “heróis” da educação norte-americana são os professores e os pais, que estão engajados diariamente nas escolas. O documentário, que brinca com o nome de outro trabalho de Guggenheim (Uma verdade inconveniente), aponta o movimento de privatização da educação como o principal responsável pelas dificuldades vivenciadas pelos docentes e alunos na era pós-No Child Left Behind. Em comentário por e-mail, Diane Ravitch resume a ideologia daqueles que estão do lado dos educadores: “as charter realçam o abismo entre crianças de diferentes raças, classes sociais e condições econômicas. A elite rica as adora e pensa que está agindo segundo ideais nobres, mas o que está fazendo, na realidade, é minar a educação pública e apoiar a privatização”








O modelo chega ao Brasil

Dois documentos registram a chegada das escolas charter no Brasil. O primeiro, intitulado “A transformação da qualidade da Educação Básica Pública no Brasil”, é assinado por entidades como Casa do Saber, Fundação Bradesco e Instituto Unibanco e por especialistas como Francisco Soares e Ruben Klein. O texto incentiva a criação de arcabouços institucionais para regular a participação de instituições não governamentais na gestão de escolas públicas. A outra publicação, “Modelo de escola charter: a experiência em Pernambuco”, integra a coleção “Excelência em gestão educacional”, da Fundação Itaú Social. Maria Carolina Nogueira Dias, uma das autoras, afirma que as charter oferecem a possibilidade de experimentar práticas, mas é preciso ter cautela na discussão sobre o modelo no Brasil. “Se você não cria nenhum tipo de via de mão dupla entre a experiência e o resto das escolas públicas, fica confinado a uma ilha de excelência”, afirma.

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