Bola dividida

Especialista em jogos cooperativos mostra como é possível jogar estimulando a solidariedade – e não a competição

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Carolina Costa

O educador Fábio Otuzi Brotto usou muita raça para virar o placar de sua vida. Atleta e jogador de basquete por dez anos, em 1984 ele foi demitido do cargo de técnico da seleção de um clube paulistano. Dois anos depois, com a morte do pai, Brotto resolveu mudar de tática. Tinha dúvidas quanto às escalações que vinha fazendo na vida, sentia que seu time interior andava meio desanimado. Em 1992, sem dar bola para a torcida, deu um cartão vermelho para os jogos competitivos e fundou, com amigos e educadores, o Projeto Cooperação – Comunidade de Serviço.

A ONG, que nasceu em Santos (SP), já bate um bolão também em Florianópolis (SC), onde Brotto abriu uma filial e mora com a mulher e os três filhos. Ele, contudo, não aposentou as chuteiras. Hoje, o mestre em ciências do esporte e bacharel em psicologia ainda mostra ter fôlego de campeão: usa seu jogo de cintura para divulgar o conceito de jogos cooperativos, dribla as críticas à criação de uma “comum-unidade” mais solidária e, sempre que dá, se diverte em família, jogando Futepar e Xadrez Cooperativo. Abaixo, a entrevista que o craque concedeu, por e-mail, à
Educação

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Revista Educação – Não é uma utopia falar em jogos cooperativos num país que tem o futebol como paixão nacional?



Fábio Otuzi Brotto –



Poderíamos pensar assim, caso estivéssemos realizando esta conversa 12 anos atrás, quando o Projeto Cooperação iniciou a difusão de jogos cooperativos no Brasil. Naquela época, boa parte das instituições, dos grupos e das pessoas pensava que a competição era o único modo de vida possível e aceitável para resolver os problemas e realizar todas as metas desejadas. Hoje, falar em jogos cooperativos e promover a cooperação como um estilo de vida é bem diferente. Especialmente neste país pentacampeão, apaixonado pelo futebol e, cada dia mais, desafiado a alcançar vitórias reais em campos bem mais complexos e sensíveis – como os da justiça social, educação cidadã e qualidade de vida para todos. Em meu ponto de vista, somente pela prática de jogos cooperativos no dia-a-dia é que esses “campeonatos” poderão ser realmente conquistados.




O senhor defende que tanto a competição quanto a cooperação são valores culturais e não características inerentes à espécie humana. Mas vivemos em um mundo cada vez mais competitivo. Como lidar com isso?




Competição e cooperação são aspectos presentes em muitas formas de vida. Nos seres humanos, podem se manifestar mais ou menos intensamente dependendo das escolhas que fazemos, individuais e coletivas. Nos jogos cooperativos, costumamos dizer que existem muitos jeitos de ver e viver a vida. E são muitos os jeitos possíveis. Sendo capazes de reconhecer diferentes alternativas para jogar e viver, podemos escolher aquela que mais nos agrada, não é?


Torcer para o time, xingar a mãe do juiz e usar malícia no jogo não faz parte do “espetáculo” do esporte?




Sim, faz parte. Como também faz parte do esporte aprender sobre como ser mais íntegro; potencializar os princípios de uma coexistência pacífica; lidar com os limites externos e descobrir algumas “ilimitações” internas; valorizar as “pequenas vitórias” mesmo em meio a “aparentes derrotas”; reconhecer um solidário por trás do uniforme de um pseudo-adversário; celebrar cada gol, cada cesta, cada gesto, cada ponto como um presente singular oferecido pela vida para nosso infinito jogar. Tudo isso faz parte do mesmo “espetáculo”. Saibamos fazer nossas escolhas sobre qual “espetáculo” desejamos ver acontecendo nos campos do esporte e da vida.




Há quanto tempo existe o Projeto Cooperação? Como surgiu a idéia?




O Projeto Cooperação – Comunidade de Serviço, nasceu em Santos (SP), em 1992. Desde 2002 estamos também em Florianópolis (SC). Surgimos com o propósito de reunir pessoas, grupos e organizações para difundir jogos cooperativos e promover a cooperação para construir um mundo onde todos podem “venser” juntos. Hoje, somos um grupo de 16 pessoas atuando em quatro grandes focos: publicação de livros e boletins, realização de oficinas e cursos, organização de eventos cooperativos, pós-graduação e intercâmbio. Desenvolvemos programas em parceria com diversas instituições, como a Associação Palas Athena (São Paulo), a Universidade Holística Internacional (Brasília) e a Unesco (Brasília).




Qual é o objetivo desses jogos?




