“Seja em que momento for, o bilinguismo traz inúmeros benefícios cognitivos, sociais, culturais e econômicos”, defende pedagoga

Selma Moura, mestre em Linguagem e Educação, fala em entrevista à Educação sobre bilinguismo e defende que mesmo crianças pequenas podem começar a aprender uma segunda língua

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segunda língua a crianças

Pedagoga defende se é producente e indicado ensinar uma segunda língua a crianças pequenas  (foto:Shutterstock)

Escolas bilíngues, internacionais e cursos de idiomas iniciam muito cedo os estudos do segundo idioma com as crianças — aos três anos ou até menos. Uma boa parte de neurocientistas, pedagogos, educadores e pesquisadores considera negativo esse começo precoce. Educação entrevistou a educadora Selma Moura sobre o tema. Ela é pedagoga, mestre em Linguagem e Educação e especialista em Linguagem das Artes pela Universidade de São Paulo (USP).

Criança precisa mesmo começar a estudar outra língua tão cedo?

O ser humano nasce com potencial para aprender qualquer língua e, dependendo do contexto em que se insere, pode tornar-se bilíngue desde muito cedo. Dados indicam que mais da metade da população mundial é bilíngue, então o bilinguismo, ao invés de ser a exceção, é a regra na maior parte do mundo.

Mas e as idades?

Não há consenso entre pesquisadores sobre a idade ideal para iniciar a aquisição de uma segunda língua, mas o fato comprovado cientificamente é que, seja em que momento for, o bilinguismo traz inúmeros benefícios cognitivos, sociais, culturais e econômicos. O medo de expor as crianças pequenas a uma segunda língua geralmente está associado à dificuldade que alguns adultos tiveram em seu próprio percurso de aprendizagem de línguas, não à capacidade da criança de lidar com a complexidade de contextos bilíngues.

Sabemos muito pouco sobre como o cérebro funciona, mas temos descoberto mais e mais a cada dia. A capacidade do ser humano de se desenvolver em mais de uma língua já tem sido comprovada inúmeras vezes. A questão que realmente importa não é se a criança está preparada para essa exposição — mesmo porque sabe-se hoje que ela está —, mas sim como essa exposição será feita.

E sobrecarga, se houver, não será em função da exposição a mais de uma língua, mas sim em função de metodologias inadequadas de professores ou cobranças excessivas da família. A formação de professores é a chave para o sucesso da educação bilíngue, e a comunicação aberta com a família é essencial nesse processo.

A questão, então, não seria quando, mas como ensinar?

Exatamente. O tempo é circunstancial. O mais importante é que as oportunidades de aprendizagem sejam construídas de acordo com o perfil do aprendiz, seja qual for sua idade, respeitando suas necessidades e interesses.

Com crianças pequenas, a brincadeira é a forma de apreender e compreender o mundo. Com crianças maiores, a investigação, o jogo e a interação com seus pares são essenciais. Com adolescentes, seus interesses e sonhos são bons pontos de partida. E com adultos, suas necessidades e planos pessoais e profissionais são bons motivadores. O ideal é que os educadores estejam preparados para conhecer essas realidades e atuar sobre cada uma delas de forma planejada e bem embasada teoricamente.

pedagoga discute segunda língua a crianças

A educação bilíngue também desenvolve flexibilidade cognitiva, sensibilidade comunicativa, apreciação por outras culturas e o conhecimento acadêmico em todas as áreas (foto: divulgação)

Como deve ser o ensino de uma ou mais línguas para crianças até seis anos?

O ensino de línguas, bem como o de qualquer outra área de conhecimento, deve ser prazeroso, significativo e desafiador, respeitando a individualidade de cada criança. Não deve haver o peso da obrigação, pois isso é o que poderia gerar bloqueios no aprendizado.

A discussão tem como pano de fundo a agenda exageradamente carregada imposta a muitas crianças atualmente.

Muitas crianças hoje têm a agenda de um executivo. O ativismo exagerado, em que as crianças são obrigadas a ter cada minuto do seu dia preenchido com alguma atividade, é muito prejudicial ao desenvolvimento e à aprendizagem. Há pais que veem seus filhos como um investimento para o futuro e por isso, quanto mais “depositarem” conteúdos em suas cabeças, mais creem que poderão “sacar” os rendimentos deste investimento no futuro, como já dizia Freire na década de 80. As crianças – e também os adultos – precisam de tempo livre para descobrir o que fazer consigo mesmas, para refletir, para lembrar, para sonhar. E esse tempo livre tem se tornado cada vez mais escasso para todos nós.

Existem mesmo as tais “janelas de oportunidade” para aprender línguas? Em quais períodos elas vigoram?

Alguns pesquisadores, como Patricia Kuhl, têm encontrado evidências de que há momentos mais propícios para o desenvolvimento da linguagem, em função da neuroplasticidade presente nos primeiros anos de vida, e que se modifica e estabiliza ao longo do tempo. Suas pesquisas são muito interessantes, mas ainda estamos desbravando esse desconhecido território. Como educadora, parto do princípio de que o melhor momento para aprender uma segunda língua é o momento em que isso é possível. Todos podem beneficiar-se do aprendizado de uma segunda língua, seja qual for a língua, seja qual for a idade.

Quais as principais vantagens oferecidas pelas escolas bilíngues?

Quando feita com qualidade, a educação bilíngue, além de favorecer a proficiência em duas ou mais línguas, desenvolve a flexibilidade cognitiva, a sensibilidade comunicativa, a apreciação por outras culturas e o conhecimento acadêmico em todas as áreas. Dá aos alunos a oportunidade de se comunicar com um número muito maior de pessoas e, assim, ter sua voz e visão visibilizadas. Pode contribuir com a empregabilidade e com a colocação profissional ou acadêmica em outros países. O bilinguismo é, comprovadamente, uma das habilidades essenciais aos cidadãos do século 21.

E desvantagens?

Não há desvantagens intrínsecas à educação bilíngue, da mesma forma como não há desvantagens sobre o ensino de matemática, ou ciências. Mas pode haver em relação à forma como essa educação for feita, caso os professores não sejam bem formados, o currículo não seja bem desenvolvido e a avaliação não seja coerente e integrada, da mesma forma como pode ocorrer com uma educação monolíngue. O desafio, na verdade, é a qualidade do ensino. (EM)

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