Bizantinices

Reflexões sobre o tempo e os sujeitos

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Diz-nos a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que os professores gastam 13% do tempo letivo a manter a ordem na sala de aula. O estudo da OCDE recomenda às autoridades educativas que abandonem as políticas burocráticas. E abandonam?

Muitos anos atrás, quando da dita reforma curricular portuguesa, um dos pontos fortes do debate era "o tempo de duração de uma aula". E, no decurso de um congresso, alguém perguntou se eu estava de acordo com a carga horária em vigor. Respondi que "carga" era coisa de jegue, com o devido respeito pelo colega e pelo jegue, mas o colega voltou à carga. Perguntou-me se aprovava a alteração do tempo de aula de 50 para 90 minutos. Respondi, perguntando: 50 minutos ou 90 minutos para qual aluno?

Ficou arrumada a questão, ainda que eu acrescentasse (e ele já não escutasse) que, cerca de cem anos atrás, alguns pesquisadores chegaram à conclusão de que o "aluno médio" teria, "em média", uma capacidade de atenção seguida de cerca de 50 minutos. Que não é por acaso que as aulas duram, "em média", esse tempo. Mas que "pesquisas" recentes dizem-nos que as crianças do século 21 têm uma capacidade de concentração "média" de cerca de seis minutos. Finalizei, afirmando que a duração da aula é uma falsa questão. O problema consiste em ainda haver aula, seja de 50, seja de 90 minutos. Expliquei que teríamos de ultrapassar um discurso semeado de abstrações (aluno médio, carga horária etc.) para falar do jovem e do aluno concreto. Mas o debate acabou ali, fez-se silêncio, porque aquilo que é óbvio não carece de explicação.

Portugal e Brasil são países irmãos também nos absurdos. Em Portugal, a lei estabelece a idade de matrícula; no Brasil estabelece a "idade de aprender a ler" e a "idade de corte". Li num jornal: "A experiência afirma que o melhor período para aprender a ler é entre os 5 anos e oito meses e os 8 anos". E num outro jornal: "O governo federal pretende unificar em seis anos a idade em que os estudantes brasileiros começam a ser alfabetizados. A partir de 2010, nenhum aluno poderá ser matriculado, se não tiver completado seis anos até fevereiro. Se fizer o seu aniversário, nem que seja um dia após o limite estabelecido, terá de continuar a educação infantil".

O azar é daquele que nasce entre o "dia derradeiro" e o dia seguinte… Alguns estados aceitam matrículas de crianças que perfaçam seis anos até 31 de dezembro. Outros estabeleceram o critério do sexto aniversário até 30 de junho. Disposições legais fixaram o limite em 30 de março… Alguém saberá dizer por quê? Nem eu!

Quanto tempo se perde em questões bizantinas?! Já não se crê que seja possível deslindar o sexo dos anjos, mas insiste-se em determinar "a idade para aprender a ler" ou "a idade para ingressar no primeiro ano".

Quando foi matriculado no primeiro ano, o Daniel já sabia ler. Quando o visitei estava a fazer os trabalhos de casa: escrever uma frase sobre a ida ao circo. O Daniel já sabia ler, mas estava atrapalhado. Perguntei por quê. Disse: "Eu quero escrever que gostei de ver os palhaços". Insisti, porque desejava saber a razão pela qual o Daniel não queria escrever tal frase. Respondeu: "Não escrevo palhaços porque a professora ainda não deu o lh aos meninos!".

Culpa do Daniel, que aprende mais rapidamente do que o ritmo das aulas da sua professora. Culpa do Daniel, porque não cumpre o calendário estabelecido para aprender a ler…


José Pacheco


Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)



josepacheco@editorasegmento.com.br

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