O principal objetivo dos jogos cooperativos é estimular a cooperação em quatro níveis interdependentes: consigo mesmo, com os outros, com o “inteiro-ambiente” e com a “comum-unidade”. Procuramos criar ambientes de “ensinagem cooperativa” suficientemente potentes para promover o desenvolvimento de algumas das principais competências da cooperação. Trabalhamos aspectos como confiança mútua, liderança circular, comunicação colaborativa, criatividade compartilhada, centramento, bom humor, liberdade, co-responsabilidade e “paz-ciência”.




O senhor atribui aos jogos alguns valores que extrapolam os limites do campo ou da quadra. Que valores seriam esses?




Por que os jogos são tão importantes para o desenvolvimento humano? Porque nossa maneira de jogar reflete nossa maneira de viver. Assim, podemos melhorar nosso jeito de viver aperfeiçoando nosso jeito de jogar. Nos jogos cooperativos, encontramos desafios que simulam a necessidade de resolver problemas, harmonizar conflitos e atingir metas e objetivos, nas mais variadas situações de nossa vida cotidiana. Buscamos despertar valores essenciais para a vida em sociedade.




O que é Futepar? E a Dança das Cadeiras Cooperativas?




Existem muitos tipos de jogos cooperativos: semicooperativos, de inversão, de resultado coletivo, de tabuleiro, de transformação e jogos cooperativos propriamente ditos. É importante saber sobre essas e outras modalidades quando desejamos oferecer jogos cooperativos para algum grupo, numa determinada situação, pois muito do sucesso ou fracasso de um programa está na adequação dos jogos a serem utilizados. O Futepar é um jogo semicooperativo, praticado como um jogo de futebol normal, mas jogado em duplas e com as mãos dadas. É bastante desafiador e divertido, incentivando os jogadores a ajustar os ritmos individuais num jeito de jogar comum. Já a Dança das Cadeiras Cooperativas é um jogo cooperativo propriamente dito. Baseado na brincadeira tradicional da dança das cadeiras, esse jogo convida os participantes a terminá-lo com todos sentados numa única cadeira. Vale lembrar uma coisa: um jogo cooperativo não garante que haverá cooperação. Apenas oferece melhores condições para que ela aconteça. Assim, é recomendável preparar adequadamente cada seção de jogos cooperativos, propondo desafios compatíveis com cada pessoa e grupo.




Dentro desse contexto, jogos de tabuleiro, como os clássicos War e Banco Imobiliário são “nocivos”? Nem o xadrez escapa?




Gisela e eu somos pais de três crianças: Tié, de 11 anos, Ilê, de 7, e Lyz, de 2. Brincamos bastante com eles e tentamos incentivá-los a jogar cooperativamente, em casa. Preferimos os jogos cooperativos de tabuleiro (Jogo da Terra e o Jogo Lugar Bonito), mas eles gostam também de outros jogos não propriamente cooperativos. Então, jogamos com eles Banco Imobiliário, Imagem e Ação, xadrez, rouba monte, videogame (os de luta não) e tentamos descobrir juntos como jogar cooperativamente os jogos competitivos. Muitas vezes, é mais importante aprender a lidar com a competição a partir de uma consciência cooperativa do que

evitá-la ou ignorá-la. E já existe o xadrez cooperativo, viu?




A formação que as universidades oferecem tem preparado bons professores de educação física?



Com certeza. Uma boa parte das universidades e faculdades dirigidas à formação e atualização de professores de educação física está sintonizada com os novos desafios impostos pelo jogo planetário. Muitas revisões estão sendo processadas na formação e no campo de atuação da educação física. E um dos sinais dessa renovação é a inclusão dos jogos cooperativos como disciplina curricular na graduação e a realização de cursos de pós-graduação
lato sensu

em jogos cooperativos, como o que realizamos em Santos (SP), em parceria com o Centro Universitário Monte Serrat (Unimonte), e em Florianópolis (SC), por meio de um convênio de cooperação institucional com o Complexo de Ensino Superior de Santa Catarina (Cesusc).

V


ocê gosta de futebol? Torce para qual time?




Olha, sou do tempo em que a gente brincava na rua e construía “campinhos de futebol” em terreno baldio. Jogávamos com bola de capotão, devidamente cuidada com camadas de sebo de boi. Não sou lá um craque, mas, naquele tempo, o que importava era o prazer de fazer parte da turma e chegar em casa com a sensação de um dia vivido intensamente. Jogava basquete, vôlei, handebol, corria, saltava, andava de bicicleta, soltava pipa, fazia carrinho de rolemã, brincava de esconde-esconde e polícia-e-ladrão, tudo na rua. Desde pequeno, em Rio Claro (SP), pulava o muro do estádio para torcer pelo Velo Clube; então, mudei para São Paulo e assumi ser palmeirense. Casei, fui para Santos e, com os filhos, virei “peixe”. Agora, estou decidindo ser Avaí ou Figueirense. mas, confesso, aqui em Floripa tenho muito menos pressa, porque o que, afinal, interessa é que continuemos bem à beça. Juntos.


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